Desconstruindo a tradição: você está fazendo isso errado

Uma das questões importantes da filosofia é se a herança do passado (tradição) é uma prisão ou um farol. De forma simplificada, as duas alternativas mais comuns na filosofia da história são o conservadorismo ou o progressivismo: focar primariamente a atenção em aprender do passado ou planejar-se para o futuro.

Essa pergunta se torna especialmente importante quando trazida para o âmbito teológico, para a vida religiosa. Negar a tradição ou seguir a tradição, eis a questão.

Como adventistas, uma das nossas marcas sempre [sic] foi a desconstrução da tradição. Desconstrução não como negação absoluta, mas como distinção entre tradição e ideias bíblicas. Questionar por que fazemos e cremos no que fazemos e cremos é um passo negativo extremamente necessário para termos acesso ao “chão firme” da teologia bíblica. E embora esse tenha sido um dos pilares metodológicos do desenvolvimento de nossa teologia, ele não parece mais estar de pé. Foi derrubado em meio a guerra de gigantes que perderam a preocupação com o que ainda ousam chamar de “Palavra de Deus”.

De um lado, os tradicionalistas tolos, que olham para a herança do passado de forma quase totalmente acrítica, acreditando piamente que a democracia dos mortos é o caminho para o céu; que tudo que é antigo é melhor em qualidade moral.

De outro lado, progressivistas arrogantes, que olham para a sabedoria do passado com desdém, como se ela houvesse se dissipado.  Negam a tradição herdada, buscando criar a sua própria, em um ato de rebeldia adolescente.

É provável que você reconheça esse campo de batalha aí na sua realidade. É provável que você se identifique como também pendendo para um dos dois lados.

Mas quem está certo?

Você está errado.

Eles estão errados.

Eu não vejo diferença entre esses grupos. Cada qual luta pela sua própria vontade, travestida de bandeiras coloridas, com as inscrições “restaurando os marcos antigos”, “reavivamento e reforma”, “modernizando o evangelho”, “tornando a palavra de Deus atual”.

Pura besteira.

Tanto um quanto outro estão infectados de arrogância cronológica e epistêmica. Aceitam acriticamente o clima intelectual de uma ou outra época com o pressuposto básico de que tudo que não “está na moda” (progressivismo) ou tudo que é moderno (conservadorismo) se torna desacreditado. O problema de ambos os lados é o auto-viés que deixa de lado questões importantes que talvez causem algum “incômodo”.

Por isso pleiteam pelo que estimam, para manter a hegemonia da sua zona de conforto. Desejos da carne sutilmente acariciados por mentes preguiçosas.

Mas já passou da hora de entendermos que:

  1. Ter sido aceita por muito tempo não é um argumento pela verdade ou falsidade de uma ideia;
  2. Ter sido aceita por pessoas importantes não é um argumento pela verdade ou falsidade de uma ideia;
  3. Ter “saído de moda” não é um argumento pela verdade ou falsidadade de uma ideia;
  4. Estar contextualizada em nossa cultura e momento histórico atual não é um argumento pela verdade ou falsidade de uma ideia.

Um cristianismo autêntico se engaja criticamente tanto com as tradições herdadas quanto com as tradições emergentes E também as tradições deixadas.

Ou, nas palavras de John Stott, em uma entrevista com Roy McCloughry (Third Way in 1995, vol 18.8):

A marca de um evangélico autêntico não é a repetição acrítica de antigas tradições mas a vontade de sujeitar cada tradição, embora antiga, ao fresco escrutínio bíblico e, se necessário, reformá-la.

É natural que sejamos mais críticos com as coisas que nos causam desconforto – só não podemos permitir que nossas inclinações pessoais moldem o que definimos como verdade. Não temos esse direito.

Mas se temos que fazer isso, então que façamos do jeito certo, como Jesus – que utilizava a Palavra de Deus para questionar tanto a tradição farisaica quanto o progresso zelote. Nosso engajamento crítico precisa estar acoplado a uma bússola que nos leve de volta para a Bíblia.

(Mas isso fica bem difícil para uma geração que chama Noé de filme bíblico, acha que culto é show musical e torce o nariz para a teologia séria.)

Futuro e passado não disputam importância entre si – eles são parte de uma estória [sic], que é precisamente o tipo de coisa que não pode ser entendida até que você tenha ouvido-a inteira. E só há um lugar onde podemos conhecê-la assim, por completo.  E é por isso que a consideração pelo passado e a responsabilidade com o futuro são faces de uma mesma moeda.

Portanto, abandone essa luta inútil, faça isso do jeito certo: desconstrua a tradição, descontrua o progresso, fundamente-se na Bíblia.


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