Quando o Leão sai do armário – II

(Leia a primeira parte aqui.)

“Para um homem que vive para Deus nada é secular, tudo é sagrado.”

C.H. Spurgeon

Eu acredito que parte desse problema tem suas raízes em um mito que nós criamos: a distinção equivocada do sagrado e do secular. Temos em nosso discurso cristão, diversas expressões que apontam para uma brecha no nosso pensamento, um falso antagonismo. “Falamos sobre o agora em oposto ao porvir, o natural em contraste com o sobrenatural, razão versus revelação, ciência separada da religião, lei em oposição à graça, corpo separado da alma, e o secular como diferente do sagrado.”[i]

A existência dessa falsa dicotomia tem extraído a vitalidade do viver cristão por impossibilitar uma “vida com Deus”, ao classificar como secular tudo que não faz parte das atividades de natureza religiosa, que são o que compõe a esfera do que consideramos sagrado.

Para se ter uma idéia de como essa distinção pode se desdobrar, como implicação desse pensamento alguns líderes da igreja buscaram, por volta de 1890, um modelo onde a Bíblia seria o livro-texto absoluto para se aprender cada linha de estudo. Imagine ensinar geografia, história, matemática, biologia etc utilizando somente a bíblia como livro didático? Na mente de tais homens, com relação à esfera do estudo, era como se somente o aprendizado da Bíblia pudesse ser feito para a glória de Deus (para mais sobre esse ponto, veja o livro “Mitos na Educação Adventista”, de George Knight).

Entretanto, essa dicotomia deveria se desfazer ao percebermos que, conforme a Bíblia diz em Colossensses 1.16: “Por Ele todas as coisas foram criadas; as que estão nos céus e na terra, visíveis e invisíveis , sejam tronos ou domínios, principados ou potestades. Todas as coisas foram criadas através dEle e para Ele.”

Ou, como H. R. Rookmaaker diz, em seu livro “A Arte Moderna e a Morte de Uma Cultura”:

“Nada pode existir fora de Deus, e todas as coisas têm um sentido somente quando têm relação com ele.”

Colocar Deus em uma caixinha na sua vida, de forma que ele não te atrapalhe no resto, é tão possível quanto manter um Leão dentro de um armário, dá pra entender?

Não podemos esquecemos que TODAS as coisas devem ser feitas para glória de Deus ( I Coríntios 10.31; Romanos 14:8), e não só as religiosas. É só ligarmos os pontos: é impossível viver para a Glória de Deus se somente o “sagrado” (conforme definido acima) atende a esse chamado. Como diria Ellen White, há tempo em que coisas comuns precisam ser feitas e pensadas![ii] A questão é que Paulo não está advogando que devemos passar o tempo todo em atividades de cunho religioso, mas que nossa vida comum precisa ser pautada pelo pensar e agir cristão. Se você prestar atenção, o contexto de I Coríntios 10.31, por exemplo, é um simples almoço na casa de um amigo!  A glória de Deus é o completo propósito da existência cristã. O apóstolo provê um princípio que deveria guiar cada aspecto da nossa vida. A glória de Deus é a referência que deve pautar ações, pensamentos e palavras – todas elas, e não somente aquelas de caráter religioso.[iii]

As consequências disso são claras: a forma como você conduz seu trabalho é tão importante quanto seu culto. Seu lazer tem efeitos eternos assim como sua vida de oração.

Isso é muito bonito na teoria. O problema é que sucumbimos ao “secularismo” como seres pensantes. Estamos tão acomodados a essa situação que mesmo no estudo da Bíblia não conseguimos traçar uma ponte entre o que estudamos e a sua aplicação – não vemos a relevância que o texto tem para a nossa realidade contemporânea.

Lembro de uma postagem no facebook de uma comunidade adventista, numa sexta-feira, que dizia “O sábado está chegando: hora de se desconectar do mundo e se conectar com Cristo.” Essa frase trabalha esse mito de forma evidente. Mas o que mais me assustou foram as milhares de curtidas que ela recebeu: será que todos eles realmente curtem a idéia de passar a semana desconectados de Deus?

Esse tipo de visão levante um sério questionamento a respeito de como nós, enquanto igreja, temos nos saído no desafio de desenvolver as mentes para que pensem de maneira cristã sobre cada aspecto da existência.

É impossível entretecer o cristianismo na vida comum sem uma mente que pense de forma cristã.  Harry Blamires, chama a atenção para esse fato:

                “Pensar de maneira secular é pensar dentro de uma estrutura referencial restringida pelos limites de nossa vida na terra. […] Você pode pensar de maneira cristã ou secular a respeita da maioria das coisas sagradas […] Da mesma forma, você pode pensar de maneira cristã sobre a maioria das coisas mundanas.”[iv]

Mas nós geralmente falhamos em fazer a distinção entre pensar de uma maneira cristã e pensar sobre questões cristãs. E pra ser sincero, acho que nem mesmo pensar sobre questões cristãs nós sabemos muito bem.

