Quando o Leão sai do armário – III (fim)

(Leia a primeira parte aqui e a segunda aqui.)

Conquanto nosso mindset possa conter algumas brechas para que essa divisão (sagrado x secular) aconteça, eu não acredito que esse seja o todo do problema. Há algo mais profundo, encrustado em nós, que torna isso tudo tão difícil.

É uma atitude sutil, escondida nas quebradas da minha alma, que me fazem ler Mateus 6.33 dessa forma:

“Busquem primeiro as demais coisas, e o reino de Deus vos será acrescentado.”

C.S. Lewis, em seu livro “Peso de Glória”, chama isso de um deslize na língua. É lógico que ninguém acha que era isso que Jesus queria dizer, mas, como ele diz na pág. 174 de seu livro:

                “Refiro-me a esse tipo de coisa. Faço minhas orações, leio um livro de devoção, preparo-me para a Ceia do Senhor e a recebo. Entretanto, enquanto faço isso, existe, por assim dizer, uma voz dentro de mim que insiste para eu ter cuidado. Ela me diz para ser cauteloso, manter a cabeça, não ir longe demais, não ser imprevidente a ponto de chegar a um lugar onde não há retorno. Chego à presença de Deus com grande temor de que me aconteça algo nessa presença que possa ser intoleravelmente inconveniente quando eu tiver de voltar para minha vida “comum”. […] Seria muito desagradável, por exemplo, levar a obrigação da caridade tão a sério (enquanto estou no altar) que, depois do café eu tivesse de rasgar a desconcertante resposta que havia escrito a um irreverente correspondente ontem e que tinha a intenção de colocar no correio hoje. […] Arrependendo-se, o indivíduo reconhece [seus atos] como pecados – portanto, não devem ser repetidos. É melhor deixar esse problema sem solução.”

O princípio por trás desse tipo de atitude é o mesmo: buscar em primeiro lugar as demais coisas, deixar o reino de Deus de lado. O que destrói a minha relevância espiritual não é somente a negação do estudo da Bíblia, ou da oração, da guarda do sábado ou qualquer outra “atividade religiosa”, mas querer só para mim, um pedaço de mim.

Se não escolhemos o reino de Deus, não fará diferença pelo o quê o trocamos. Não importa se foi por sexo, dinheiro, fama, admiração ou sua própria família – teremos perdido a única coisa que satisfaz.

Essa disposição dupla não é nenhuma novidade. Quantas e quantas ouvimos o eco das histórias de Israel, cruzando milênios e martelando em nossas cabeças-duras?

O capítulo 6 de Miquéias, por exemplo, começa com um desabafo solene de Deus, expressando a angústia de seu coração partido pela ingratidão do Seu povo. É o profeta quem fala, mas é Deus quem profere as palavras: o que foi que Eu fiz para que vocês virassem as coisas para mim?

Miqueias viveu provavelmente na época dos reis Jotão e Acaz, período quando o povo exprimia de forma evidente essa ambivalência: sacrificar a Deus, sacrificar aos ídolos. Ofertar a Deus, participar de orgias. Eram Israelitas pensando como Assírios – Deus havia se tornado só mais uma divindade em um panteão.

Essa pergunta retórica de Deus faz eu me lembrar de algumas vezes que fiquei de “mal” da Ellen, minha esposa. Um dia desses cheguei em casa muito estressado, com alguns sentimentos pesarosos. Começamos a conversar e no meio da conversa ela discordou de algo que eu falei, com um tom de voz um pouco “empolgado”; eu me ofendi, fui para o quarto e não queria mais conversar – feito uma criança mimada. Algum tempo depois, já no quarto, ela me perguntou, “O que eu fiz que magoou você?”

O problema é que eu não tinha uma resposta. Não havia uma razão, mas uma desculpa. Eu estava semi-destruído emocionalmente, mas ela não tinha culpa. Reagir daquela forma foi, talvez, uma forma de chamar atenção, mas não era um comportamento legítimo.

Essa pergunta nos expõe ao ridículo ainda mais ao perceber que é proferida logo depois de Miqueias ter anunciado a vinda do Messias, que seria a nossa paz (Mq 5.5).

Acredito que a nossa situação é muito semelhante quando Deus pergunta, “O que eu fiz para que você ficasse magoado comigo, para que você me desse as costas? Pra que você me excluísse de algumas áreas da sua vida?”

Será que estamos achando as demandas de Deus muito exigentes? Mas são as demandas de Deus mesmo? Ou colocamos a vozes de homens por Deus e então nos melindramos, afundados na preguiça de pensar e ouvir na própria fonte o que é que Ele diz?

Ou será que temos medo do que Ele pode mudar quando estiver “solto”? Aposto que é isso.

Como se não bastasse, Deus lista os motivos que temos para não agir da forma como agimos. Deus é um ser extremamente razoável. Ele arrazoa conosco para que nós arrazoemos com nós mesmos – refletindo a sabedoria de provérbios ao pedir que nós ponderemos nossos caminhos, nossas ações ( Pv 4.26).

