Mulheres podem usar calça?

Dá canseira só de pensar nisso. Para mim, as discussões sobre isso em sua maioria esmagadora são só um sinal do quanto estamos mais ligados às regulamentações culturais do que aos princípios bíblicos como nossa regra de fé e prática – um sinal de como temos falhado em nossa educação cristã, ensinando as pessoas a seguir regras, sem ensiná-las a pensar de maneira bíblica, aprender e viver. Muita disciplina externa, pouca interna.

Depois de ter visto a represália sofrida pela Rafaela Pinho, ao postar o vídeo sobre o uso da calça, os comentários no post da Emanuelle Salles, e o artigo praticamente antibíblico (que iguala o uso da calça por mulheres à não guarda do sábado, por exemplo) no site mulheradventista.com.br (site, inclusive, com fortes tendências perfeccionistas), eu resolvi dar uma pesquisada sobre esse tema.

Surpreendentemente, achei um artigo do Robert W. Olson, no White Estate, publicado em Março de 1974. E eu pensando que essa discussão era recente! Inocente, sei de nada! Achei interessante porque ele aborda o princípio bíblico da distinção de sexos e “mata” o assunto da perspectiva de Ellen White ( que, sinceramente, é a maior fonte de confusão nesse assunto).

Resolvi traduzir o artigo, para proveito de todos. Acredito que muito pode ser acrescentado, traçando-se os princípios bíblicos do vestuário conforme delineados nas cartas de Pedro e Timóteo ( de forma que aprendamos a pensar sobre como nos vestir, e não meramente seguir regras que não são eficazes para mudar o coração [cf. Col. 2:20-23]), mas isso fica para outro post.

OBS:  eu traduzi livremente, sem aquele “rigor acadêmico”. O intuito é deixar a leitura mais leve, já que o artigo é antigo. Mas fique a vontade para ler o original, em inglês, clicando aqui. Por favor, informe-me caso eu tenha traduzido algo errado.

“Pode uma Mulher Cristã Usar Calças?

Quando o Senhor deu à Moisés uma lista de regras que deveriam governar as atividades dos filhos de Israel, Ele incluiu uma ordem muito importante relacionada ao vestuário. A restrição conforme registrada por Moisés diz, “A mulher não usará roupas de homem, e o homem não usará roupas de mulher, pois o Senhor, o seu Deus, tem aversão por todo aquele que assim procede.” Deuteronômio 22:5 (NVI).

A razão para essa proibição não é dada, mas sem dúvida W. L. Alexander corretamente avalia a situação quando declara, “O que quer que tenda a obliterar a distinção entre os sexos, tende a ser devassidão; e que um sexo assuma o vestuário do outro tem sido sempre considerado como antinatural e indecente.” Pulpit Commentary,  exposição de DT 22.5. A. W. Spaulding observa que “essa lei vai diretamente contra a prática do travestismo – a troca de vestuário entre sexos com o propósito de representação transexual, involvendo  o homossexualismo.” Captains of the Host, p. 344

O texto simplesmente adverte que homens e mulheres não devem se vestir igual. Não diz nada sobre calças e não tem como ser usado como uma ordem absoluta contra o uso de tais artigos de vestuário por nenhum dos sexos. Nos tempos bíblicos,  homens nem mulheres não usavam nada parecido com as nossas calças modernas. Aliás, eles se vestiam de forma bem parecida. De acordo com Genesis 37: 3 (NVI), Jacó fez para José uma “túnica longa”. Em 2 Samuel 13:18 (NVI), nós lemos que Tamar, a filha de Davi, uasva precisavamente a mesma veste — “uma túnica longa”. A palavra em hebraico que descreve os artigos de vestuário  (usado por José e Tamar) é idêntica em ambas passagens.

Uma foto de como as roupas israelitas se pareciam foi preservada por cerca de 2800 anos no Obelisco Negro de Shalmaneser III (veja a figura abaixo). Nesse famoso monumento, Jeú, rei de Israel, é retratado em sua longa túnica curvando-se perante o rei assírio. Cinco portadores de tributo israelitas estão vestidos igualmente. Shalmaneser e seus assistentes também estão usando túnicas longas. (Veja o Comentário Bíblico SDA, Vol VIII, p 516, 543)

A principal diferença no vesturário de homens e mulheres nos tempos bíblicos parece estar em vários artigos de joalheria e véus usados por mulheres mas não por homens (veja Isa. 3:16-23). Claramente, homens e mulheres nos tempos bíblicos se vestiam muito semelhantemente, mas não completamente. Era desígnio de Deus que diferenças suficientes fossem mantidas, de forma que homens não fossem confundidos com mulheres e vice-versa.

