O B-A-BÁ para ler Ellen White

(Esse texto se baseia em um artigo escrito por Roger W. Coon e publicado no site do centro de pesquisas bíblicas da conferência geral)

Ao longo dos meus últimos anos na igreja, eu tive sérios problemas com os escritos de Ellen White. Talvez você se identifique comigo. A realidade é que, pela forma que eu via e ouvia algumas pessoas utilizando seus textos e os aplicando à vida, ela parecia completamente louca e nada bíblica.

Eu acho que posso dar um pequeno exemplo. Uma vez ouvi um irmão espalhando que comer carne é pecado, porque Ellen White diz (será que ele nunca se perguntou o que a bíblia ensina sobre isso?). É lamentável que muitos autoproclamados reformadores tenham a tendência de irem ao extremo oposto daquilo que procuram mudar. Só pra deixar claro, Ellen White não diz isso – seus escritos sobre saúde não são uma lista de pecados alimentares, mas princípios que objetivam expandir nosso potencial de relacionamento com Deus e nos advertem a termos o cuidado de não destruirmos a casa de Deus, que é nosso corpo.

Mas aí eu descobri que o que as pessoas fazem com os Testemunhos (é como vou referir aos escritos de Ellen, daqui pra frente) não necessariamente retratam a realidade sobre eles. Quando desisti de me apoiar somente no conhecimento de terceiros a esse respeito, aprendi a amar seus escritos e vê-los como parte do zelo que Deus tem por mim.

Mas para isso é necessário ter a capacidade de extrair significado daquilo que se lê.

Não nego que isso seja difícil. Em nossa vida corrida mal temos tempo para refletir sobre o que lemos. Acabamos passando os olhos pelos textos bíblicos, pelos testemunhos e por qualquer outro livro como se estivéssemos lendo uma legenda de filme. Aliás, tudo que for mais comprido do que isso nos causa canseira.

É por isso que Filipe pergunta ao Eunuco: “Você está entendendo isso aí?” (At 8.30)

E você, entende o que lê? Ou, pela conveniência, interpreta da forma que te convém?

Não podemos ignorar o fato de que entender os escritos de uma profetiza que viveu somente 15 anos no século 19 não é algo simples. A vida era bem diferente naquela época. O primeiro filme de Hollywood só rodou no cinema no ano da morte dela. A primeira estação comercial de rádio só foi ao ar em 1920 e a primeira estação de televisão, em 1939.  Será que ela tem algo significante  a dizer para nós hoje?

A resposta é sim. Assim como é com Moisés, Jeremias, Daniel e Paulo, é com Ellen: precisamos de princípios hermenêuticos[1] que nos ajudem a entender o que os profetas significaram com seus escritos, e não somente o que eles disseram. Percebe a diferença?

Alguns discordarão. Acharão que esse é um meio de flexibilizar a mensagem até um ponto onde ela seja uma escrava da nossa conveniência. Esse medo não é ilegítimo, afinal, os fariseus fizeram isso com o “Corbã” (Mt 15.6), por exemplo, é por isso preferem defender que o texto não deva ser interpretado. A ironia é que a postura de nenhuma interpretação, por si já é uma postura interpretativa! A chamada “lógica de Maria”, nome dado pela fala de Maria aos servos no casamento em Caná: “Faça tudo o que Ele mandar!” (Jo 2.5).

Mas esse tipo de postura causa alguns sérios problemas. Por exemplo, como você leria Isaías 45.7, onde está escrito que Deus cria o bem e o mal? A displicência hermenêutica pode levá-lo a uma tremenda heresia, “fundamentada” no texto bíblico.

O objetivo é fazer como em Neemias 8.8: Ler, tornar claro e dar significado, de forma que as pessoas possam entender o que está sendo lido.

Espero que os princípios listados abaixo sejam aplicados no seu estudo e o levem a uma compreensão mais profunda das mensagens inspiradas.

Alguns princípios hermenêuticos básicos para se compreender corretamente os Testemunhos

  1. A Bíblia é a lente com a qual lemos os Testemunhos, e não o contrário

Para Ellen White, o “grande princípio protestante” sola scriptura sempre foi essencial em seu relacionamento com a Bíblia.