O sermão da montanha, por exemplo, é revolucionário porque fala de situações comuns da vida, mas tratando-as do ponto de vista de Cristo, a partir de uma cosmovisão cristã. Ele nos convida a pensar de forma diferente. Fazer o mesmo com nossa vida hoje é o desafio da mente cristã. Precisamos lembrar que o cristianismo não é apenas um credo – ele alcança todos os cantos da vida, desde a política e as artes até os negócios e a vida sexual. Como diria o sábio, “O SENHOR vê tudo que acontece em toda parte […]” (Pv 15.3a) ou então parafraseando Ellen White[v], cada tópico tem uma nova significação quando visto à luz da cosmovisão bíblica.

George Knight propõe a estrutura básica de crenças sobre a realidade que fornece o contexto para se pensar de modo cristão:

  • A existência de um Deus criador;
  • A criação de um universo perfeito por esse Deus;
  • A criação do homem a imagem e semelhança de Deus;
  • A “invenção” do pecado por Lúcifer, que buscou ser igual a Deus;
  • A Queda;
  • A incapacidade do homem de mudar sua própria condição;
  • A iniciativa de Deus para a salvação do homem e restauração do seu propósito original;
  • A atividade do Espírito Santo nesse plano de restauração da imagem de Deus no homem e sua obra de reunir a comunidade de crentes, a igreja;
  • O retorno de Cristo no final da história do mundo;
  • O alcance do objetivo de Deus, isso é, a restauração de nosso mundo e de seus habitantes à condição edênica.[vi]

A internalização desses princípios na nossa forma de agir e pensar só pode acontecer quando temos um relacionamento REAL com Jesus. E então, toda dúvida e avaliação da realidade poderia se projetar dentro desse contexto mais amplo. Como resultado disso, as mentes cristãs seriam uma ameaça natural à cultura não-cristã. Uma ameaça no sentido de criar uma própria cultura com um apelo totalmente diferente – trazendo todas as coisas para o mais perto da perfeição que existe em Deus. Mas se mal sabemos pensar, é quase uma utopia falar sobre criar.

O quadro se torna mais e mais preocupante quando percebemos que estamos trocando a verdade pelo entretenimento religioso. A Bíblia perdeu seu papel central em nossa experiência cristã, sendo substituída pelo êxtase vazio causado pela performance de atores em nossos palcos de igreja. Em decorrência, nossa preocupação em perder nossos clientes é tão grande que nossos movimentos são meras reações às jogadas culturais do mundo. Então passamos nosso tempo precioso criando mais regras e regras, um enorme manual de conduta exterior. E tudo porque não passamos de mentes vazias e acríticas, sem discernimento nenhum, sem conhecimento de Deus, que não sabem pensar “cristãmente”.

“Em vez de fornecer [aos adolescentes e jovens cristãos] um bom treinamento na defesa da fé cristã, nós ficamos envolvidos em lhes proporcionar experiências de louvor carregadas de emoção, ficamos nos preocupando com suas necessidades e em entretê-los. Não é à toa que eles se tornam presas fáceis para um professor que racionalmente ataca a sua fé. No segundo grau e na faculdade, os estudantes são bombardeados com todo tipo de filosofia não cristã combinada com um avassalador relativismo e ceticismo. […]

– William Lane Craig, Em Guarda: Defenda a fé cristã com razão e precisão (São Paulo: Vida Nova, 2011), p. 21.

A única coisa que pode se sobrepor aos convites da tolice, é o convite ao banquete da sabedoria. É lá que vamos aprender a pensar da forma certa. Até quando vamos continuar com essa ignorância indolente?

“Devemos desafiá-los em vez de mimá-los – Os [adolescentes e jovens cristãos] não precisam de mais entretenimento. O ipod, a internet e os amigos já são suficientes. Nunca os prepararemos efetivamente para encarar essa cultura movida a entretenimento se simplesmente a substituirmos por entretenimento cristão [seja entretenimento ‘liberal’ ou ‘conservador’]. [Além disso, o entretenimento cristão nunca conseguirá nem sequer competir com o entretenimento ‘secular’.] Os [adolescentes e jovens] precisam ser desafiados com perguntas difíceis e dilemas culturais.”

– Ultimato, setembro-outubro de 2010, p. 32; disponível em:http://www.ultimato.com.br/…/ar…/326/para-nao-virar-a-cabeca

O meu anseio é que todos nós cheguemos a dizer um dia: “aprendi a ver, pensar e agir do modo como a pessoa que Deus quer eu seja.” Assim teríamos o discernimento fundamentado no temor do Senhor para não temer os convites da tolice. E de preferência que isso aconteça ainda aqui, nessa terra.

Leia a última parte aqui.

[i] George Knight, em Mitos na Educação Adventista, p. 121.

[ii]Ellen White, em Selected Messages¸1:38,39, parafraseado

[iii] Comentários da Andrews Study Bible

[iv] Harry Blamires, em The Christian Mind (London: S.P.CK.,1963),  p.3,4.

[v] Ellen White, em Educação, p. 125.

[vi] George Knight, em Mitos na Educação Adventista, p. 130.


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