Tolerar ou Instruir: a falsa dicotomia

O texto abaixo é uma breve reflexão a respeito de um dos paradoxos da vida cristã: poupar nossos irmãos do escândalo enquanto os instruímos em amor, escrito pela filósofa adventista Vanedja Cândido e um texto complementar escrito pelo pr. Matheus Cardoso. 1 – Tolerância com o “irmão fraco” (imaturo) “Com respeito aos alimentos sacrificados aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica. […] Tenham cuidado para que o exercício da liberdade de vocês não se torne uma pedra de tropeço para os fracos. […] Assim, esse irmão fraco, por quem Cristo morreu, é destruído por causa do conhecimento que você tem. Quando você peca contra seus irmãos dessa maneira, ferindo a consciência fraca deles, peca contra Cristo” (1Co 8:1, 9, 11-12, NVI). “Pois nenhum de nós vive apenas para si, e nenhum de nós morre apenas para si. […] Se o seu irmão se entristece devido ao que você come, você já não está agindo por amor. Por causa da sua comida, não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu” (Rm 14:7, 15, NVI). 2 – Estímulo ao crescimento espiritual “Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: ‘Não manuseie!’, ‘Não prove!’, ‘Não toque!’? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne” (Cl 2:20-23, NVI). Sobretudo num país de dimensões continentais e multiculturalizado como o Brasil, o “escândalo” pode ir de usar uma roupa vermelha na plataforma a assistir desenhos de super-heróis (por mais bizarro que pareça, sei de casos em que ambos causaram escândalo). De modo que, por mais que tentemos, sempre acabaremos escandalizando alguém. Não que devamos desprezar a ordem bíblica de não escandalizar, mas o que chama a atenção é a insistência que temos como igreja em “passar a mão na cabeça” do irmão escandalizável. Paulo chama a esse irmão de “fraco na fé” (Rm 14:1; 1Co 8:7), mas parece que muitos crentes acham que ser “fraco na fé” é uma virtude. É verdade que não devemos sair escandalizando as pessoas gratuitamente; isso iria contra o que a Bíblia ensina. Acontece que, comumente, somos tão “cheios de dedos” que perpetuamos a fraqueza desses irmãos infinitamente, sob o pretexto de não escandalizá-los. Isso não é preservar o irmão, mas preservar a ignorância dele. O mesmo Paulo que disse para não escandalizar quanto à questão da carne sacrificada a ídolos (1Co 8:7, 9) não temeu instruir dizendo, entre outras coisas, que “não é a comida que nos recomendará a Deus, pois nada perderemos se não comermos, e nada ganharemos se comermos” (1Co 8:8; cf. Rm 14:14). Além do mais, o escândalo do qual Paulo fala não tem que ver com birras e mimos, mas com coisas que mexiam no mais íntimo dos novos conversos, coisas graves a ponto de fazer o irmão fraco apostatar da fé (Rm 14:15; 1Co 8:7, 11-12; note o uso da palavra “perecer”). Mas geralmente o argumento do escândalo vem de pessoas experientes, que estão na igreja há décadas. Assim, já deveriam ter maturidade teológica e estar mais preocupadas em não escandalizar os “pequeninos”, e não em ser escandalizadas (Mt 18:6). O abuso do “não escandalize” é um dos fatores que contribuem para termos uma igreja cada vez mais mimada e biblicamente analfabeta. A ordem bíblica para não escandalizar não anula a ordem – também bíblica – de, com amor, instruirmos a igreja acerca do que a Bíblia realmente ensina. Por isso, acredito que, em vez de simplistamente sacarmos esse texto de Paulo a cada polêmica, nossa preocupação deve ser instruir o povo para que ele não viva como “fraco na fé” a vida inteira. Sinceramente, muitas vezes a preocupação não parece ser essa, e sim usar essa passagem bíblica como pretexto para que nossas “vacas sagradas” continuem intocadas, numa forma de idolatria ideológica.

O QUE É “ESCÂNDALO” OU “PEDRA DE TROPEÇO”? ‪#‎rpsp‬

“Duas raízes gregas nas cartas paulinas [isto é, de Paulo] são às vezes traduzidas como ‘pedra de tropeço’ ou ‘causa de queda’. As duas raízes são mais sérias do que as traduções sugerem e significam ocasiões que levam à RUÍNA ESPIRITUAL. […] “Alhures, Paulo usou [as palavras gregas] proskomma e proskopto em advertências aos cristãos ‘fortes’ para que não fossem causa de QUEDA dos cristãos ‘fracos’, em especial com referência a alimento (Rm 14:13, 20-21; 1Co 8:9). Os fracos eram tentados a comprometer sua integridade e participar do que consideravam idolatria (1Co 8:7, 10) ou impureza (Rm 14:14). A forte linguagem paulina em 1 Coríntios 8:11 e Romanos 14:15, 20, 22-23 reflete a GRAVIDADE DO PERIGO que os fortes impunham aos fracos. [Rm 14:15 e 1Co 8:11 falam em ‘destruir’ (NVI) ou ‘(fazer) perecer’ (ARA) o irmão fraco; e 1Co 8:7, 11 se referem, respectivamente, a ‘contaminar’ (NVI, ARA) e ‘ferir’ (NVI) ou ‘golpear’ (ARA) a consciência fraca. Portanto, ‘pedras de tropeço’ eram coisas graves a ponto de fazer o irmão fraco apostatar da fé e se perder.] […]

“O raríssimo termo skandalon, como proskomma, significa algo que leva a TENTAÇÃO DESASTROSA ou RUÍNA ESPIRITUAL. […] Com skandalon, Paulo não se referia a tentativas pelos fracos de impingir aos fortes suas restrições dietéticas; ao contrário, ele queria enfatizar a ARMADILHA ESPIRITUAL criada quando o comportamento confiante dos fortes (na realidade) incitava os cristãos fracos ao PECADO, agindo contra suas consciências, como revela o paralelo em 1 Coríntios 8:7 (cf. Rm 14:15). Em tais casos, Paulo aconselhou os fortes a controlar o exercício da liberdade por amor aos fracos. Paulo preferia renunciar a seus direitos a se arriscar a DESTRUIR outros induzindo-os a fazer o que acreditavam ser errado (Rm 14:21; 1Co 8:13). […] “A forte linguagem paulina tem extraordinária semelhança com a severa advertência de Jesus contra ‘aquele que causa a QUEDA’ de um pequeno (Mt 18:6; par. Mc 9:42; Lc 17:2) e com outras palavras dominicais [isto é, do Senhor] a respeito de skandala (Mt 18:7; par. Lc 17:1; Mt 13:41-42; 16:23).” – M. B. Thompson, “Pedra de tropeço”, em Dicionário de Paulo e Suas Cartas (Vida Nova / Loyola, 2008), p. 973-974.
 Resumindo: “escândalo” ou “pedra de tropeço” não é mimimi de quem está há 30 anos na igreja mas não sabe o que a Bíblia ensina. Em vez disso, é o ato de ferir gravemente a consciência de um cristão recém-converso, imaturo, levando-o à apostasia e à ruína espiritual.

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