“A Bíblia, e a Bíblia somente, como nossa regra de fé e prática” (GC 204, 205).

A Bíblia somente é o “padrão pelo qual todo ensino e experiência deve ser testado” (GC vii)

A Bíblia contém todo conhecimento necessário à salvação (GC 93, 173)

Esse princípio deve significar, na prática, que a autoridade da Bíblia precede qualquer fonte de conhecimento ( sejam deduções científicas, filosofia, tradição ou revelação extrabíblica).

  1. Considere que palavras iguais podem ter significados diferentes.

Um exemplo disso pode ser visto no Desejado de Todas as Nações, quando Ellen fala sobre a manhã da ressurreição, “Cristo saiu da tumba glorificado” (DTN 780). Entretanto, 25 páginas depois ela diz, “O Espírito Santo ainda não havia se manifestado completamente; Cristo ainda não havia sido glorificado” (DTN 805).

Uma hermenêutica correta nos ajuda a resolver esse conflito, apontando para o sentido dado pelo contexto: a primeira frase se refere à aparência física de Jesus, enquanto a segunda ao seu status hierárquico como Rei do Universo.

  1. Considere TUDO que o profeta disse sobre determinado tema antes de tirar suas conclusões.

A razão é imediatamente clara. Quando selecionamos somente alguns textos sobre determinado tópico, corremos o sério risco de apresentar somente uma faceta de determinada verdade. Isso contribui muito mais para distorcer a verdade do que torná-la mais clara.

Tiago White, seu esposo, reconheceu o risco de mencionado ao escrever em 1868 que às vezes ela faz fortes apelos, os quais alguns sentem fortemente e tomam decididas posições, e vãos aos extremos. Como resultado, ela é obrigada a advertir os extremistas de forma pública (RH, Mar. 17, 1868).  Isso às vezes faz com que ela pareça contraditória, mas tudo que estava tentando fazer era balancear as duas faces de uma questão. Esse fato por si já deveria nos tornar mais cautelosos em nossas conclusões e nos fazer SEMPRE lembrar que somente Deus não precisa de uma segunda opinião.

Podemos dar um exemplo da aplicação desse princípio:

É pecado não ajoelhar para orar?

Um certo dia, no Pacific Union College, um pastor convidado realizou uma curta mensagem devocional no campo de futebol, que estava molhado por causa do orvalho. No momento da oração, foi pedido que todos curvassem suas cabeças para falar com Deus. Um grupo de alunos, afastaram-se uma certa distância e se ajoelharam durante a oração. O mesmo grupo se ajoelhava em todas  orações durante o culto, independente de como o resto da igreja estava. Se confrontados, eles citariam 2SM 311, “Ajoelhar-se é sempre a posição apropriada.”

Entretanto, a palavra sempre não parece excluir outras “posições” quando você considera textos como :

“Não há momento ou lugar no qual seja inapropriado oferecer uma petição a Deus . Não há nada que pode nos impedir de levantar nossos corações no espírito da oração sincera. Nas multidões da rua, no meio de uma negociação de trabalho, nós podemos erguer a Deus um pedido de orientação divina” (CC 99);

“ Não é sempre necessário se ajoelhar a fim de orar.  Culive o hábito de conversar com o Salvador quando você estiver sozinho, caminhando, ou ocupado com seu trabalho. Que seu coração seja constantemente levantado  em oração , em pedidos silenciosos de ajuda, luz, força e conhecimento. Que cada suspiro seu seja uma oração” (MH 510, 511)

Ao lermos mais textos sobre o mesmo assunto, o primeiro não parece mais tão absoluto não é? O fato é que circunstâncias alteram o significado  de declarações. Entender isso é importante para se compreender determinados escritos. No primeiro caso, por exemplo, conhecer as circunstâncias que a levaram a escrever aquela frase nos dá suporte para fazer uma aplicação fiel da mensagem: ela estava se referindo  à oração principal dos cultos, a oração pastoral, e não a qualquer oração.