Um pouco mais de um século atrás a proibição Deuteronômica foi repetida em uma declaração feita por Ellen G. White quando ela registrou sua aversão ao “Traje Americano” (American Costume) ou “Traje da Reforma” (Reform Dress), que havia sido desenvolvido por vários médicos em Dansville, Nova Iorque. Em 1864 a sra. White escreveu, “Não devemos imitar a senhora doutora Austin ou o senhor doutor York. Eles se vestem muito semelhantemente a homens.” ( Citado por F. F. Nichol, Ellen G, White and Her Critics, p. 144). Um ano depois ela criticou certos “autoproclamados reformadores do vestuário” por “imitarem o sexo oposto, tanto quanto possível. Usarão chapéu, calças, colete, casaco, e botas, o último sendo a parte mais sensível do traje. Os que adotam e advogam esse estilo de vestuário, estão levando a reforma do vestuário a distâncias muito objecionáveis. Confusão será o resultado.” (Selected Messages, Book II, p. 477).

A. W. Spaulding declara que alguns dos trajes utilizados eram “praticamente indistinguíveis da roupa masculina.” (Captains of the Host, p. 347)

Na realidade, a sra. White deu diversas razões para os adventistas não adotarem o “Traje Americano”. Seguem:

1. Era muito parecido com a roupa masculina, “lembrando muito proximamente o traje usado pelo homem. Consiste de um colete, calças e um vestido que lembra o casaco e vai até o meio entre a coxa e o joelho” (1T 465). Depois de citar Dt 22:5, a irmã White declara, “Há uma tendência crescente de fazer com que a mulher em seu traje e aparência seja tão parecida com o outro sexo quanto possível […] mas Deus considera isso uma abominação” (1T 421).

Ao lado, dra Jane Austin em um “Traje Americano” de seu próprio desenho.

2. Era imodesto. “Deus não teria seu povo adotando a chamada reforma do vestuário. É imodesta, completamente inapropriada para os modestos, humildes seguidores de Cristo” (1T 421).

3. Levava as mulheres a serem menos “discretas” e mais “ousadas”.

“Um espírito de ousadia e leviandade acompanha a chamada reforma do vestuário […] Modéstia e discrição parece abandonar a muitos conforme adotam esse estilo de roupas” (1T 422).

4.Aqueles que usavam o “Traje Americano” perderiam sua influência com os não adventistas.

“[…] Deixem-nos usar essas roupas, e sua influência estará morta. As pessoas os colocariam no mesmo nível dos espiritualistas e rejeitariam ouví-los” (1T 421).”

“Alguns que acreditam na verdade podem pensar que seria mais saudável para nossas irmãs adotarem o traje americano, mas se esse modo de vertir-se paralisaria nossa influência entre os descrentes, […] nós não devemos de forma nenhum adotá-lo, embora nós soframos muito como consequencia” (1T 421).

“Deixe as irmãs adotarem o traje americano e elas destruiriam sua própria influência e a de seus maridos. Tornariam-se um escárnio” (1T 422).

5. Advogados do traje americano compartilhavam do espírto da política.

“Aqueles que se sentem chamados para se unir ao movimento em favor dos direitos das mulheres e a tão chamada reforma do vestuário podem também romper com a mensagem do terceiro anjo. O espírito que apoia um não pode estar em harmonia com o outro” (1T 421).

—————————————————————————

Devemos concluir por essas declarações que a sra. White era inalteravelmente contra o uso de calças por mulheres? Tal conclusão não pode ser garantida à luz de seus conselhos […]. Ela escreveu:

“Não há uma mulher em mil que veste seus membros como deveriam. Qualquer que seja o comprimento do vestido, seus membros deveriam ser vestidos tanto quanto os dos homens. Isso pode ser feito usando-se calças […]” (1T 461)

Não, Ellen White não objecionou o uso de calças longas por mulheres, mas ela era contra a quebra da distinção entre homens e mulheres ( 1T 460). “O desígnio de Deus é que exista uma distinção clara entre os trajes de homens e mulheres,” pois “o mesmo traje ser usado por ambos os sexos causaria confusão e grande aumento dos crimes” (1T 460).

À luz destes conselhos, que atitude as mulheres adventistas deveriam ter em relação ao uso das calças? Não parece justificável concluir que os escritos da sra. White se mantém em oposição ao uso de qualquer calças por mulheres.

