Vegetarianismo na bíblia, mas não do jeito Taliban

Os apóstolos não comiam carne.

“O quê? Tá tirando? Como você sabe disso?”

A cultura de Jesus considerava carne como uma comida luxuosa, restrita a ocasiões especiais. A dieta normal de Jesus e seu grupo consistia de pães e peixes ( Marcos 6.38-44; 8:6-9, 14-21; Mateus 7:9,10; Lucas 24:41-43; João 21:9-13). Curiosamente, Jesus nasceu em “Beth-lehem”, “casa de pão”, e ministrou em “Beth-saida”, “casa de peixe”.

Eusebius em aproximadamente A.D 310, disse sobre a dieta dos apóstolos: “Considere o caráter dos discípulos de Jesus. … Eles abraçaram e perseveraram em uma ativa e laboriosa, com jejum e abstinência do vinho e da carne, e muitas outras restrições corporais além, com orações e intercessões a Deus, e, por último mas não inferior, pureza excessiva e devoção de corpo e alma” (Eusebius, Domonstratio Evangelica 3.5).

Um grande número de escritores cristãos antigos concordam com Eusebius quanto ao fato de que os apóstolos se abstinham de carne e vinho. Hegesippus diz que Tiago era “santo desde seu nascimento; não bebia vinho ou bebida intoxicante e não ingeria comida animal”. (Eusebius, The History of The Church, p.100). Mateus tinha uma dieta semelhante: “É muito melhor ser feliz do que ter seus corpos como cemitérios para animais. Em conformidade, o apóstolo Mateus participada de sementes, nozes, e vegetais, sem carne” (Clement, The Instructor 2.1).  Pedro também era vegetariano, de acordo com outras fontes (Clement, Clementine Homilies 12.6 e Recognitions 7.1). João batista não bebia vinho nem bebida forte (Lucas 1:15) e não comia carne (Marcos 1:6).

Essa constelação de testemunhas é fortemente sugestiva. Se o meio irmão de Jesus, Tiago, e seu primo, João, eram ambos vegetarianos e abstêmios [bebidas fermentadas], e se seus discípulos Pedro e Mateus também eram, então o que isso implica sobre sua dieta? Você acabou de descobrir algo novo sobre Jesus.

A história da abstinência  em Daniel 1:8-16 sem dúvidas teria influenciado Jesus.

OK, mas se o grupo de Jesus comia peixe e João, gafanhotos (que são puros, Levíticos 11:22), como poderíamos nós chamá-los de vegetarianos? A Mishnah declara: “Se um homem votou se abster de carne, ele pode comer a carne dos peixes e gafanhotos.” (Hullin 8:1). Essa evidência previamente passada por alto, parece pra mim um ponto para o Jesus pesco-vegetariano.

Evidentemente, Jesus não era dogmático sobre comer carne. E Ele tivesse proibido, não haveria discussão ou debate sobre isso. Os discípulos praticavam [pesco-]vegetarianismo porque a sociedade de seu tempo esperava que qualquer aprendiz, ou discípulo, seguisse o exemplo de seu mestre em tudo. Mas Lucas 10:7,8 nota que Jesus disse a seus discípulos que comessem o que fosse colocado perante eles, quando estivessem fora de casa, numa missão – isso sugere suspensão temporária dos escrúpulos vegetarianos [vale lembrar que os discípulos foram enviados a lares judeus,  o que explicita o fato de que o “tudo” englobava somente alimentos puros, ainda que cárneos]. Paulo se apegou a esse texto em I Coríntios 10.27 para justificar uma exceção à regra apostólica para não comer carne oferecida a ídolos (Atos 15:20,29).

O declínio do vegetarianismo no Cristianismo conforme o tempo passava provavelmente se deve à falta de entusiasmo de Paulo por ele. Entretanto, o vegetarianismo continuou popular na primeira igreja. Os pais da igreja que eram vegetarianos incluem Athanasius e seu oponente Arius, Clement de Alexandria, Origen, Tertullian, Arnobius, Heironymus, Boniface, Chrysostom, e Basil o grande, assim como certas ordem monásticas (Jo Ann Davidson, “World Religions and the Vegetarian Diet,” Perspective Digest 12, 2007: 25-39). No começo dos anos 400, Agostinho, que era contra o vegetarianismo, declara que aqueles cristãos que “se abstém da carne e do vinho”,são “inumeráveis” (Agostinho, “Ofthe Morals of the Catholic Church, cap. 33).

Eu suspeito que a prática Católica e Oriental Ortodoxa de se abster de carne, mas não peixe, toda sexta-feira, seja um vestígio memorial da dieta de Jesus.

