Boca banguela ou pão-de-vento? I

Não foram poucas as vezes em que voltei faminto de um culto. E como isso aconteceu hoje, comecei a me perguntar se sou eu quem estou banguela ou se o pão era de vento. 150434_392566230794545_1023585296_n Tenho consciência de que às vezes continuo faminto, não por falta de pão, mas pela falta de reverência, pela falta de amizade, fraternidade e até pela minha falta de “dentes espirituais” pra conseguir mastigar o que Deus quer me dizer. Mas, às vezes, passo fome verdadeiramente porque o pão oferecido é feito de vento. Não sei dizer o que tem sido pior: minha higiene buco-espiritual ou o vento que vai na massa dos nossos padeiros-pregadores. Os dois são sérios. Mas quero falar sobre o segundo. A cada dez “sermões” que ouço, cinco não são sermões mas nem que a vaca tussa. Da outra metade, absorvo dois porque me deixo desconcentrar por coisas triviais. E então, com certa margem de erro (característica do IBOPE nas últimas eleições) saio com fome em 80% dos cultos. Mas me pergunto se o problema sou eu. Às vezes minhas frustrações são legítimas, de fato, mas às vezes não. E por legítimas eu me refiro àquelas que surgem quando ando ao lado de Deus. Tenho receio de me tornar só mais um crentezinho pós-moderno que diz amar a Jesus, mas não gostar de Igreja. Eu ainda acredito que sem comunidade não existe comunhão. Um dia, passeando pelo Facebook, vi uma frase do Matheus Cardoso que dizia algo parecido com:

Exigimos que nossos pregadores subam ao púlpito de terno e gravata, mas não ligamos de ouvir sermões que nem sequer abrem a Bíblia.

Não está transcrito ipsis litteris, mas acredito que captura a essência da idéia, que basicamente evidencia uma preocupação maior com as tradições culturais do que com a essência do nosso cristianismo. E eu acredito que esse é o vento que tem recheado alguns de nossos pães: não levamos a única Massa que presta a sério. E essa ideia explica minha frustração constante com os sermões que tenho ouvido: se não é uma exposição bíblica então não é sermão coisa nenhuma e não deveria ser o tipo de prato oferecido num culto. John Stott, em um artigo publicado no livro A Arte e o Ofício da Pregação,  uma compilação de mais de duzentos artigos sobre o tema (recomendo!), defende uma definição do que é uma exposição bíblica, baseando-se em seis convicções. Eu acredito que essas certezas são de inigualável valor, por parecerem estar sendo abandonadas, cada dia mais – gerando em mim parte da minha frustração e do buraco no estômago no sábado de manhã. As duas primeiras convicções se relacionam com o texto bíblico e nos mostram o que devemos expor e por quê fazê-lo:

(1)  A Bíblia é um produto da revelação, inspiração e providência de Deus –  Por que essa certeza é importante? É bem simples, John Stott coloca que se Deus não houvesse falado, nós não nos atreveríamos a falar. Isso se chama revelação, a iniciativa de Deus em se tornar cognoscível, ou seja, poder ser conhecido. A inspiração é a forma pela qual Ele fez isso: usando os profetas e apóstolos do passado, para que Suas idéias fossem traduzidas nas palavras deles. Já a providência é o ato de Deus ter preservado Sua mensagem a nós hoje, por um motivo nada complicado: Ele fala a nós pelo que falou no passado. Inundado por essa certeza Amós diz “O leão rugiu, quem não temerá? O SENHOR falou, quem não profetizará?” (Am 3:8) Sem essa consciência, tornamo-nos seres vazios cuspindo trapos e farrapos atrás de um púlpito em vez da mensagem do Deus vivo. Com essa certeza, podemos ter o coração tremendo, pegando fogo, como os discípulos no caminho de Emaús, por sabermos que o Deus Criador quis se fazer conhecido, fez com que o o que disse fosse escrito e preservou tais registros pra que nós, hoje, também pudéssemos conhecê-Lo!

(2) A Bíblia é, em certo sentido, um texto fechado que precisa ser esclarecido – A lógica dessa convicção é de fato bem simples. Você explica algo que precisa de explicação. Se algo não precisa de explicação, você não tem professores, mestres ou etc falando sobre aquilo. A Bíblia é um livro transparente e acessível para o inculto, sim; nosso Mestre é o Espírito Santo, sim, também. Mas essa “clareza”, defendida pelos reformadores, refere-se à sua mensagem central: a salvação somente pela fé em Jesus. À parte disso, nem tudo na Bíblia está claro. E se não está claro, precisa ser esclarecido. Eis o motivo pelo qual Deus ainda concede à sua Igreja mestres e professores (Ef 4.11). Se isso não fosse verdade, quando Felipe perguntou ao eunuco “Você entende o que lê?”, ele teria respondido “É claro que entendo. Você não acredita na clareza e acessibilidade da Palavra de Deus?”. Mas não foi bem isso que ele disse (At 8.31). Ou então Pedro não diria que existiam escritos de Paulo complicados de compreender. Portanto, a definição segue: expor a Bíblia é esclarecer o texto Bíblico. As duas convicções seguintes, são a respeito das nossas obrigações em relação ao texto e nos mostram como expor o texto bíblico:

(3) Fidelidade ao texto (O que ele significou quando foi escrito?): Existe um abismo cultural entre nossos tempos e o contexto bíblico. Ainda mais quando consideramos que somos muito mais influenciados pela cultura helênica (grega) do que a judaica, o que dificulta mais ainda. Isso acaba exigindo de nós uma grande disciplina para nos inserirmos na situação dos autores bíblicos, entendendo sua geografia, história, cultura, linguagem. Mas isso fica extremamente difícil na realidade de um povo que lê  1 (leia-se: UM) livro por ano, que não tem o hábito da pesquisa e do estudo e que passa a maior parte do tempo livre em diarreia mental com entretenimento barato. E não, esse não é um trabalho de teólogos, mas de leigos. De cristãos. Rejeitar isso é desprezar a maneira pela qual Deus escolheu falar ao homem. E é por isso que impomos nossa mente do século XXI aos escritos bíblicos, é por isso que temos tantas heresias criadas por interpretações falaciosas. Se não sabemos o que ele quer dizer, como aplicar sua mensagem? Através do sermão trampolim. Use um texto para pular dentro da piscina das suas idéias pessoais. É verdade que a maioria das vezes isso acontece sem intenção de perpetuar o erro, mas isso não muda o fato. Em um dos últimos sermões que ouvi, por exemplo, foi utilizado o texto de Lv 3.17 para mostrar que não devemos comer gorduras saturadas. O texto não permite isso. A proibição do consumo de gordura é pelo fato de ela ser dedicada a Deus, por meio da oferta queimada, e não por uma questão de saúde, que foi o argumento dado. Além do mais, nem toda gordura saturada é ruim, somente as de cadeia longa. Esse tipo de erro é comum se não nos preocupamos com a fidelidade ao texto.

(4) Sensibilidade para com o mundo moderno (O que significa para nós hoje?)-A Bíblia não é só um livro de história. Como falamos no item 1, acreditamos que Deus nos fala através do que nos falou. E isso, por implicação, significa dizer que esses escritos têm impacto no mundo de hoje. Portanto, o expositor bíblico é mais do que um exegeta, ele não só explica o significado original do texto, mas aplica o seu princípio na realidade em que estamos inseridos. Mas a aplicação precisa nascer do seu significado original. A ausência dessa sensibilidade gera choques culturais que afastam as pessoas da verdade. Poderíamos considerar a questão do uso de calça pelas mulheres, por exemplo. Uma vez vi um pregador defendendo seu uso exclusivo, pela distinção necessária no vestuário feminino e masculino, prezado por Deus. Ainda que isso seja verdade, quanto tempo faz que a calça não é mais uma peça de vestuário exclusivamente masculino!? Em determinado momento da história, essa regra pode ter sido a aplicação de um princípio bíblico. Mas será que o é hoje? Pelo foco dado à regras culturais e não aos princípios bíblicos, temos uma geração que não sabe se vestir de forma decente, modesta, simples. Mas esse é só um exemplo dentre muitos. Fidelidade e sensibilidade. É um processo difícil, eu sei. Mas não devemos falsificar a palavra para se obter uma pretensa relevância. Muito menos ignorar a contemporaneidade para se obter uma pretensa fidelidade. É a combinação dos dois que cria o expositor autêntico. E isso sim, é raro. As duas últimas convicções são a respeito das expectativas que devemos ter como consequência dessa exposição bíblica:

(5) Podemos esperar ouvir a voz do próprio Deus –  Por que reclamamos  da oratória do pregador? Por que reclamamos se ele era gago, inculto ou simples em seu português? A verdade é que esperamos um showman, um apresentador, um comediante. Tudo, menos a VOZ DE DEUS. pregador-eficaz E isso, claro, porque nós criamos uma forma de ler a palavra de Deus da qual nenhuma palavra de Deus jamais surge. A convicção de ouvir a voz dEle era uma realidade na pregação dos apóstolos. Sempre, ao citar as escrituras, eles diziam “Assim diz o Senhor” ou ” Está escrito”. Contaminados pelo zeitgeist de nosso tempo, somos levados à Igreja com uma mentalidade consumista, de alguém que espera ser entretido e bem servido. Criticamos o pregador na hora do almoço, porque isso é tudo o que ele é: um mero pregador. A expectativa de ouvir a voz de Deus em nossos corações simplesmente morreu. E ela precisa renascer.

Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. – Hebreus 4:12

(6) O povo de Deus obedecerá a Sua voz – A ação de falar, oriunda da parte de Deus, exige uma resposta. E biblicamente, ouvir é um conceito prático, como comenta Eduardo Rueda (veja mais aqui ). Decadência espiritual se deve em grande parte à falta de disposição  ou à incapacidade de ouvir (no conceito hebraico!) a voz de Deus através da sua Palavra.  Quando cada um de nós, vivermos andando com Deus individualmente, a Igreja como um todo andará com Deus. Quando nós, verdadeiramente, ouvirmos Sua voz, o mundo também ouvirá. E, portanto, a certeza de que o povo de Deus o ouvirá quando Ele falar é essencial. E por mais que achemos que essas convicções sejam parte de uma realidade morta, Deus pode levantar um defunto de quatro dias. E acabar com minha fome. PS: no próximo eu falarei sobre minha escova de dentes.


4 comentários sobre “Boca banguela ou pão-de-vento? I

  1. Aceito um sermão num Português não muito correto, desde que tenha conteúdo. Há alguns meses ouvi um nessas condições… mas o pregador, pessoa simples, pregou muito bem e um pouco mais. Vivência… tem muito peso. No extremo oposto, não mais aceito sermão em que o pregador venha falar de comprimento de cabelo, maquiagem, etc e tal. Levanto-me e saio. Nem show… alguns só faltam soltar fogos.

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    1. Hahaha sim é bem isso mesmo.. O meu próximo postar eu vou falar sobre isso, sobre como às vezes impedimos Deus de falar conosco por coisas triviais (gramática, sotaque, etc).
      Mas ainda há muita gente que julga trata a mensagem da graça como “leite com açúcar” e diz que “pão mesmo” é falar sobre como as “irmãzinhas” estão se vestindo mal. Deplorável.

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