Uma mensagem de natal atrasada (ou não)

Eu vinha carregando comigo algumas ideias para uma mensagem especial de natal. Mas então pensei que isso seria simplesmente chover no molhado; a mesmice num momento do ano saturado com lindas mensagens. Entretanto, o provável é que a essa altura já tenhamos esquecido o espírito bondoso, humilde e perdoador do natal e já tenhamos voltado para a egoísta corrida de ratos. Por isso não custa nada lembrar de algumas pequenas coisas.

No natal eu e minha família brincamos de amigo secreto. Antes de trocar os presentes, fiz uma pequena reflexão sobre o significado daquilo tudo. Falei sobre como os nossos presentes eram um pequeno reflexo do Presente Supremo que havia nos sido dado por Deus (Is. 9:6) e que tudo aquilo não teria a menor relevância se ficasse reduzido a papéis e embrulhos físicos. O verdadeiro presente precisava ser vivido dia após dia, o perdão e a humildade que foram concedidos deviam ser compartilhados.

O triste é que no mesmo dia, ao chegar em casa, duas pessoas presentes tiveram um  fight épico.

O mais triste ainda é que os condenei em meu coração por terem brigado após ouvirem a “boa nova”.

Então me lembrei disso:

“A humanidade caiu num abismo cada vez mais fundo. Mas, se você pensa que está em um nível mais elevado de onde pode apontar o dedo para os outros, esqueça. Cada vez que você critica alguém, está se condenando. Você é tão errado quanto quem você critica. Criticar os outros é uma forma bem conhecida de ignorar os próprios erros e crimes. Mas Deus não é enganado tão facilmente. Ele vê através da cortina de fumaça e o responsabiliza pelo que você faz.”

Romanos 2:1-2, versão A Mensagem

Eu estava condenando a mim mesmo quando os acusei pela falta de perdão em meus pensamentos.  

Viver o perdão. Eu ainda tenho dificuldades de digerir esse princípio na minha vida diária. Às vezes acabo vomitando-o e voltando para meu estado de estômago orgulhoso e vazio. Mas percebi uma verdade: toda vez que tenho dificuldades em perdoar, é porque me esqueci quem sou. Saber quem eu sou é o primeiro e essencial passo para reconhecer quem são os outros, pois, assim como Paulo tenta me dizer nos versos acima, minha falta de misericórdia tem suas raízes na minha falta de autoaceitação.

Entendi isso melhor quando percebi que existe, no perdão, uma relação entre o que Deus faz e o que eu faço (Mt 6.14-15). O perdão de Deus está condicionado ao perdão que eu concedo porque é quando eu perdoo que mostro que aceitei o perdão de Deus – essa é a consequência inevitável. Perdoo aos outros porque sei que nada poderá se comparar ao tamanho da minha falta que foi não só perdoada, mas paga, por Deus.

Todos nós caímos. Isso não precisamos discutir. O problema é que diversas vezes sou enganado pelo meu próprio orgulho, que me impede de reconhecer com clareza quem eu sou. Reconheço duas fortes ilusões que me ferem, que anulam em mim o compromisso com a misericórdia:

1. Quando me sinto superior aos outros de maneira sutil, valorizando minhas qualidades e boas ações em contraste aos erros dos outros.

Como C.S. Lewis comenta em Cristianismo Puro e Simples:

 “Recuo com horror e repugnância diante de certas coisas que fiz. Logo, isso parece me dar o direito de me sentir horrorizado e repugnado diante dos atos dos meus inimigos”.

Esse engano é evidente quando sofro o mal feito por alguém. Fico indignado pela falta que outros cometeram e me cego para minha parcela de culpa porque esqueço da própria sujeira em meu rosto. Posso até me esquecer de mil atos de bondade por uma falta que considero “imperdoável”. Acuso, nego o perdão e ainda duvido de que o outro possa um dia ser diferente. Fechando-me em minha carapaça de orgulho, em nome da minha honra, pronuncio palavras que são a perfeita antítese das palavras de Jesus.

Cristo “em cada ser humano, apesar de decaído, contempla um filho de Deus, ou alguém que poderia ser restaurado aos privilégios de seu parentesco divino. … Em cada ser humano Ele divisa infinitas possibilidades. Vê os homens como poderiam ser, transfigurados por sua graça.”

-Educação, p. 79, 80 (verbos conjugados no presente, já que Ele é o mesmo hoje e sempre).

E como diz George Knight, tal visão em si mesma demanda um ato de graça da nossa imaginação (o que se torna quase impossível se gasto meu tempo emporcalhando-a com a visão do pior em todos).

2. Quando cedo à falsa humildade que se traduz em autorrejeição. Quando defrontado com a sujeira que existe em mim, sou tentado a dizer: “Mereço ser deixado de lado, esquecido, abandonado. Não tenho valor algum. Sou um lixo.” E então sou arrastado ao fosso da autocomiseração.

Faço isso quando cometo uma falha e assolo a minha própria alma por ter caído. Quero ser apedrejado quando Jesus quer me abraçar, achando que é a dor das pedras que me salvará. Mas esse é um engano doentio, uma atitude que demonstra o desejo de condescendência e não de perdão.

Percebi que não posso fugir dessas armadilhas. Elas vivem dentro de mim, nascidas de minha Queda, e não irão embora enquanto eu não for levantado. Ter consciência disso é a melhor forma de enfrentá-las.

Como diz Thomas Merton, a chave para uma vida verdadeira com Deus é a compreensão esmagadora de que não importa o quanto nos detestemos, Deus nunca nos detesta – sempre nos aceita, nos ama, a despeito de nossos embustes.

Entender isso é receber o poder de enfrentar esses enganos. É poder amarrá-los e amordaçá-los, pois suas palavras não tem mais força frente à verdade intrépida de que Jesus aceita quem eu sou e vislumbra quem eu serei. É como se, por um breve momento, a máscara da farsa caísse. Como está escrito em Colossenses 3.13, como fui perdoado por Deus, agora tenho o poder de perdoar aos outros. Porque a escuridão da superioridade e da autorrejeição não mais anuviam meus olhos, posso ver os outros com clarezas: e eles são tão frágeis e falhos quanto eu. E quando enxergo com essa clareza, posso fazer como a criança cujo último recado foi encontrado ao lado de seu corpo morto quando os aliados liberaram o campo de concentração de Ravensbrück. No pedaço de papel estava escrita a seguinte oração:

“Oh Senhor, lembre-se não somente dos homens e mulheres de boa vontade, mas também daqueles de vontade doentia. Mas não se lembre somente do sofrimento que eles nos afligiram; lembre dos frutos que nós rendemos, graças a esse sofrimento: nossa parceria, nossa lealdade, nossa humildade, a coragem, a generosidade, a grandeza de coração que surgiu por causa disso tudo. E quando eles vierem a julgamento, que todos esses frutos que nós rendemos sejam o perdão deles.”

Pode ser que os sentimentos ruins voltem, que minha vontade se revolte e meus ânimos se animalizem. Mas caso isso aconteça, é meu dever domá-los, espancá-los, estraçalhá-los para que eu não deixe de viver o perdão.

“Somos filhos e filhas do Altíssimo quando conseguimos tocar a mão do outro com amor e quando o conceito de outros deixa de existir. […] Os outros somos nós, e devemos amá-los em seu pecado assim como somos amados em nosso pecado.”

Brennan Manning, em O Impostor que vive em mim


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