Mamadeira batizada: uma exposição de Provérbios 31:6

Durante o estudo do capítulo 31 de provérbios, tema da escola sabatina dessa semana (22-27/03) você deve ter topado (ou irá) com o verso 6 do capítulo 31, onde a mãe do rei aparentemente sugere que não tem nada de erro em dar uma “afogada nas mágoas”, pra esquecer a miséria. Dá até pra se questionar se ela já deu um “mamá batizado” pro pequeno Lemuel, quando ele chorava de cólica. Ou seja, aparentemente o texto estaria sancionando o uso moderado de alcool como forma de aliviar a dor, o stress e a tensão.

Esse verso tem sido usado como defesa por aqueles que defendem a “teologia da moderação” em relação ao consumo de bebidas alcoólicas. Mas acredito que somente uma leitura superficial permita essa conclusão.

O contexto

Antes de tudo, precisamos considerar o contexto do verso 6, que contém uma advertência pesada aos reis e governadores para que se abstenham completamente do vinho e das bebidas intoxicantes pelo simples fato de existir a possibilidade de ter o seu julgamento moral debilitado, assim como a sua “lembrança da lei”. O contexto realiza um julgamento sobre as bebidas alcoólicas ao proibir não o seu uso moderado, mas o seu uso efetivo. O texto não diz, “Não é para reis beber muito vinho”, mas sim, “Não é para reis beber vinho”. À luz dessa proibição categórica do uso do vinho nos versos 4 e 5, o autor inspirado dificilmente poderia ter recomendado o seu uso moderado para aliviar a dor, o stress e a tensão da vida comum.

O imperativo “Dê” do verso 6, pode ser considerado como uma comparação condicional. Rei e governadores devem se abster porque essas bebidas debilitam a clareza mental e a integridade jjudicial. Se elas não sã oadequadas para pessoas responsáveis, para quem são então? O verso 6 dá a resposta: Se é pra dar pra alguém, dê pra quem está perecendo. A passagem inteira pode ser descrita como uma moeda, em um dos lados tendo a inscrição “Bebidas alcoólicas não são adequadas para pessoas responsáveis, que buscam a justiça” e do outro “Bebidas alcoólicas são para aqueles que estão morrendo sem esperança.” O verso pode ser entendido como um conselho satírico, irônico. Após aconselhar seu filho, o rei Lemuel, contra os perigos das bebidas intoxicantes, em uma corrente de ironia, ela aponta para os miseráveis como os únicos para quem o álcool é adequado. Poderia haver alguma condenação pior ao consumo do álcool?

A natureza da miséria

O sentido da passagem pode ficar mais claro quando notamos a natureza da “miséria” enfrentada por aqueles a quem as bebidas são adequadas. O texto fala dos que estão “perecendo” (h. obed) e em “tristeza amarga” (marei naphesh). Ambos termos em hebraico denotam uma situação desesperada, sem esperanças. Em outras palavras, não é como quando as pessoas dizem, “Estou morrendo de sede, preciso de uma cerveja”, ou “Não consigo dormir, preciso de um calmante”. É como quando alguém praticamente grita, “A dor está me matando. Preciso de algo para acabar com essa dor!” Não estamos lidando com o caso de alguém sofrendo uma agonia excruciante, como uma crucificação, por exemplo.

O Talmud, inclusive, interpreta Provérbios 31.6 como uma recomendação para dar intoxicantes afim de aliviar a dor daqueles sendo executados. Sanhedrin 43a diz:

“Rab Ehisda disse, ‘Àquele que procedeu à execução, foi dado um pouco de resina [frankincense] misturado com vinho, para privá-lo de sua consciência.” Em seu artigo sobre vinho no Dicionário Teológico do Novo Testamento, Heinrich Seeseman relaciona essa passagem ao “vinho misturado com mirra” (Marcos 15.23) dado a Jesus na cruz, mas recusado por Ele. Seeseman nota que ‘a rejeição de Jesus à bebida nosmostra que Ele aceitou o sofrimento da cruz por completo.’ Se ele não fosse nosso redentor, Ele poderia ter aceitado a bebida. A Bíblia não é contra o uso de analgésicos.

Entretanto, o fato de que Cristo recusou o vinho intoxicante mesmo para aliviar a agonia da cruz, nos dá um testemunho relevante a respeito de Sua desaprovação das bebidas intoxicantes. É digno de nota que logo depois, quando oferecido vinagre (h. oxos), um não-intoxicante, Ele o aceitou (João 19.29-30).

Em suma

A passagem de Provérbios 31.6 não recomenda o uso moderado de bebidas alcoólicas para o prazer próprio. Em vez disso, de uma forma irônica, sugere que tais bebidas são adequadas somente para aliviar a dor excruciante de alguém que está perecendo.

Referências:

O artigo acima é uma tradução livre e resumida de um artigo presente no capítulo 7 do livro “Wine in the Bible”, de Bacchiocchi, S. Versão para Kindle.

Sanhedrin 43a, citado em Heinrich Seeseman, “Oinos”, Theological Dictionary of the New Testament, ed. Gerhard Friedrich (Grand Rapids, 1968), vol 5, p. 164


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