Quando o Leão sai do armario – I

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Voltei do retiro espiritual de carnaval na terça-feira à tarde. Gosto de pensar que ele foi uma ótima sombra de como será na eternidade.  Foi o melhor acampamento que já participei na minha vida, sem dúvidas. Não por causa da estrutura e do lazer, nem somente pelos amigos que fiz e quero carregar para a vida, mas porque encontrei a Deus. Porque pude perscrutar a minha vida e perceber o quanto quero mais dEle.

Mas o feriado acaba. As pessoas voltam para suas casas. Ah, a vida comum. E onde fica o Deus que foi encontrado em momentos tão perfeitos? Onde fica o coração quebrado em mensagem após mensagem, a união que faz o rosto de todos molhar quando um chora?

A verdade é que eu vejo a dificuldade tremenda que nós temos em fazer a ponte entre o “sagrado” que experimentamos e a nossa vida comum.

 “Contudo eu tenha sido criado em um lar bondoso e amável, nós não íamos à igreja e muito menos éramos considerados cristãos. Mas quando me tornei um adolescente, comecei a me perguntar as grandes questões da vida: “Quem sou eu?”, “Para onde vou?”

Em busca dessas respostas, comecei a frequentar uma grande igreja em nossa comunidade. Mas em vez de respostas, tudo que encontrei foi um clube social country onde as obrigações se resumiam a um dólar por semana na salva de ofertas. Os outros estudantes do ensino médio que estavam envolvidos no grupo de jovens e alegavam ser cristãos no Domingo, viviam para o seu verdadeiro Deus no resto da semana, isso é, a popularidade.”[i]

Em seu livro “Em Guarda”, W. L. Craig, defende o argumento de que sem Deus, não existe propósito, sentido ou significado no universo. Entretanto, a impossibilidade de se viver uma vida consistente e feliz na ausência desses elementos força as pessoas que não acreditam em Deus a darem um “pulo de fé”, a fim de viver uma mentira nobre, forjando para si alguma espécie de propósito, que não passa de uma ilusão (contudo, esse propósito forjado não mudaria o fato de que o universo estaria caminhando para um eterno nihil¸ e não existiria diferença alguma se você escolhesse viver como um Stalin ou uma Madre Teresa – SE Deus não existisse).

A despeito de esse ser um argumento utilizado por ele como um reductio absurdum, a fim de demonstrar a absurdidade prática do ateísmo, o que me preocupa é como essa tem sido a realidade de muitos cristãos – talvez muitos de nós hoje! Damos um “pulo de fé” para buscar sentido em nossos momentos “espirituais” (como o culto, a devoção), mas agimos como se esse “sentido” que encontramos fosse só uma ilusão e não tivesse alguma real validade no ‘mundo real’. É como se abríssemos o “compartimento de Deus” nos momentos de culto e o fechássemos rapidamente para que Ele não saia dali e afete o resto da nossa vida – um dólar na coleta e a adoração ao deus popularidade é uma das faces desse distúrbio.

A verdade é que corremos o risco de estar vivendo uma situação de ateísmo funcional: enquanto alegamos crer em Deus, fazemos nossas orações e participamos das atividades religiosas, esses fatos não fazem absolutamente diferença nenhuma na forma como pensamos e conduzimos nossas vidas comuns.

Durante o retiro, nosso orador, Jefferson Pillar, fez uma analogia muito interessante sobre o que é viver de teoria (o que não deixa de ser uma face do ateísmo funcional). É como um pai que faz uma viagem longa. Mas antes de ir, ele diz:

– Meu filho, quero que você arrume o quarto enquanto eu estiver fora.

E então parte. O tempo passa, o pai demora um pouco mais do que o filho esperava. Mas quando finalmente chega, percebe que o quarto ainda está bagunçado e pergunta:

– Filho, por que o quarto continua como estava antes de eu partir?

E o filho responde:

– Pai, eu decorei o que o senhor me pediu! Na verdade, fiz muitos estudos sobre arrumação de quarto e até cursei quatro anos de arrumologia. Descobri várias evidências arqueológicas de que as pessoas arrumavam os seus quartos no passado. Encontramos muitas vassouras enterradas que nos ajudam a defender nossa arrumologia. Pai, fundamos até uma igreja, onde aprendemos sobre arrumação de quarto e ela já tem 100 anos! Os membros dessa igreja são muito dedicados e estudam a lição da escola da arrumação diariamente. Também temos uma TV que ensina sobre arrumação e uma gravadora que publica DVD’s e outros materiais sobre isso. Inclusive juntamos vários cantores e gravamos um DVD chamado “Arrumadores”.

– Poxa, filho! Estou impressionado. Na verdade, isso tudo é muito legal, mas eu só queria que você arrumasse o quarto e isso você não fez.

Eu corro o risco de continuar sendo um ateu funcional quando o “sagrado”  não tem efeito nenhum sobre minha vida comum.

Leia a continuação aqui.

[i] William Lane Craig, em On Guard, versão para kindle, posição 736.


2 comentários sobre “Quando o Leão sai do armario – I

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