Um mundo pragmático e seus abismos

 “Os homens não tem medo de morrer. Tem é medo de morrer sem saber pelo que viveram.”

A. Lincoln

Você consegue listar as maiores conquistas e os maiores sonhos da sua vida?

Em fevereiro de 2007, Philip Yancey, um de meus escritores prediletos, sofreu um acidente trágico.

Voltando de carro depois de proferir uma palestra no Novo México, passava por uma rodovia remota perto da fronteira do Colorado. Havia nevado alguns dias antes e isso deixara a pista escorregadia. De repente, enquanto fazia uma curva na descida, seu carro começou a deslizar, desgovernado. Yancey tentou manter o volante firme, virando-o para direita e depois para esquerda, mas em vão.

Em alguns segundos seu carro estava capotando lateralmente ribanceira abaixo.

Em meio aos estilhaços de vidro, pedaços de metal e plástico, ele estava vivo. Mas não tão vivo quanto gostaria, visto que seu pescoço estava quebrado. Yancey foi levado ao hospital, onde o médico lhe informou que suaa terceira vértebra estava fraturada; a boa notícia era que a coluna vertebral não havia sido rompida, então ele não ficaria tetraplégico. A má notícia era que a fratura havia acontecido perto de uma artéria importante e se ela estivesse rompida, ele morreria enquanto era transportado para um hospital maior. Infelizmente os equipamentos naquele hospital não permitiriam ter certeza sobre isso.

Yancey ficou imóvel durante 7 horas até chegar ao hospital em Denver. Mas para ele o tempo que se passou foi muito mais. E também muito menos. Sete longas horas deitado ao lado da morte, olhando-a nos olhos, sentindo seu bafo gelado.

“Enquanto eu estava lá, deitado, percebi que grande parte da minha vida girava em torno de coisas triviais. Acreditem, durante aquelas sete horas não pensei em quantos livros meus haviam sido vendidos, ou que tipo de carro eu dirigia (de qualquer maneira, o carro estava sendo rebocado para o ferro-velho), ou quanto dinheiro havia em minha conta bancária. Tudo o que me importava se resumia a algumas questões fundamentais: “Quem eu amo?”; “De quem sentirei falta?”; “Estou preparado para o que vier depois?” Desde aquele dia, sempre tentei viver tendo bem presentes aquelas questões.”

Philip Yancey, em “Pra Que Serve Deus?”, versão para Kindle, p. 32

Fico pensando quantos dos nossos sonhos e de nossas conquistas se provarão simplesmente triviais quando formos confrontados com essa realidade última: o fim chega.

Para felicidade de Philip, ele pôde realizar a tomografia computadorizada e receber a notícia de que não corria risco de vida. Ele teve a oportunidade retirar a vida do curso da mediocridade.

Quando li esse relato não pude deixar de pensar na história de um outro homem, que não teve a oportunidade que Yancey teve para perceber o quanto sua vida girava em torno do vento.

“Um homem rico tinha uma fazenda que deu boas colheitas. Com isso seus depósitos ficaram cheios, e ele não tinha mais onde colocar o produto de seus campos. O homem pensou no seu problema. ‘Que devo fazer?’

Finalmente exclamou: ‘Já sei o que farei. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores! Assim terei espaço suficiente para guardar tudo. Depois vou descansar e dizer para mim mesmo: ‘Amigo, você guardou o suficiente para anos futuros. Agora sim! Descanse e divirta-se!’

Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Você morrerá essa noite. E então, quem ficará com tudo que você preparou?’ Sim, assim acontece com todo aquele que junta riquezas para si mesmo, mas não é rico para com Deus.”

Lc 12.16-21

Um homem que via nas coisas temporais o valor de sua alma. Um homem que via na realização dos seus objetivos o sentido de toda sua existência.

Diz um ditado popular que o homem começa a morrer quando deixa de sonhar.

Embora eu concorde parcialmente, também temo que essa seja uma terrível ilusão. Uma ilusão que torna o homem indolente, pois implícita está a ideia de que nossos sonhos podem nos tornar imortais, invencíveis, infinitos. A mesma ilusão que tomou o tolo da parábola.

Talvez pensemos que essa ilusão é ridícula, mas será que não temos sido vítimas dela?

Eu penso que sim. Penso que sim porque vejo um mundo naufragado no pragmatismo hedonista, assim como o homem da parábola.

O pragmatismo, como sistema de pensamento, parte da concepção de que o homem não é essencialmente um ser teórico, com preocupações metafísicas. A sua inteligência está voltada para a concretização dos seus propósitos, que são eminentemente práticos; por isso, todo o conhecimento tem um objetivo prático. No pragmatismo, temos o rompimento com o pensamento metafísico; o que importa é a funcionalidade. O correto é aquilo que funciona ou satisfaz. Assim, o valor intrínseco foi substituído pela eficácia; ou seja, se funciona, tem valor; as ideias verdadeiras são as que funcionam, são valiosas. Deste modo, não existem absolutos; tudo é relativo: a funcionalidade é identificada com verdade e a não funcionalidade é rejeitada como sendo falsa.

