Obrigado por levar adiante meu legado

Eu preciso te agradecer. De todos no mundo, eu nunca achei que teria discípulos como você! Preciso dizer, com sinceridade, que vê-lo levando meu legado avante me traz tamanho deleite que mal posso contê-lo, malgrado o calor infernal, insuportável que sinto por aqui.

Eu posso lhe parecer um estranho, mas saiba que você não é nada desconhecido para mim. Mas antes da preleção sobre o motivo de meu contato, apresentar-me-ei, a fim de deixá-lo mais a vontade com minha simbólica presença.

Você pode me chamar de Donatien. Sofri muitas injustiças quando andava pelas ruas de minha terra, na luminosa Paris. Fui injustiçado, perseguido e odiado, a ponto de ser levado à Bastille pelo desprezível Bonaparte. E tudo isso porque desafiei a concepção de mundo dos racionalistas e dos religiosos, no esforço de oferecer um sistema de pensamento que por fim desnudasse a nossa realidade como os animais que somos. E isso era considerado como apologia ao crime, pois, na frança do século XVIII, enfrentar a religião era um crime (e isso parece não ter mudado em muitos lugares).

Mas os tempos passaram! A mente humana se elevou e deixou para trás muitos de seus rudimentos. Ah, como eu ansiei pelo advento desses belos tempos!  Antes considerado como um mero pervertido sem escrúpulos, autor pornográfico, escritor do grotesco, vejo agora meu nome festejado entre os grande filósofos, tendo não só os autores de protesto e revolta voltando-se a mim, mas também essa classe espúria da qual você faz parte – os cristãos.

Acredito ter-lhe causado certa consternação, e por isso não lamento; tal assombro deverá passar assim que você perceber que transcrevo a realidade.

Você e muitos de seus “irmãos”, são, da forma mais completa, verdadeiros sadistas.

Mas aguarde um instante para refletir nisso, peço-lhe por obséquio. Deixe-me explicar esse termo, que foi cunhado de forma absolutamente reducionista. Essa palavra foi inventada após um acontecimento que me levou à prisão: fui pego abusando de uma prostituta para meu próprio prazer. Teve-se então que sadismo seria definido por se ter prazer na dor física ou moral do próximo. Mas tal simplismo é absurdamente desprezível! A essência de minha filosofia não repousa no prazer que senti naquele abuso, mas sim na forma como o julgava: de natureza reta e apropriada.

Por muito tempo tivemos nossa liberdade restrita pelos princípios judaico-cristãos que aprisionaram nossa sociedade ocidental. Mas já é hora de o mundo saber que não há Deus, nem moral, nem um imperativo social comum. Somos como bestas e vivemos para ter prazer na realização de nossos instintos mais básicos. Crick e Freud, em suas teses, só repetiram o que eu já havia dito.

Perceba, de uma vez por todas, que ser um sadista, seguir meus passos, não envolve o simples prazer de torturar alguém (embora isso às vezes seja realmente deleitante), mas a certeza de que “o que é, é”, ou seja, aquilo que a natureza decreta em plena força é totalmente próprio e justo – esse é o conceito absoluto do que é correto.

Feliz é o ditador que não restringe nenhum de seus desejos, porque dele é o reino do céus.

O mal-estar deve ter se agravado, não é? É necessário. Faz parte do processo de trazer ao seu consciente tudo que você tem vivido de forma automática, como parte da máquina.

Veja, embora você pregue o sacrifício e o amor, sua realidade derradeira é seu próprio anseio.

Você é arrogante e egoísta, mas sempre acha algum tipo de “justificativa bíblica” para seu comportamento (você até fala da “vontade de deus” , mas sejamos realistas, isso não passa de um misticismo: você nunca encarou o mínimo desconforto em nome desse seu deus, cujo principal propósito na existência parece ser realizar seus desejos de opulência e volúpia).

Você trata as pessoas de acordo com o que sente, vira seu rosto para não ver o sofrimento dos outros, come o que quer, veste o que quer, compra o que deseja. Sua vida inteira gira em torno de suas vontades somente e, embora você gaste algum tempo pagando penitências em seu dia de culto, quando ele acaba você volta para seu mundinho animal como se “deus” fosse só uma forma de aliviar sua consciência. Até mesmo lá, na sua igrejinha, você está mais preocupado com a forma como acha que as coisas devem acontecer, do que com a impraticável “união entre os irmãos”.

Mas tudo bem, logo você perceberá que não precisa de nada disso.

E isso tudo acontece porque, não obstante você esteja com essa bíblia na mão, é em mim que reside todo seu embasamento filosófico. E assim, embora professe crer no infinito, você mal reconhece sua falta de esperança. E por isso se volta para arte para prover esse salto. No fundo, no fundo você sabe estar em situação de perdição, o que te motiva a buscar tão intenso entretenimento, constantemente, como forma de encontrar uma esperança que, por força da razão, não existe. E é isso seu tudo; esse é você: um mero zumbi correndo atrás de cadáveres que saciem seus desejos mais primitivos: o prazer no teatro da crueldade, na violência das ruas, na morte do homem na arte e na vida. Você proclama o céu, mas se deleita no inferno. 

Da forma como você anda, logo terá prazer em ler livros meus, tais quais “A fliosofia na Alcova”. Ou mais do que isso, talvez chegue até mesmo a escrever uma obra como “120 dias de Sodoma” – o que para mim não seria uma grande surpresa, já que sua vida é a antítese perfeita de seu mestre imaginário. Nas palavras de seu livro sagrado pueril, você é só mais um “inimigo da cruz”, cujo deus é o próprio ventre.

Estou certo agora de que se tivesse a oportunidade, você me relegaria ao cárcere, como meus perseguidores do passado. Mas não importa, pois sei que logo você perceberá a realidade que lhe expus como verdadeira.

E por isso preciso lhe apelar à alma (não que eu realmente acredite que você tenha uma): porque “não sair do armário”, como dizem os homens de seu tempo, e se juntar a mim? Você já anda em meus passos.

Continue assim e logo ter-te-ei por companheiro. E acredite, terei muito prazer vê-lo queimando, até que nada mais exista.

Assinado,

Donatien Alphonse François de Sade

Referência: texto escrito após uma reflexão sobre pedaçoes do livro “A Morte da Razão”, de Francis Schaeffer.


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