O verso 6 e 7 deixam implícitos a ideia de que, de fato, não conseguimos responder à pergunta de Deus. O caminho é reconhecer nossa tolice.

E então expressamos aquela ansiedade para estar em paz com Deus. Mas a grande pergunta é: o que queremos de fato? Paz ou Deus? Pois buscando a Deus, encontramos paz (pois ele é a paz Mq 5.5, Rm 5.1), mas buscando a paz como um fim em si, não encontramos nem um nem outro – somente um gosto amargo na boca que nunca cessa, um esforço desumano de auto-enobrecimento para aplacar a ira de um deus pequeno, criado em nossa mente doentia.

Se buscamos a paz em vez de Deus, talvez estejamos tentando manipular o sagrado, como um peão em um jogo de xadrez. Queremos usá-lo, para que tenhamos a vida que queremos, para continuar nos nossos próprios caminhos sem o incômodo do buraco eterno (Ec 3.11) se expandindo no peito.

E então temos uma sequência de imagens impressionantes. O que é que Deus espera de nós, como resposta a essa missão de resgate que Ele executou?

Existem propostas. Um carneiro de um ano, sem defeito, talvez? Um sinal de dedicação, uma oferta Premium.

Ou então mil carneiros!? O exagero da religiosidade.

Meu próprio filho, sacrificado no altar – como os outros deuses requerem? O supra-sumo da exterioridade.

Que importam essas coisas? Algumas delas, legitimamente tinham valor, afinal, o próprio Deus havia as solicitado no seu contexto correto. O ponto é: eles poderiam dar o mundo, se o possuíssem, mas ainda assim não seria garantia de uma vida convertida.

Da mesma maneira, podemos oferecer o que há de melhor de nossa religião para Deus. Coisas que Ele mesmo pede de nós, como a guarda do sábado, a reforma da saúde, roupas decentes, dízimos, ofertas, semanas de oração, cultos familiares – a lista vai longe. Mas o que me parece que Deus está dizendo é: eu não quero nada disso se essa for simplesmente a sua “caixinha de Deus”, o seu compartimento sagrado. Na vida cristã, tais coisas são apenas folhas.

“Filho, eu quero que você arrume seu quarto.”

Que seus rituais religiosos pereçam com você; você que escolhe reduzir sua vida cristã à esse maldito compartimento, afastando Deus de ti e os outros de Deus.

Céus! O que é que esse Deus espera então?  O que ele quer para que sua glória seja exaltada??

O que Ele quer!?

Cuidado. A resposta para algumas perguntas que fazemos a Deus podem nos causar um tremendo mal estar.

Cuidado.  A resposta para essa pergunta pode estar além do que os seus esforços podem conquistar.

Mas o que ele pede é nada mais do que o coração da verdadeira adoração…

“Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: busque a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus.” Miqueias 6.8

A dimensão vertical

Andar humildemente com Deus.

Não é um pouco de nosso tempo ou de nossos esforços que Deus quer. Nem mesmo todo nosso tempo ou todos nossos esforços. Ele quer a nós mesmos, por completo, para caminharmos juntos a todos momentos. Como diz C. S. Lewis,

                “Em última instância, Ele não tem nada a nos oferecer a não ser a si mesmo; e Deus só pode nos dar isso na medida em que a nossa vontade autossuficiente se retrai, abrindo espaço para ele em nossa alma. Não tenhamos dúvida em relação a isso. Não restará nada “de nós mesmos” para vivermos, nenhuma vidinha normal. Não quero dizer que todos nó necessariamente seremos chamados para sermos mártires. Se acontecer, que aconteça. Para alguns (não sabemos quem), a vida cristã incluirá muito lazer e muitas ocupações naturalmente prazerosas. E isso será recebido diretamente das mãos de Deus. Para um cristão perfeito isso seria tão próprio de sua religião, do seu “serviço”, como as tarefas mais difíceis, e seus banquetes seriam tão cristãos quanto seus jejuns. O que não podemos admitir de forma alguma – e que deve existir somente como um inimigo não derrotado, mas ao qual se resiste diariamente – é a ideia de que tenhamos algo “só nosso” a conservar; alguma área de nossa vida que esteja fora da jogada e sobre a qual Deus não tenha nada a reivindicar. Deus exige tudo de nós, porque ele é amor e é próprio dele nos abençoar. No entanto, ele não pode nos abençoar enquanto não nos possuir por completo. Sempre que tentarmos reservar uma área de nossa vida como propriedade particular, estaremos reservando uma área onde impera a morte. Por isso é que ele exige, com todo amor, que nos entreguemos por inteiro. Sem chances de barganha.”

Devemos, em todo o curso da nossa vida, estar com Deus. Ter um relacionamento de verdade com Ele. Seja comendo, jogando, orando, estudando, pregando, fazendo sexo, assistindo a um filme, lendo um livro. Mas para isso é necessário o discernimento que é adquirido no banquete da sabedoria, a cada dia, olhando na face Deus e ouvindo Sua voz. E humildemente, porque somente com humildade podemos ponderar o caminho que trilhamos e questionar se estamos realmente andando com Deus, ou nos enganando – somente Deus não precisa de uma segunda opinião.

