Paraíso Perdido

Já passa das nove quando ele chega do trabalho. Ouve alguns crac-cracs conforme os pneus vão rolando no chão da garagem. Respira fundo antes de sair do carro, sabendo que a noite vai ser longa. Sobe as escadas, apreensivo, com o corpo pesado, como se houvesse voltado de uma guerra. Tem vontade de voltar para o carro, sair, passar a noite em um hotel. Esperar pelo próximo dia, e o outro, e o outro. Pelo menos no trabalho me valorizam. Mas já está em frente à porta da sala, onde vê algumas coisas suas jogadas e outras colocadas dentro de um saco.

Assim que abre a porta encontra um corpo frio, feminino, sentado em um sofá, quieto, calado, ferido. Entra como se não houvesse ninguém ali. Come como se não houvesse ninguém ali. Dorme como se não houvesse ninguém ali. E assim voam os dias, na solidão acompanhada.

Ou…

Assim que abre a porta, é recebido com palavras espicaçantes, flamejantes. Cada movimento é motivo para uma provocação. Cada pergunta é devolvida com respostas entorpecidas pelo vinho envelhecido do ressentimento e da frustração. Ele resolve suportar a cena por alguns minutos. Logo as crianças também começam a chorar, querendo atenção, assustadas, pedindo para mamãe parar.

A cena funesta continua. Decide parar de suportar, não engolir tanto desaforo, afinal, depois de fazer alguns esforços é mais fácil justificar a retaliação, expiar a culpa de suas escolhas. Assim pode dizer “Eu tentei”, quando tiver que se explicar para os amigos, seguido de um “mas ninguém é de ferro; por que só eu tenho que ser humilde?”. Ilude-se com suas meias virtudes, que na verdade são os piores vícios. E então: gritos, xingamentos, palavrões, lágrimas, estilhaços de corações.

(…)

No fim de semana, a filhinha de dois anos diz para a vovó, com sua fala singela: “Não quero ir pra casa, papai e mamãe gritam muito”. O outro filho, adolescente, nunca se sentiu respeitado, não acredita no casamento, nunca viu Deus em seus pais, corre o risco de se perder na escuridão.

Isso tudo não é ficção, mas uma realidade mortificante testemunhada por mim mesmo, na vida de pessoas queridas. Não uma, não duas, mas muitas vezes.

Eu quase consigo ouvir a pena inspirada roçando no papel, enquanto escreve sobre o fardo que somos obrigados a carregar por conta de um relacionamento errado, precipitado, impulsivo. Um fardo capaz de destruir tanto a vida breve quanto a eterna. Com nossas escolhas burras, mandamos construir a prisão de Alcatraz, onde deveria ser o Éden, e fazemos dela nosso palácio.

Fico impressionado ao ver o quanto estamos despreparados para lidar com relacionamentos. Os nossos, os de nossos amigos, os de nosso filhos. E os “professos casais cristãos”. de forma geral. vivem uma falsa realidade, cheia de verdades impraticadas, que não parecem ter valor algum.

Quando estava recém-casado, mal me lembro quantas inúmeras vezes ouvi a frase: “Aproveite agora, a lua-de-mel, porque depois…”. Depois o quê? Quer dizer, se Deus criou o casamento, a família, para ser algo bom, perfeito, por que preciso aproveitar agora e não a vida toda? Será que essas pessoas que dizem isso não percebem que estão mostrando o quão desiludidas estão com esse presente de Deus? Tudo que ouço em frases como essas é o grito abafado de socorro de um cônjuge infeliz. E essa é a realidade de nosso mundo cristão, em relação ao casamento e à família. Vivemos presos em grilhões, cadeias sufocantes, acreditando que esse é nosso destino infausto, derradeiro. E tudo isso enquanto nos cobrimos com capas e jaquetas de falsa alegria, de oca santidade, receosos de estragar nossa reputação por um pedido de ajuda, por uma confissão.

(…)

“Seja bendita a tua casa, alegrando-se sem uma esposa na tua juventude”.

Eu não me lembro de ler esse verso.

” Uma pessoa sozinha lucra mais do que duas, pois não precisa dividir. Se cair, pode pagar para alguém levantá-la, sem ter o compromisso de ajudar. E quando está frio, esquenta-se sozinho, para não ter que se preocupar com mais ninguém. Duas pessoas podem se defender melhor, mas uma só não tem nada a perder. Um cordão rompido não precisa preocupar-se em não se romper.”