Quando Jesus nasceu, judeus piedosos jejuavam duas vezes por semana (Lucas 18:12; veja também 2 Baruch 12:5,20:5-21:1, 43:3; 4 Ezra 5:13-20; 6:35). Jesus provavelmente fazia isso também, pelo menos como criança. Cristãos continuaram a prática, mas em algum ponto perto do fim do primeiro século, os dias de jejum foram mudados de segunda e quinta para quarta e sexta (Didache 8:1), tanto para distinguir os cristãos dos judeus quanto porque Jesus foi traído na quarta e crucificado na sexta.  Esse costume, jejunia quartae et sextae feriae, veio dos apóstolos e todo o mundo cristão o observava, de acordo com Epiphanius. Um líder cristão que rigorosamente observava os jejuns de quarta e sexta é São Nicolas (270-343) – Papai Noel pra você.

Esse jejum de duas vezes por semana é uma melhor explicação para Romanos 14:6: “Quem considera um dia como especial, faz para o Senhor. Quem come carne, come para o Senhor, pois dá graças a Deus; e quem se abstém, faz para o Senhor e dá graças a Deus”. Em outras palavras, Paulo diz que abstinência de carne em dias especiais de jejum  é opcional.

Ao longo dos séculos, a igreja eventualmente deixou o jejum de quarta, deixando-nos com um jejum de sexta, que os crentes celebravam restringindo sua dieta em imitação a Jesus, assim fazendo uma vez por semana o que Ele fazia o tempo todo.

Mas por que estamos citando todas essas fontes extra-canônicas? Bem, como não fazem parte da Bíblia, elas não tem autoridade doutrinária, mas são de interesse histórico. Em outras palavras, são uma testemunha das crenças e práticas antigas que derramam alguma luz sobre a vida de Jesus e seus seguidores.

Mas espere. Se Jesus era pesco-vegetariano, então o que dizer dos cordeiros de páscoa? Os judeus os consideravam um requisito essencial. Claro, também consideravam o casamento como essencial para qualquer homem judeu também, ainda assim Jesus praticou o celibato. […] Jesus nem sempre segue as normas religiosas.

Muitas peças de evidencia sugerem que não havia cordeiro na última ceia.

Primeiro, é difícil de imaginar como o elemento central da páscoa, o cordeiro pascoal, teria sido retirado da tradição cristã da eucaristia sem nenhum rastro a menos que não houvesse um cordeiro  na ceia original!

Segundo, por que Jesus teria escolhido símbolos vegetarianos para representar Seu corpo e sangue se carne de verdade estivesse presente?

Terceiro, sabe-se que outros grupos religiosos tinham refeições sagradas sem o cordeiro, como os misteriosos Therapeutae no Egito, que a cada sete semanas tinha uma refeição sagrada, de acordo com Philo: “E a mesa, também, não possui nada que tenha sangue, mas é colocado sobre ela pão para comida e sal para tempero, ao qual também o hissopo é às vezes adicionado como um molho extra” (Philo,  De Vita Contemplativa 9.73-74). O Therapeutae de Philo pode ter sido essênio, ou mesmo cristão, como diversos escritores cristãos antigos declaram, embora acadêmicos duvidem.

Os essênios provavelmente também eram vegetarianos. Josephus, em Antiquities 15.371, chama os essênios – a comunidade dos pergaminhos do Mar Morto – de “Pythagoreanos” , que é a primeira palavra para vegetariano até 1848, quando temos o primeiro uso documentado para o termo atual. Uma escavação arqueológica de o que teria sido um acampamento essênio não encontrou ossos animais, de acordo com um breve artigo publicado em maio/junho  de 1999 em uma edição da revista Archeology.  Então é provável, embora não certo, que os essênios fossem vegetarianos.

Além do mais, não temos registro de Jesus ou dos apóstolos sequer tomando parte nos sacrifícios do templo. Os profetas já haviam denegrido os sacrifícilos (1 Sam. 15:22; Prov. 21:3; Isa. 1:11; Oseias 6:6; Amos 5:21; Miqueias 6:6-8), e agora a situação era pior porque o sumo sacerdote era um político romano, em vez de um legítimo Zadoqueu. Também sabemos que os essênios boicotavam os sacrifícios do templo. A atitude de Jesus, e dos essênios, também, era “Desejo misericórdia, não sacrifícios” ( Mateus 9:13; 13:7).

Talvez uma das razões para Jesus ter evitado o sistema sacrificial era que ele não tinha consciência de nenhum pecado pessoal, então Ele não precisava sacrificar um cordeiro. De qualquer forma, o templo era o único lugar que o cordeiro pascoal poderia ser sacrificado, pelo menos em volta de Jerusalém. Então era provável que tanto Jesus quanto os essênios observavam uma páscoa vegetariana.

(Texto livremente traduzido do capítulo 5 do livro “The Undiscovered Jesus”, por Tim Crosby.)


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