E como Thomas More disse: “Se você fizer contratos com Deus de quanto vai servi-lo, descobrirá que você mesmo assinou por ambas as partes.”

No momento em que você se vir escolhendo em quais caminhadas quer a companhia do Altíssimo, lembre disso.

A dimensão horizontal

Buscar a justiça e amar a misericórdia.

Em uma sociedade que relativiza a moral com base no utilitarismo, esse trecho dói aos ouvidos. E dói pra caramba porque o nosso proveito pessoal invariável e inquestionadamente é escolhido em detrimento às pessoas. E então a glória de Deus se perde. Em 1 Coríntios 10.24, Paulo estabelece o mesmo princípio como fazendo parte do fundamento para que tudo seja feito para a glória de Deus: “Que ninguém pense no seu próprio bem, mas que cada um se preocupe com o bem dos outros”.

Mas nós estamos nos afundando no mesmo líquido no qual o mundo está mergulhado: esse lodo give and take, onde cada ação só tem valor na medida que é recompensada.

E o pior? Nós ainda temos a cara de pau de chamar isso de amor. Que ver só:

Se você tem um filho e ele te trai, você continua o amando, certo?

Essa é fácil.

Mas e sua esposa(o)? E se ela(o) te trair?

Não? E por quê? Porque essa é a lógica do mundo e é assim que pensamos. O mundo é capaz de desculpar, mas não de perdoar. O perdão é pra quem não merece e isso é dom do espírito. Se você falta ao trabalho por doença, por exemplo, você apresenta o atestado e está tudo certo – desculpado. Mas e se você fosse lá e falasse para o seu chefe que você faltou porque não aguentava mais olhar pra cara dele, que precisava ficar um dia em casa, o que será que aconteceria? Será que você seria simplesmente perdoado?

O amor que vem de Deus, o amor pela misericórdia, assume o risco de não ser retribuído, assume o prejuízo. É o modelo revelado por Oseias. Se eu digo que amo só enquanto sou retribuído, isso nunca foi amor. É a si que você ama, e quando a retribuição deixa de existir, você joga o seu objeto de satisfação, o seu produto, na lata do lixo – porque ele não te faz mais feliz. É a tristeza que prova o amor. Fácil, fácil é amar alguém no banquete da alegria.

Quer saber? Um amor que assume o risco do dano são verdadeiramente os passos na contramão do mundo.

Amar sem ser amado.

Perdoar na inexistência de justificativas.

E isso só acontece quando o reino de Deus já existe em você. Quando sua natureza já foi abalada e reestruturada pelo caminhar constante com o Mestre.

Você achava que andar na contramão do mundo era perder o emprego pelo sábado, não usar brinco e ser vegetariano, não é? Bem, essas coisas são tão pequenas comparadas ao que Deus pede de nós… E a realidade é que qualquer demônio pode fazer uma cosias dessas. Lembro da história de um homem que foi ancião por dez anos numa igreja da Rússia, para um dia simplesmente se levantar e dizer adeus, revelando-se como um agente da polícia secreta, responsável por estudar a igreja e entender se ela era uma ameaça ao estado.

“Mas ele deu estudos, pregava maravilhosamente, conduzia comissões.”

“Nisto conhecerão que vocês são meus seguidores: se vocês amarem uns aos outros.” João 13.35

Não o amor utilitário que está intrincado no seu jeito de pensar e agir, mas o paradigma de Cristo, o fundamento da cosmovisão cristã, o amor que se sacrifica, que assume o prejuízo, que quebra a cadeia de maldade. Esse é a único argumento de que Deus está presente em uma comunidade cristã. E sem esse argumento, todo o resto se perde.

Quando estiver na igreja, olhe para o lado. Você vai passar a eternidade com aquelas pessoas!

Já parou pra pensar nisso?

Então por que continuar brigando quando discordam da sua opinião? Por que continuar falando mal dos outros? Por que continuar se achando superior e apontando o dedo para a dificuldade dos outros?

Arrumar o quarto é viver esse amor. E isso é o que Deus requer, sem o qual os mais custosos serviços religiosos e atos exteriores são vãos; isso é mais do que ofertas-queimadas e sacrifícios.

Mas e aí?  Mudar minha cosmovisão, andar com Deus, ter prazer em ouvir a voz dEle, viver esse amor tresloucado… pare.

Pare de pensar nas coisas que você tem que mudar, que você precisa fazer. Porque na realidade, elas não existem.

Tudo começa com uma escolha. Uma simples escolha de finalmente retirar o Leão do armário e deixar que Ele estraçalhe qualquer divisória que exista na sua vida. E então, todo o resto será uma simples resposta aos Seus rugidos, pois Ele fará em nós aquilo que faz por nós, através do exercício da nossa vontade. E enquanto ele coloca as coisas em ordem, enquanto ele cria em você o desejo e lhe dá as forças para agir, você não precisa ter medo, pois, como diria o Sr. Castor, ele pode ser muito perigoso, mas é bom.

Mas a questão é: você realmente quer isso?


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