  1. Se uma declaração parecer inconsistente com o tom geral de outras declarações relacionadas, estude o contexto (interno e externo) como parte de seu esforço para resolver a aparente discrepância

O contexto interno se refere ao que o autor escreveu imediatamente antes e depois da declaração ‘complicada’. Nenhum texto é escrito no vácuo e Ellen W. mesma disse que não foi comissionada por Deus a escrever provérbios. Isso basicamente significa que o contexto literário de seus escritos podem resolver muitas dificuldades – como no exemplo da oração. Isso pode acontecer especialmente com compilações, já que às vezes o material citado é insuficiente para determinar o contexto.

Alguns, conscientes desse problema, recusam-se a ler compilados. Entretanto, as compilações são um dos três deveres que Ellen deixou a seus depositários antes de morrer. Além disso, existem publicações criadas sob a supervisão dela mesma. O Desejado de Todas as Nações, por exemplo, não foi escrito como um livro corrido. Ele é uma compilação de artigos, capítulos e manuscritos  sobre a vida de Jesus, unidos a um esforço de Ellen White para escrever a fim de preencher os espaços entre os materiais, reescrever alguns e expandir outros, conforme necessário.

Apesar disso, Ellen se preocupava muito  com uso inadequado de compilações – o que soa como uma advertência à forma  como usamos textos picotados de seus escritos:

“Muitos pegam os testemunhos que o Senhor concedeu e os aplicam como supõe que devem ser aplicados, selecionando uma frase aqui e outra ali, tirando-as de suas próprias conexões e aplicando-as de acordo com suas idéias. Assim, pobres almas são confundidas, quando poderiam ler tudo na ordem que foi dada, vendo a aplicação verdadeira e evitando a confusão. Muito do que parece ser uma mensagem da irmã White serve o propósito de mal representá-la, fazendo-a testificar a favor de coisas que não estão de acordo com sua mente ou julgamento… Por favor, deixe a irmã White carregar sua própria mensagem.” (1SM 44, 45)

Quanto ao contexto externo, Ellen reconhecia que ele poderia influenciar a compreensão de uma verdade que ela se propunha a evidenciar.  Note as seguintes declarações:

“Quanto aos testemunhos, nada é ignorado, nada é deixado de lado;  mas tempo e lugar precisam ser considerados” (1SM 57).

“Aquilo que pode ser dito sobre homens em determinadas circunstâncias,  não pode ser dito sobre eles em diferentes circunstâncias”  (3T 470).

A segunda declaração é especialmente importante, visto que muitas declarações de Ellen White estão escritas em cartas, direcionadas a pessoas em determinadas circunstâncias. Entender quais são essas circunstâncias que engatilharam a declaração devem pautar a forma como devemos aplicá-la.

Um exemplo sobre a importância dessas circunstâncias, o contexto externo, é a questão do consumo de ovos. Temos uma declaração de 1860, onde ela diz, “ovos não deveriam ser colocados em sua mesa. Eles são prejudiciais as suas crianças” (2T, 400). Parece claro. Entretanto, a mesma autora escreveu em 1901, “Consiga ovos de aves saudáveis. Use-os cozidos ou crus. Coloque-os cruz, no melhor vinho não-fermentado que você encontrar. Eles suprirão o que é necessário ao seu sistema. Nem por um momento ache que não é certo fazer isso… Eu digo que leite e ovos devem ser incluídos em sua dieta…” (CD 204).

A devida compreensão do contexto externo, das circunstâncias, levará à percepção de que situações diferentes exigem aplicações diferentes. No primeiro caso, ela está tratando de uma família cujos filhos estão tendo problemas com “excesso de sensualidade”. Já no segundo caso, um adulto com uma anemia perniciosa. Percebe? Diferentes contextos, diferentes aplicações.