Entretanto, se Ellen White estivesse viva hoje, ela sem dúvida teria algo para dizer sobre as vestes “coladas” [como aquelas calças embaladas a vácuo haha] de qualquer tipo, sejam calças, blusinhas ou saias. Ela também teria algo para dizer sobre saias curtas. Mas, na opinião de muitos, ela não protestaria contra o uso de calças modestas e decentes que mantém a distinção da aparência feminina. [sempre acho perigoso esse tipo de inferência, mas os comentários são bem válidos independemente de virem dela ou não]

[Concluindo] seguem algumas orientações sobre o vestuário apropriado, por Ellen White:

1. Suas roupas devem sempre ser arrumadas e atrativas. 

“As irmãs, quando fazendo seu trabalho, não devem colocar roupas que as façam parecer espantalhos a espantar corvos das plantações. […] Algumas esposas e mães parecem pensar que não importa como se vestem quando são vistas só por seus filhos e esposo, mas são bem cuidadosas para se vestirem aos olhos daqueles que não tem nenhuma ligação especial com elas. Não são o amor e a estima do marido e dos filhos mais importantes do que a de estranhos e amigos comuns? […]” (1T 465)

2. Ninguém deve servir de consciência para o outro. 

“Alguns que adotaram a reforma não ficaram contentes de mostrar pelo exemplo as vantagens do vestuário, dando, quando pedido, as razões para adotá-los e deixando a questão morrer ali. Eles buscam controlar a consciência dos outros pela sua própria. Se eles usam, outros têm que usar.[…] Não é meu dever forçar a questão sobre minhas irmãs. Depois de apresentar a elas como me foi mostrado, deixo que decidam com sua própria consciência” (4T 636).

3. Um estilo único de vestuário não é exigido de todos.

“Nenhum estilo preciso me foi dado como regra exata para guiar todos em seu vestuário” ( Evangelism, p. 273)

4.  As roupas devem ser modestas.

“O amor ao vestuário é um perigo para a moral e torna a mulher o oposto da moça cristã caracterizada pela sobriedade e modéstia. Roupas extravagantes muito frequentemente encorajam a luxúria no coração de quem as usa e desperta desejos maus no coração de quem a contempla” (4T 645).

5. Devemos estar dispostos a ser diferentes do mundo – caso seja necessário, mas não há virtude em ser diferente sem necessidade

“Cristãos não devem lutar pra ser um espetáculo, vestindo-se diferentes do mundo. Mas se, de acordo com a fé e o dever de se vestir modesta e saudavelmente, perceberem-se fora de moda, não devem mudar suas roupas para serem como o mundo” (SM II 476)

“A moda está deteriorando o intelecto e carcomendo a espiritualidade de nosso povo. Obediência à moda está invadindo nossas igrejas e está fazendo mais do que qualquer outro poder para separar as pessoas de Deus” (4T 647)

“Se o mundo lançar uma moda modesta, apropriada e saudável, que esteja de acordo com a Bíblia, nossa relação para com Deus ou com o mundo não será mudada caso adotemos tais roupas” (1T 458, 459).

6. Vestuário não é a questão mais importante do mundo 

“Ninguém, precisa ter medo, achando que farei da reforma do vestuário um de meus temas principais conforme viajamos de lugar a lugar” (1T 523).

“A reforma do vestuário estava entre as coisas menores que deveriam constituir a grande reforma da saúde, e nunca deveria ser exigida como uma verdade-teste necessária para a salvação” (RH, Oct. 8, 1867)

7. É melhor usar roupas não tão saudáveis do que criar dissensão em casa

“Irmãs que possuem esposos contrários pediram meu conselho sobre adotar o vestido curto [quem lê, entenda] contra os desejos de seus maridos. Eu digo que esperem. Não considere a questão do vestuário com uma importância tão vital quanto o sábado. A respeito do último, não deve haver hesitação. Mas a oposição que muitos recebem quanto à adoção das roupas da reforma traria mais danos à saúde do que as novas roupas trariam benefícios” (1T 522)

8. Devemos evitar extremos

Os cristãos devem seguir a Cristo e conformar seus estilos de roupas à palavra de Deus. Eles devem evitar extremos.” (SM II 476-477)

“Há uma posição equilibrada nessas coisas. Ah, que nós consigamos sabiamente encontrar essa posição e mantê-la! Nesse tempo solene que todos nós cavemos em nossos corações e nos arrependamos de nossos pecados, em humildade perante Deus. O trabalho é entre Deus e nossas próprias almas. É uma obra individual, e todas terão o suficiente para fazer sem criticar as roupas, ações e motivos de seus irmaõs e irmãs” (1T 425-426)

Robert W. Olson

Pacific Union College

6 de Março, 1974

NOTA: Seus conselhos ainda nos são tão relevantes como foram no passado. Mas o que mais acho impressionante é como Ellen White frequentemente aponta para a Bíblia como nossa regra de fé e prática, embora nós prefiramos terceirizar nossa relação com Deus, buscando diretrizes que sejam aplicadas no nosso dia a dia, muitas vezes, somente em seus escritos . Hoje em dia faz muito sentido pensar nas próprias palavras dela, quando diz que os testemunhos foram dados porque não conhecemos as escrituras como deveríamos. Que cada um volte para sua Bíblia e aprenda a pensar como um cristão, aprenda a decidir com base naquilo que Deus revelou através da Sua Palavra e a estudar os testemunhos da maneira correta ( veja aqui ).

Pra fechar:

Screenshot_2015-05-03-11-18-38~2


O que você pensa sobre isso? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s