O desconhecido

(Essa paródia se baseia na história contida em I Reis 13)

Era só mais um dia comum na cidade. O rei estava iniciando os preparativos para as festas nojentas que ele mesmo havia criado. Desde o princípio fiquei desconfortável quando o povo o nomeou rei, quer dizer,  ele havia passado muito tempo no Egito e estava visivelmente diferente. Qualquer criança poderia dizer que a fé de nossos pais o havia deixado,   assim como a água do orvalho deixa a relva com o calor do sol. Era loucura nomear um homem desses rei!  Imagino que tenha sido persuadido pelas lendas e pela “sabedoria” dos egípcios. E, de fato,  passei a acreditar firmemente nisso quando o vi forjando os bezerros de ouro e dizendo que aqueles eram os nossos deuses,  que nos libertaram do Egito no passado.  Cão!  Como tem coragem?

Mas eu não tenho o direito de reclamar. Afinal,  nunca tive coragem de me levantar contra ele e arriscar a minha vida. Que o SENHOR tenha misericórdia de um rato como eu. Gostaria que meu pai,  tendo sido um profeta,  tivesse essa coragem,  em vez de deixa o favor do Criador para manter seus próprios interesses, predizendo falsas mensagens ao Rei.

Eu desejava estar fora da cidade,  mas meus irmãos insistiram que seria uma boa oportunidade para os negócios. Muita gente se acumulava em Betel nesses dias de festa e gastavam muito dinheiro naquela euforia mórbida. Nessas ocasiões eu normalmente ficava tão distante quanto possível do altar, ajudando com os carregamentos nos camelos.   Mas naquele dia havia alguma coisa diferente no ar,  uma certa expectativa que flamejava meu coração… Não sei bem explicar. A verdade é que esse sentimento me impulsionou a me esgueirar pela multidão e me aproximar o máximo que pude. O dia estava muito belo,  com um sol invicto refulgindo no mar de céu.  Mas nuvens começaram a surgir do nada, chocando-se, fundindo-se.  Em poucos minutos uma penumbra estremecedora pairava sobre todos.

 As pessoas ficaram em silêncio, com um certo ar de ansiedade enquanto observavam a cena celeste.  Foi quando um senhor,  encapuzado,  aproximou-do altar. Parecia ignorar a presença do rei.  “Não é irônico que um lugar que deveria se chamar casa do SENHOR esteja sendo usado para adorar esses deuses nojentos? “, perguntou ele.  O povo ficou atônito, sem fôlego. Qualquer  um sabia que um atrevimento como esse lhe custaria a cabeça.  Mas ele continuou e dirigindo-se ao altar,  proferiu uma profecia sobre um rei que chamaria Josias e queimaria os próprios sacerdotes em cima daquelas pedras; seus ossos se tornariam cinzas.

Aquele era um profeta.  Tinha que ser! Aquela presença solene…  Era como se o próprio Eterno estivesse ali.

“E como sinal dessa verdade, o altar se rachará e assim vocês saberão que essa é uma palavra do SENHOR, o Deus único a quem vocês rejeitaram”, continuou ele.
Eu nunca havia visto o rei Jeroboão tão irado. Seu rosto estava vermelho e seu maxilar tremia. Em resposta ao profeta,  estendeu o braço e bradou “Tragam-me a cabeça desse homem!”. Mas antes que os guardas tivessem tempo de desviar o olhar do rei para o profeta,  viram o braço de Jeroboão escurecer, para logo em seguida retorcer-se como se nem tivesse ossos. O rei caiu ao chão, dado gritos de dores abafados pelo barulho que as pedras fizeram ao se rachar, confirmando o sinal predito pelo homem.

Jeroboão,  humilhado, com o rosto suando de dor, implorou ao profeta que orasse ao SENHOR para restaurar o braço contorcido,  apodrecido.  O homem ouviu as palavras em silêncio, com olhos de compaixão que não se desviavam do rei. Sem respondê-lo, cobriu a cabeça e dirigiu a voz alto,  dizendo “Criador perfeito,  Deus eterno,  Pai maravilho,  tenha misericórdia desse homem e desfaça  a merecida maldição para que saiba hoje que não existe outro Deus,  nem em Israel, nem em qualquer terra de além-mar, que seja disposto a perdoar e salvar tão logo a fronte do coração seja virada a Ti em arrependimento!”. Instantaneamente o braço do Rei voltou ao normal. Entre a multidão eu via muitos de joelhos,  chorando,  inclusive alguns dos falsos sacerdotes (que nem eram levitas!). Outros se afastavam, tão irados quanto o rei há alguns minutos. Logo percebi que alguns estavam selando seu destino ali.

O rei subitamente mudou sua postura. Parecia gentil, mas estava sendo egoistamente lisonjeiro. Rogou ao profeta que entrasse no palácio para descansar e receber alguns presentes. Qualquer idiota poderia perceber quais eram as intenções dele, afinal, não lembro de tê-lo visto confessando seu erro ou clamando por perdão. O homem negou o convite, dizendo que não poderia fazer isso pois Deus o havia proibido. Era uma forma de demonstrar como estava desgostoso com aquela terra. E logo partiu, em seu jumento, nem nem mesmo se despedir do rei. Ele não prestava reverência nenhum ao soberano idólatra.