Ellen White também escreveu, por exemplo, condenando a aquisição e o uso de bicicletas (ST 51, 52). Isso faz sentido para você, hoje? Mas na época fazia. O preço de uma bicicleta poderia se assemelhar a um carro hoje, além de muitas vezes ser utilizada somente para causar a identificação do usuário com classes sociais superiores. A questão aqui está na aplicação do princípio e não a regra, que nos leva ao 5º e último ponto:

  1. Ao dar um conselho, estamos fazendo uma de duas coisas: (1) declarando um princípio, (2) aplicando um princípio – o que chamaremos de diretriz. Nosso dever é tentar identificar se o conselho do profeta é a declaração de um princípio ou uma regra.

Primeiro é preciso entender a diferença:

Um princípio é uma regra de conduta imutável, aplicável a todos, em qualquer época , lugarou situação (a guarda do sábado, por exemplo).

A diretriz é a aplicação de um princípio a determinadas circunstâncias (a não aquisição de bicicletas, por exemplo).

Assim que você separou os dois, existe um trabalho extra:  se o conselho é uma diretriz, você precisa buscar identificar o princípio que está por trás de sua aplicação. O princípio identificado terá uma aplicação contemporânea, embora seja diferente do que aquilo que está declarado no conselho.

É mais ou menos assim que funciona:

Temos no livro educação a seguinte declaração, “Se as meninas aprendessem a selar e montar um cavalo,  usar a serra e o martelo, bem como a enxada e o rastelo, elas estariam mais aptas para se deparar com as emergências da vida” (ED 216, 217)

Esse conselho é uma diretriz, e não um princípio em si. Hoje, por exemplo, aqui em São Paulo, não faria diferença nenhuma se minha esposa aprendesse a montar um cavalo e a usar uma enxada (apesar de ela saber, já que é mineira da roça rs). Então, resumidamente,  a diretriz que temos é : ensinar as meninas montar cavalos e arar a terra. O princípio é: a educação das meninas também precisa ser prática, habilitando-a para os desafios da vida.

Em 1903, a maioria dos membros da igreja eram fazendeiros , que moravam longe das cidades . Eletrificação rural, e mesmo o serviços telefônico surgiriam somente nas décadas futuras.  Se o esposo e pai ficasse doente, atenção médica emergencial poderia ser necessária. A filha poderia ser a única pessoa disponível para buscar ajuda. Além do mais, esses conhecimentos poderiam torná-la útil para contribuir às operações da fazenda ou o negócio da família.

O trabalho que segue ao leitor moderno é: como aplicar o princípio desse conselho em seu contexto atual?

Esse é um exemplo simplista, mas ilustra bem essa questão.

Conclusão

Já passou da hora de nos preocuparmos com a compreensão e a aplicação daquilo que lemos e não mais uma simples leitura fria. Eu realmente espero que esses princípios façam diferença na forma como você lê os testemunhos e também a Bíblia. Tenho certeza de que, se unidos a um coração sincero que busca a verdade e uma postura de oração e humildade, eles lhes serão de grande valia!

 Leituras recomendadas:

“Mitos na Educação Adventista”, por George Knight – UNASPRESS.

“Ellen G White Encylopedia”, organizado por Denis Fortin e Jerry Moon (disponível em inglês na amazon e a ser publicadoem português em breve).

“Hermeneutics: Interpreting a 19th-Century prophet  in the space age”, por Roger W. Coon, disponível em  https://adventistbiblicalresearch.org/sites/default/files/pdf/Hermeneutics_Coon.pdf.

“How to read Ellen White”, por George Knight.

[1] Hermenêutica é a arte e a ciência de extrair significado. É uma das considerações essenciais de  qualquer estudo em teologia.


3 comentários sobre “O B-A-BÁ para ler Ellen White

    1. Hahhaa, “Alguem”? Eu sei que é você Gê. Pra mim a Ellen sempre vai ser mineira, foi lá que eu resgatei ela Hahhaa.
      Bem, eu explico o porquê do meu interesse no texto: simplesmente cansei das besteiras não -bíblicas que são defendidas se utilizando (muito mal) os testemunhos. As pessoas carecem de conhecimento a respeito dos básicos de interpretação… Isso tem levado muitas pessoas sinceras a se afastarem de Deus e esquecerem dos pontos centrais da fé cristã adventista. É isso. Simples assim.

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