O que penso da decisão tomada pela IASD a respeito da ordenação de mulheres

(O texto abaixo, originalmente publicado pelo Matheus Cardoso, representa minha opinião sobre esse tema).

Em 8 de julho, a assembleia mundial da IASD, reunida em San Antonio, Texas (EUA), tomou um voto sobre esta questão: “É aceitável que a comissão executiva de cada divisão, caso considere apropriado em seu território, implemente os dispositivos necessários para a ordenação das mulheres ao ministério? Sim ou não?”. Dos 2.363 delegados presentes, 977 (41,3%) votaram “sim” e 1.381 (58,4%) votaram “não”, além de cinco abstenções.

Dentre as reações e análises que encontrei a respeito desse fato, um dos melhores textos, em minha opinião, foi escrito por Ranko Stefanovic, professor de Novo Testamento na Universidade Andrews (EUA).

Ele é um dos mais respeitados teólogos adventistas e autor do primeiro (e único) comentário exegético do Apocalipse já escrito por um autor adventista. Para compreender melhor as observações de Stefanovic, é interessante notar que a maioria dos teólogos adventistas são favoráveis à ordenação de mulheres ao ministério pastoral, incluindo cinco dos sete membros do Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral, 52 dos 54 professores de Teologia da Universidade Andrews e dois terços dos membros da Comissão de Estudo sobre a Teologia da Ordenação (formada por teólogos, pastores e líderes leigos). Estas são as reflexões do Dr. Stefanovic:

É evidente que há duas posições sobre o voto tomado pelos delegados na assembleia da Associação Geral. Uma é que o voto dos delegados foi a decisão do Espírito Santo. Para outros, o voto foi meramente uma decisão feita por pessoas, com base em inúmeras razões. Mas, se o voto e a decisão foram exclusivamente obra do Espírito Santo, por que, antes disso, foram estabelecidas comissões nas quais pessoas, durante alguns anos, discutiram, estudaram, debateram e trocaram opiniões? Depois, finalmente, os delegados votaram com base em suas convicções pessoais. Por que eles simplesmente não foram à assembleia da Associação Geral, oraram e permitiram que o Espírito Santo os usasse para que fizessem o que Ele desejava?

Atos 15 nos oferece uma resposta. Quando o Concílio de Jerusalém tomou uma decisão sobre as condições para a aceitação dos gentios na igreja, a declaração oficial do Concílio foi expressa nestas palavras: “Pareceu bem ao ESPÍRITO SANTO e a NÓS […]” (At 15:28). O verso também pode ser traduzido como: “O ESPÍRITO SANTO e NÓS decidimos […]”. Encontramos aqui uma combinação entre a vontade divina e a humana. Quando lemos Atos 15, vemos quanto diálogo e debate havia ocorrido entre os que tomaram a decisão. Uma vez que a decisão estava feita, o Espírito Santo trabalhou levando os delegados à unidade.Uma das decisões do Concílio de Jerusalém foi que os gentios não deveriam comer alimentos sacrificados a ídolos. No entanto, quando lemos 1 Coríntios 8, vemos que, aproximadamente seis anos depois, o apóstolo Paulo (que havia votado no Concílio de Jerusalém) tinha uma abordagem completamente diferente sobre o assunto: cada pessoa deveria seguir sua própria consciência quanto a comer ou não alimentos sacrificados a ídolos. E o que Paulo escreveu foi inspirado pelo Espírito Santo, e agora é parte da Bíblia, que é a inspirada Palavra de Deus.

Tudo o que posso dizer sobre o voto tomado pelos delegados na assembleia da Associação Geral é que o Espírito Santo e a maioria (mas não a maioria absoluta) dos delegados achou que, neste momento, as divisões não devem ser autorizadas a tomar suas próprias decisões sobre a ordenação de mulheres ao ministério pastoral. A verdade é que muitos delegados, tanto os que disseram “sim” quanto os que disseram “não”, votaram com base em sua compreensão da Bíblia e em seus pontos de vista culturais, e muitos com base no que ouviram de pessoas que os influenciaram. Isso nos mostra que a IASD mundial ainda não está pronta para uma mudança. A decisão foi tomada por pessoas, e creio que o Espírito Santo estava presente, quer gostemos ou não dessa decisão. Quando a igreja estiver pronta para uma mudança, ela virá.

