As Crônicas de Nárnia: Consciência 828 e O Peregrino da Alvorada

Umas trocentas pessoas já me perguntaram por que dei o nome  “Consciência 828 – Vivendo Inconformadamente em Terra Estranha”. Eu não posso negar que a ideia desse título surgiu quando refletia sobre o livro “O Peregrino da Alvorada”.

(spoiler a seguir)

Bem, se você conhece a história mencionada, talvez dê pra ter uma noção. Caso contrário, esqueça, nem tente adivinhar.

Mas aqui estão meus motivos:

1. O Peregrino da Alvorada é, talvez, o meu livro favorito de todas as Crônicas de Nárnia. E digo talvez porque não sei com quem me identifico mais: se com Eustáquio ou com Edmundo. Mas acho que com Eustáquio.

“Era uma vez um garoto chamado Eustáquio Clarêncio Mísero, e na verdade bem merecia esse nome. (…) adorava bancar o mandão e chatear os outros. (…) sabia que há muitas maneiras de aborrecer os outros. (…) era bestalhão demais para imaginar seja lá o que fosse.” A Viagem do Peregrino da Alvorada, pág. 403

2. Para mim, O Peregrino da Alvorada é uma tremenda história de Graça, com uma sequencia impressionante do que consiste uma verdadeira conversão. Pra quem não conhece, em resumo simplório , a obra conta, entre outras coisas, a história de Eustáquio, um garoto chato, mimado e arrogante, que não acredita em Nárnia, em Aslam e nada do tipo. Não acredita nem quando está lá. E por conta de sua arrogância, egoísmo e ambição, acaba se tornando um dragão.

E quando percebe que é um dragão, começa refletir como não havia sido o ótimo garoto que julgava ser. É como se, vendo o reflexo do que parecia, estivesse encarando o que era, de fato – e ele agora sabia. Reconhecimento da escória que sou, é o que diria. E depois, lógico, todo tipo de esforço que se pode imaginar para mudar a situação – mas sempre em vão. Até que, num determinado momento, Aslam aparece e pede que ele tente tirar sua pele, suas escamas, só para que ele saiba que não importa o que fizesse, nunca conseguiria. Então Ele mesmo, com algumas unhadas doloridas, mas aliviantes, retira todas as suas escamas e praticamente o “batiza”.

“Assim, comecei a esfregar-me, e as escamas começaram a cair de todos os lados. Raspei ainda mais fundo e, em vez de caírem as escamas, começou a cair a pele toda, inteirinha, como depois de uma doença ou como a casca de uma banana. Num minuto, ou dois, fiquei sem pele. Estava lá no chão, meio repugnante. Era uma sensação maravilhosa. Comecei a descer à fonte para o banho. Quando ia enfiando os pés na água, vi que estavam rugosos e cheios de escamas como antes. “Está bem”, pensei, “estou vendo que tenho outra camada debaixo da primeira e também tenho de tirá-la”. Esfreguei-me de novo no chão e mais uma vez a pele se descolou e saiu; deixei-a então ao lado da outra e desci de novo para o banho. E aí aconteceu exatamente a mesma coisa. Pensava: Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia agüentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair.”  A Viagem do Peregrino da Alvorada, pág. 451

Depois, já menino, volta para a companhia dos amigos, transformado. E a partir daquele momento ele creria no Leão, e com certeza, viveria de forma inconformada em seu mundo, até que voltasse a Narnia. Mas tudo isso só depois de perceber o quanto precisava dEle, para continuar a ser menino e não dragão.

“Seria bonito e muito próximo da verdade dizer que, dali por diante, Eustáquio mudou completamente. Para ser rigorosamente exato, começou a mudar. Às vezes tinha recaídas. Em certos dias era ainda um chato. Mas a cura havia começado.”

– As Crônicas de Nárnia: O Peregrino da Alvorada, capítulo 7

E aqui chegamos ao porquê do nome escolhido.

Tenho certeza que se alguém perguntasse a Eustáquio se ele preferiria nunca ter virado um dragão, ele responderia “Não pergunte tal bobagem, nunca me aconteceu coisa melhor.” E sabe por quê? Pois no fundo carrega a certeza, a Consciência de que um certo verso é mais do que verdadeiro:

“Pois todas as coisas cooperam para o bem daqueles que servem a Deus, e são chamados segundo o seu propósito.”

– Romanos 8:28

Pegou? Todas.

Até mesmo se você precisar se tornar o próprio dragão para encontrar o Leão.

Essa é a Magia Profunda, a imperscrutável graça de Deus.

E pra inspirar, fica essa…


2 comentários sobre “As Crônicas de Nárnia: Consciência 828 e O Peregrino da Alvorada

  1. Maravilhoso!!! Me emociono sempre!! E assim é conosco quando nos deparamos com o Leão da Tribo de Judá…nossa pele morta, nossas escamas são retiradas e o novo floresce!! Glória a Deus por nossos modernos, mas não menos inspirados pelo Espírito Santo, escritores .

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