Muito menos desse. Mas são as paródias bíblicas que a nossa cultura parece ecoar, dia após dia.

Na cultura judaica, o casamento era algo certo na vida de qualquer um. Ser solteiro era ser inútil e viver era se preparar para ter uma família. Estar casado é assumir todo o potencial de representar a imagem e semelhança de Deus. Mas essa aventura magnífica não tem mais o mesmo papel na nossa realidade “pós-mórbiderna.” Lembro-me quando participei do curso de noivos. Passei algumas horas penosas numa capela ouvindo algumas palestras rasas, obrigatórias, e pronto. “Só para comissão aprovar o casamento”. Uma mera burocracia.

Norman Wright, em seu livro Aconselhamento Pré-Nupcial, deixa claro que cursos de noivos como esses não fazem diferença nenhuma na vida de uma casal. Compare casais que o fizeram e casais que não fizeram, depois de 5 anos, e você verá. A mesma satisfação. A mesma taxa de divórcio. É perda de tempo,(e não estamos vendo isso?) e um tapinha na consciência da igreja, que acha que está cumprindo seu papel. Um bom preparo deveria durar pelo menos alguns meses e ser bem mais profundo que isso, com muita conversa e prática…  Mas será que há interesse? Disposição em sacrificar alguns episódios do meu seriado favorito ou algo parecido?

O problema é que há muito tempo deixamos de nos importar. Veja o contraste: passamos 4, 6, 10 anos estudando para exercer uma profissão, mas muitos não leram sequer 1 livro sobre casamento, não participaram de 1 só palestra sobre o assunto.  Nós simplesmente não damos a mínima. Num mundo onde todos ficam, namoram e “desnamoram”, casam e “descasam”, a educação matrimonial se perdeu. Não somos educados para casar, mas para sobreviver sozinhos. Não somos criados para aprender a compartilhar uma vida, mas para sermos completamente independentes. Aprendemos o que precisamos com os filmes, novelas e romances. Nossos relacionamentos são moldados pela cultura consumista, imediatista e hedonista de uma sociedade doente; serenamente deixamos que esses valores invadam nosso coração, e ainda o recebemos com banquetes. Cada um pensa o que quer, age da forma que quer e pela misericórdia de Deus, uns poucos dão certo. Não é à toa que a taxa de divórcio entre cristãos não seja diferente quando comparada com o resto do mundo.

EU cansei disso. Não sei você. Mas quero ser feliz com minha esposa. Quero que meus filhos sejam felizes em minha família. Quero que meus vizinhos vejam DEUS na forma como sou feliz dentro do meu lar. E que os anjos morem aqui. Tudo isso faz parte da eficácia da presença real, transformadora do Deus que criou o casamento e a família.

Mas também quero que essa seja a realidade de outros.

Não escrevi essa matéria para falar sobre tudo que precisa mudar; seria impossível, seria chato.

Não, esse é um apelo para você se importar, ter consciência. Vou começar a postar material sobre esse tema. Material prático, sugestões de leitura – faça alguma coisa! Um casamento de verdade não vem no brinde do Mc Lanche Feliz e nem nas revistinhas de “10 passos para se dar bem no amor”. Não cai no seu colo enquanto você come mingau ou joga PS4. Antes, é fruto de muita oração, dedicação abnegada, trabalho árduo e aprendizado constante. E eu, particularmente, acredito que seja uma das melhores formas que Deus tem para nos transformar mais em Sua imagem e semelhança.

Porém, também é uma das melhores formas de nos tornamos parecidos com o Diabo. É você quem vai escolher quais serão os frutos, dependendo do que estiver plantando.

Importe-se com o casamento. E a falta de pronome possessivo é proposital. É “o casamento” e não “o seu”, somente.

O de seu filho, o de seus amigos, os de sua igreja, o seu futuro, o seu despedaçado.

Está solteiro? Não espere chegar a “hora certa”, prepare-se a partir de hoje para não ser o protagonista da história do começo. Está casado? É melhor prevenir do que remediar, por mais clichê que seja esse provérbio. O casamento é uma das únicas coisas que nos sobrou do Éden e ainda pode ser uma das maiores fontes de satisfação nessa vida, tudo vai depender de quem é o seu Jardineiro.

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3 comentários sobre “Paraíso Perdido

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