É importante que aceitemos essa decisão com atitude cristã, ainda que muitos de nós não concordemos com o resultado da votação. Creio que Deus está nos guiando, porque esta é a Sua igreja. Quando eu deixar de crer nisso, irei em busca de outra igreja. É por isso que fico preocupado quando vejo a maneira como algumas pessoas têm discutido sobre o assunto e o vocabulário que usam. Por esse motivo, decidi me distanciar de todas essas discussões. Tal linguagem não tem nada a ver com cristianismo, mas expressa elementos não santificados de caráter. Independentemente de sermos a favor ou contra a decisão, se somos cristãos, devemos demonstrar isso por meio de palavras e da forma como tratamos uns aos outros.

Concluo com esta declaração de Ellen White: “O fato de não haver controvérsias ou agitações entre o povo de Deus não deveria ser olhado como prova conclusiva de que ele está mantendo com firmeza a sã doutrina. Há razão para temer que não esteja discernindo claramente entre a verdade e o erro. Quando não surgem novas questões em resultado de investigação das Escrituras, quando não aparecem divergências de opinião que instiguem as pessoas a examinarem a Bíblia por si mesmas, para se certificarem de que possuem a verdade, haverá muitos agora, como antigamente, que se apegarão às tradições, cultuando nem sabem o quê” (O Outro Poder: Conselhos aos escritores e editores, p. 39).

(Fonte:https://www.facebook.com/ranko.stefanovic.3/posts/1656059861296736)

“A Associação Geral, a Autoridade Suprema

“Na Igreja de hoje, a Assembleia da Associação Geral, bem como sua Comissão Diretiva no intervalo entre as assembleias, é a mais elevada autoridade eclesiástica na administração da Igreja. A Comissão Diretiva da Associação Geral está autorizada por seus estatutos a criar organizações subordinadas com autoridade para desempenhar suas funções. Assim sendo, todas as organizações e instituições subordinadas reconhecerão a Assembleia da Associação Geral, e sua Comissão Diretiva entre as sessões, como a mais elevada autoridade eclesiástica, abaixo de Deus, entre os adventistas do sétimo dia. […]

“[Ellen G. White declara:] ‘Fui muitas vezes instruída pelo Senhor de que o juízo de homem algum deve estar sujeito ao juízo de outra pessoa. Nunca deve a mente de um homem ou de uns poucos homens ser considerada suficiente em sabedoria e autoridade para controlar a obra, e dizer quais os planos que devem ser seguidos. Mas quando, numa assembleia geral, é exercido o juízo dos irmãos reunidos de todas as partes do campo, independência e juízo particulares não devem obstinadamente ser mantidos, mas renunciados. Nunca deve um obreiro considerar virtude a persistente conservação de sua atitude de independência, contrariamente à decisão do corpo geral’ (Testemunhos Para a Igreja, v. 9, p. 260)” (Manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia, edição revisada na assembleia da Associação Geral de 2010 [Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011], p. 31-32).

Para compreender melhor o significado e as implicações desse voto, leiahttp://goo.gl/ToJRwo e http://goo.gl/xNkQId


Um comentário sobre “O que penso da decisão tomada pela IASD a respeito da ordenação de mulheres

  1. acho interessante, mas manter uma atitude passiva não me parece correto. Há discriminação, e não concordo que o resultado foi tomado pelo Espirito de Deus. Deus não se contradiz , em minha própria experiencia pude notar que não foi bem assim que se deu em San Antonio. E os resultados estão se mostrando vários pastores e uniões estão tomando suas próprias iniciativas, porque não podem ficar inertes. No momento oportuno isto vai mudar mas não chame as condições atuais de ”vontade de Deus” pois as evidencias não demonstram isso.

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