Fiquei impressionado. Nem mesmo ajudei meus irmãos a arrumarem nossa carroça; peguei um de nossos cavalos e fui para casa o mais rápido possível. Precisava contar tudo ao meu pai, na esperança de que ele fosse motivado pelo exemplo daquele homem desconhecido.

Assim que cheguei, contei-lhe tudo. Não tomei tempo nem mesmo para respirar. Mas meus anseios eram vazios. Tudo o que fiz foi suscitar a inveja em meu idoso pai, que se perguntava o tempo todo por que Deus havia buscado um homem de Judá para essa tarefa, se ele mesmo era um “profeta”. A resposta era clara, mas o velho estava cego como uma porta. Selou um jumento e foi atrás do profeta de Deus, transbordando intenções malignas. Eu mesmo só fiquei sabendo o que aconteceu tempos depois, quando os dois retornaram. Meu pai sabia que o profeta não poderia ficar em Betel, mas ele estava decidido a trazê-lo. O cumprimentou como os profetas fazem, pois ele lembrava bem como era isso, e mentiu, dizendo que um anjo trouxera a mensagem de que ele devia jantar em nossa casa e descansar, para que não desfalecesse na viagem. Meu pai contava com a exaustão do homem, para que acreditasse sem pensar muito ou consultar a Deus. E funcionou.

Os dois voltaram para casa; meu pai serviu os pães e o cabrito assado com cebolas. Conversavam enquanto comiam, como se fossem amigos. Cerca de uma hora depois, quando terminavam a refeição, uma coisa extraordinária aconteceu: meu velho recebeu uma palavra de Deus e a proferiu contra o profeta, dizendo, “Visto que ignorastes sua vocação, desobedecendo ordens diretas, transparentes, não serás enterrado no túmulo de seus pais.”

Assim que ouvidas, as palavras tiveram efeito imediato. O homem entendeu tudo. A angústia brotou do coração e um choro amargo lhe pesou o rosto. Estava arrependido. Percebeu que havia caído numa armadilha e se lamentou por ter sido tão ingênuo. Rasgou suas vestes, cobriu seu rosto e, envergonhado, rapidamente saiu, em seu jumento, sem nem mesmo olhar para meu pai. Ficamos onde estávamos, atônitos, inamoviveis. Nosso estarrecimento foi quebrado cerca de meia-hora depois, com um menino que entrou correndo pela porta contando o que havia acontecido na estrada que saía de Betel… Um leão havia assassinado o profeta e estava em pé, ao lado de seu corpo e do jumento, que descansava intacto ao lado dos dois.

“Ariel”, balbuciou meu pai. Eu sabia que isso significava “leão de Deus”. Com movimentos lentos e as mãos trêmulas, o velho se levantou, preparou algumas coisas e partiu. Voltou algum tempo depois, carregando o homem morto, com seu sangue em suas vestes. Chorava copiosamente.

Colocou o homem em uma mesa e caiu ao chão, dizendo, em meio a lágrimas, “Ele olhou em meus olhos. Severo, solene, compassivo… O leão, meu filho, o leão!”. E então se levantou, enxugou suas lágrimas e disse para mim e meus irmãos, “Eu morrerei. Mas tão certo como vive o Senhor, não serei enterrado com os pecadores de Betel, mas ao lado do profeta verdadeiro, o homem de Deus. E agora vocês já sabem o destino que meus ossos devem ter, não se esqueçam disso”.

Faz 5 anos que ouvi essas palavras. Faço questão de recontar essa história, que mudou o rumo de nossa vida, enquanto enterro os ossos de meu pai. Mas também não posso deixar de ressaltar três coisas que aprendi com ela. Primeiro, nossos pecados não são desculpados pela alteza da nossa vocação, pela ascendência do nosso povo e nem mesmo por passos anteriores ao lado do Criador. Aquele que pecar, morrerá, não importa quem seja. O que seria de nós se não fosse a misericórdia do Cordeiro?

Segundo, como escolhidos, corremos maior risco de sermos arrastados pelos falsos profetas e demonstrações de pseudo-santidade do que pelo paganismo lavado. Mais uma vez, mas em outro sentido, o mal maior vem de dentro e não podemos esquecer disso, nunca.

E por último: a misericórdia sempre está lá, ainda que você não a veja. O profeta verdadeiro, cujo nome um dia eu conhecerei, sofreu a consequência de seu erro, morrendo (ainda que sua punição não tenha se estendido além da morte – e é esse o motivo pelo qual o Leão não devorou o cadáver, acredito ). Mas se isso não tivesse ocorrido, talvez eu, minha família e muitos que vieram depois de nós teríamos continuado imersos na sordidez espiritual da idolatria. Deus é capaz de transformar o mal em bem, para que muitos sejam conservados em vida – ainda que não nessa. Agora entendo que, naquele dia, quando meu pai disse que queria que seus ossos fossem enterrados aqui, na verdade estava dizendo “Eu vivi como um profeta falso, mas quero morrer como um profeta verdadeiro. ”

E eu vivi como testemunha dessa verdade e um dia quero ser testemunha da ressurreição desses dois, que se levantarão como amigos para a eternidade; seja louvado o único Deus, Criador e Rei sobre tudo e todos!


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