O pragmatismo hedonista estabelece como funcional aquilo que traz prazer, satisfação, realização pessoal – e essa passa a ser a referência que define o certo e o errado na vida.

E então mergulhados nesse pensamento, projetamos nossa felicidade e paz nos nossos desejos mais ambiciosos.

Sonhar é importante, necessário. Deus mesmo nos diz para termos nossos planos e entregarmos a Ele, para que eles sejam estabelecidos (Pv 16.1-3). O problema está quando pensamos, “Quando eu tiver aquele carro, serei feliz”, ou “Quando for promovido”, “Quando eu conhecer a Europa”, “Quando fizer minha pós-graduação”, “Quando eu conseguir emagrecer”, “Quando eu me casar” etc. E dessa forma medimos o valor da nossa vida pela quantidade dos nossos bens, sejam eles concretos ou abstratos, isso é, tanto nossas posses quanto nossos títulos, nossa fama, nossa popularidade.

E assim, sutilmente, nossa inquietação se torna cada vez maior. Ficamos depressivos, ansiosos. Temos problemas em nossos relacionamentos, não conseguimos dormir. E por quê? É muito simples. Porque a realização, a verdadeira satisfação, prometida por nós mesmos, nunca acontece.

A sua expectativa de se satisfazer só continua viva enquanto o desejo se mantém não realizado. Um exemplo idiota disso é o antigo “Gameshark”, do Playstation. Ele era usado para liberar vidas infinitas, super-poderes e quaisquer outros códigos que habilitavam coisas que você ficaria dias e dias para conquistar. Mas então, o que acontecia? O jogo perdia a graça. Vou repetir: A sua expectativa de se satisfazer só continua viva enquanto o desejo se mantém não realizado.

Assim que você o realiza, outro desejo nasce e o ciclo continua. E é por isso que vivemos em um mundo onde temos cada vez mais, mas estamos cada vez menos satisfeitos. É o abismo que existe dentro de você chamando outro abismo, e outro, e outro. Talvez isso explique o fato de existir uma causalidade entre altos níveis de IDH e taxas de suicídio. O sentido se esvazia na vida daqueles que percebem que seu tudo é nada.

No ápice dos Beatles, Paul McCartney  virou  o resto da banda e disse: “Temos fama, temos dinheiro, temos tudo e agora?”

…e agora?

Deus, através de Salomão, tentou nos avisar dessa realidade ilusória.

“Assim, depois de pensar muito, decidi entregar-me ao vinho e me divertir, sem, porém, deixar de procurar a sabedoria. Pensei que essa seria melhor coisa que alguém poderia fazer durante sua vida curta aqui na terra.

Depois procurei encontrar a realização lançando um grande programa de obras: construí casas, plantei videiras, fiz jardins e pomares, e plantei todo tipo de árvore. Mandei construir açudes onde ajuntei água para regar minhas plantações. Comprei escravos, homens e mulheres e muitos escravos nasceram em minha casa. E tive muitos bois e ovelhas, mais do que qualquer outro rei antes de mim. Recebi muito ouro e muita prata dos impostos que eu cobrava dos reis dos países próximos. Organizei corais e orquestras, com bons cantores e cantoras. Além de tudo isso, eu tive muitas mulheres as delícias dos homens.

Com tanta riqueza, fui mais importante e poderoso que todos os outros reis que haviam reinado antes de mim em Jerusalém. Mas eu não abandonei a minha sabedoria.

Tudo o que meus olhos desejam eu consegui pra mim. Provei todos os prazeres da vida. […]

Contudo, quando vi tudo o que as minhas mãos tinham feito, e o trabalho que tanto me esforcei em realizar, compreendi que tudo era ilusão! Era como correr atrás do vento! Não havia nenhum proveito nisso debaixo do sol.”

Eclesiastes 2.3-11

Você consegue imaginar ter tudo que você sequer já desejou? É engraçado como nossos devaneios parecem magníficos; mas só o são porque são desejos e não realidade – porque no fim, aquele que de tudo provou, movido pela mão de Deus, tenta nos dizer que tudo é correr atrás do vento.

Salomão pode parecer fatalista, pessimista. Mas se você seguir a lógica dele, verá que ele não é tão extremo assim – o problema é que a verdade às vezes dói:

“Os homens e os animais respiram o mesmo ar e morrem da mesma maneira. Assim, o homem não tem nenhuma vantagem sobre o animal. Tudo é ilusão! Todos acabam indo para o mesmo lugar, voltam ao pó de onde vieram e para onde devem voltar.”

Eclesiastes 3.19-20

A lógica de Salomão é que, não importa o que você tenha, ou quem você seja, sempre existirão dois problemas que nem você nem qualquer ser humano conseguirão se livrar:

  1. As pessoas que você ama vão morrer, a despeito do nível de  felicidade que você tenha hoje. As pessoas que você ama vão escapar pelos dedos de sua mão e você não  vai poder fazer nada por isso, você vai perdê-las.
  2. Você também vai morrer, e no fim, o seu final é o mesmo de um frango.

“Louco, você morrerá essa noite! E então, quem ficará com tudo que você ajuntou?”

E pra esse problema, os prazeres não resolvem, o conhecimento não resolve, nem seu trabalho, nem sua fama, nem nada.

É engraçado pensar que o homem seja tão adaptável. Ele pode aprende a viver no deserto, no gelo, até dentro de um cubo!  Mas mesmo fazendo seis mil anos que morre gente na terra, nós não nos adaptamos à morte.

Sabe, por mais que pareça, Salomão não quer te deixar louco, nem depressivo. Ele quer dizer, e essa é a mensagem que ecoa através dos séculos, que você vai olhar pra sua vida e não vai encontrar a solução para um desejo, um vazio que existe dentro do seu coração.

Um  buraco que Deus colocou aí. Um buraco que a Bíblia chama de “a eternidade no coração do homem”, porque fomos feitos para reconhecer que existe vida além do tempo, propósito além do nada.

E para que você não perdesse a cabeça, literalmente, tentando de todo e qualquer jeito preenchê-lo, Salomão conta a história dele, a história de alguém que tentou buscar sentido em tudo que poderia para simplesmente perceber que NÃO FUNCIONA.

E esse buraco é a razão pela qual o ser humano não se adaptou à morte. E não se adaptou pelo simples fato de que nós não nascemos para morrer.

Existe em nosso coração o desejo pela eternidade.

Mas se nenhum ser humano jamais foi eterno, como posso desejar algo que não existe aqui?

C. S. Lewis escreveu:

“As criaturas não nascem com desejos, a não ser que a satisfação para tais desejos exista. Um bebê sente fome: bem, então existe algo chamado comida. (…) O ser humano sente desejo sexual: bem, existe uma coisa chamada sexo. Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para outro mundo. Se nenhum dos meus prazeres terrenos é capaz de satisfazer isso, não quer dizer que o universo é uma fraude.”

Cristianismo Puro e Simples

Até quando você vai tapear esse desejo legítimo que existe na sua alma? Até quando você vai se iludir com seus bolinhos de lama, enquanto existe um bolo de chocolate de verdade lhe sendo oferecido!?

De fato, encontraremos algumas alegrias em nossa vida, e não estou negando isso. Mas como diz Lewis:

 “A felicidade e segurança definitiva que todos nós desejamos Deus as retém, pela própria natureza do mundo. Mas a alegria, o prazer e o riso Ele os espalhou por toda parte. Nosso Pai nos revigora ao longo de nossa jornada com algumas aprazíveis hospedarias, mas não nos estimula a confundi-las com o lar.”

Será que é tão difícil de perceber que um buraco do tamanho do infinito só pode ser preenchido por algo infinito?

Se sofremos com isso tudo, é porque somos tolos e surdos. Desde o século I temos as palavras de Jesus em João 4:13, onde Ele diz que quem beber dessa [falsa] água terá sede novamente. Vou ser chato e repetir isso: se você buscar saciar a sua sede com as águas comuns dessa vida, você vai passar a vida sedento e por fim morrerá no deserto, e acredite, quando você morrer no deserto, não interessará o que foi que você tomou em vez da única água verdadeira.

Mas essa não é a única opção, podemos escolher nos libertar dessa semi-eterna corrida de ratos. Pois no mesmo lugar que Ele declara a verdade sobre nossos desejos, Ele também diz: “aquele  que beber da água que eu der, nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu der será uma fonte a jorrar para a vida eterna.”

Em outras palavras, Ele veio para que nós tenhamos vida, vida completa, vida que transborda, e transborda a ponto de se esparramar para os outros (Jo 10.10)!

 “Os que fazem de Cristo o primeiro, o último e o melhor ( o tudo!) em suas vidas são as pessoas mais felizes do mundo.”

E. White, Review and Herald, 1884

Mas ele não pode te forçar a escolher essa vida, pois para que o amor seja real a liberdade também precisa ser.

Mas o que Ele oferece hoje para você é a paz que somente Ele pode dar. Uma paz que é diferente do que você enxerga por aí (Jo 14.27). E é diferente porque a paz que Jesus oferece não se baseia em circunstâncias. Ela excede todo entendimento, porque ela te habilita para ser feliz e grato em qualquer momento, seja enfrentando um câncer, seja em um velório, seja tendo somente pão e banana para se alimentar( Fp 4.11-13). É a paz que vemos nos olhos dos vinte um mártires que preferiram entregar suas cabeças à renunciar o nome de Cristo. A paz que toma conta daqueles que encontram em Jesus alguém que os ama tanto, que em resposta, vale a pena perder tudo, nada.

No final das contas, encontraremos alguém por quem vale a pena se perder tudo. E esse alguém será ou Cristo, ou nós mesmos.

Você não precisa acreditar em mim. Se minhas palavras não são suficientes, fique à vontade para experimentar a vida e ver o que ela pode te oferecer, se é que você já não fez isso. Fique a vontade para tentar se preencher com qualquer coisa que você achar que pode dar sentido à sua vida.

Só lembre-se de uma coisa, por favor: não interessa o quão longe você tenha ido, as palavras de Jesus sempre continuarão as mesmas:

“De maneira nenhuma rejeitarei aqueles que vem até mim.”

João 6.37


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