Você Entende Colossensses 2? Panorama Cultural e Introdução

Panorama cultural

De acordo com Heródoto, Colosso era uma grande cidade da Frígia[1], próxima de Hierapolis e Laodiceia. Seu leque religioso incluía tanto tradições pagãs quanto judaicas. Filo diz que havia judeus em todas as províncias da Ásia[2], e  de acordo com Josefo, Antíoco, o Grande (223-187 BC), estabeleceu duas mil famílias de judeus na Lídia e na Frígia[3]. Em 62 BC é calculado que havia cerca de onze mil judeus livres nos arredores de Laodiceia.[4] Por outro lado, o centro de adoração à deusa mãe, Cibele, também se situava na região. Em Hierapolis (cidade próxima) o culto aos deuses Demétrio e Cibele era ativo[5].

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Os judeus que residiam em Colosso provavelmente eram pouco ortodoxos, pois receberam o seguinte comentário no Talmude: “O vinho e os banhos da Frígia separaram as dez tribos dos seus irmãos”[6]. A acomodação às praticas gentias deixou sua marca nos judeus que abraçaram o cristianismo. De um lado os cristãos eram puxados pela influência das filosofias gregas e do outro as influências dos judaizantes. Esse era o cenário de Colosso. Assim como em Éfeso, o perigo dessa igreja jazia no sincretismo[i] judaico-helenístico.

Entre as filosofias heréticas que pressionaram suas influências sobre o cristianismo dos primeiro século está o gnosticismo. Embora essa atitude religioso-filosófica, que se adaptava a qualquer grupo religioso, não possa ter um grupo de crenças estruturado, existem semelhanças suficientes entre as diferentes escolas para que haja uma caracterização geral: dualismo[ii], visão do conhecimento esotérico como único meio de salvação (para o gnóstico a real redenção é da ignorância e não do pecado), interpretação alegórica das escrituras, dentro outras[7].

Como exemplo desse sincretismo, temos Cerinto (100 d.C), que como fundador de uma escola com elementos gnósticos, mostrava Cristo como um espírito celeste separado do homem e citou Demiurgo[iii] como criador do mundo material. Mas também ensinava os cristãos a observar a lei judaica e a acreditarem na segunda vinda de Cristo.[8] Embora seja posterior a Paulo, ele exemplifica interessantemente o tipo de mistura que esse sincretismo pode gerar.

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Mas a diversidade impressiona. A escola gnóstica persa, o maniqueísmo, por exemplo, ensinava que “O Deus verdadeiro não tem nada a ver com o mundo material e o cosmos”, e “É o Príncipe das Trevas que falou com Moisés, os judeus e seus sacerdotes. Portanto, cristãos, os judeus e os pagãos estão envolvidos no mesmo erro quando adora este Deus”.[9]

Ter em mente a heresia do gnosticismo nos ajuda a entender o motivo de Paulo falar tantas vezes sobre a importância do conhecimento da vontade de Deus (1:10) ou sobre como todos os tesouros do conhecimento estão escondidos nEle (2:2-3). Ele não enfatiza nenhum intelectualismo abstrato nem uma experiência oculta dos “poderes esotéricos”, como os advogados gnósticos da época, mas sim um conhecimento completo (epignosis) da vontade de Deus de acordo com a sabedoria (sofia, conf. I Co 1:24-30). Paulo pode ter sido influenciado pelo vocabulário dos seus oponentes, mas usa as palavras voltando seus significados contra os falsos mestres.

Não podemos ler as cartas de Paulo sem levar em conta as influências desse sincretismo.

Grande tema: salvação

Paulo, como de costume, inicia sua carta com sua saudação seguida de palavras de gratidão, reconhecendo os colossensses pela sua fé e amor. Ele intercede por eles, rogando que cresçam no conhecimento de Deus com o propósito de andar de forma digna do nome do Senhor (1:3-21).

Toda a carta de Colossensses gira em torno do plano da redenção. É preciso também ter em mente esse eixo temático para entender como os argumentos da carta se desenrolam. Ele apresenta a eficácia do sangue de Cristo com vigor e poder, para que a fé deles se apropriasse de Seus méritos.

Temos o período pré-criação (1:15); Cristo como agente da criação de todas as coisas (1:16); a divindade completa habitando corporalmente em Cristo (1:19; 2:9); Deus derrotando os poderes rebeldes através da cruz (2:15) e os sujeitando a Cristo (2:10b). Deus então utiliza a cruz de Cristo para reconciliar todas as coisas (1:20). Os Colossenses mortos com Ele, também são levantados com Ele (2:11-12) e suas vidas agora estão escondidas com Cristo em Deus (3:3). No fim da história Cristã, quando Cristo se manifestar, seus seguidores também serão manifestos em glória (3:4). Os que o rejeitaram, entretanto, encontrarão a ira de Deus (3:6).

Entendendo Colossensses 2

Tudo que se seguiu até aqui, nessa carta, parece servir de base para o que virá agora: argumentos contra a heresia colossense (2.6-23) e algumas instruções para aqueles que foram ressuscitados em Cristo (3:1-4:6). Nós nos ateremos à primeira parte.

Na primeira parte da carta, que consideramos como o “fundamento” para o restante, Paulo evoca a lembrança de um hino de adoração da igreja a fim de deixar claro o papel de Cristo no universo e sua autoridade. Aqui, na seção que compreende os versos 1:24 a 2:1-5, ele atesta sua autoridade. Em um mundo de filosofias conflitantes e numerosas distrações, era assumido na cultura mediterrânea que as pessoas que desejavam viver uma vida de virtude precisavam de um professor que pudesse apontar a verdade, rejeitar o erro e prover suporte para o desenvolvimento delas (e.g., Seneca, Ep. 94.52-59). Em Colossensses, Paulo é esse professor, com a intenção de fortalecer-lhes o conhecimento de Cristo e evitar que fossem enganados com palavras persuasivas.[10]

Por exemplo, em 1:25, Paulo diz que foi designado e ensinado por Deus. Declarações como essas podem também ser encontradas em outros “professores” do mundo mediterrâneo.[v] Ele também diz que está cumprindo sua missão ao custo do sofrimento pessoal (1:24). Essa afirmação, com certeza, também é uma nota soada por filósofos morais.[vi] Além disso, ele também se regozija em seus sofrimentos (1:24, 29; 2:1), que é para o benefício de seus ouvintes. Novamente, os filósofos na cultura mediterrânea compartilhavam desse sentimento Paulino; como Cícero coloca, “Quanto maior a dificuldade, maior a glória”[11] – consequentemente, alguém deve se alegrar nas aflições. Essas são suas credencias como o professor que se propõe a ser.

Feita essa introdução, ele segue no capítulo 2 com três advertências e uma pergunta retórica, relacionadas às filosofias que têm o potencial de destruir a igreja, que precisam ser ouvidas a fim de que nós vivamos nEle, firmemente enraizados e estabelecidos na fé.

Picture4Para Paulo, o comportamento continua sendo importante depois da conversão, receber e andar são a justificação e santificação (2.6-7), e tudo que se segue servirão a esse propósito: firmá-los e fortalecê-los em Jesus. É interessante chamar a atenção para o pedido que Paulo faz no verso 6: “assim como recebestes a Cristo […] andai nEle” (gr. en autō). O que eles haviam recebido era nada menos do que o Rei ideal, o Messias, Jesus. Como na crença antiga mediterrânea, as pessoas aprendiam melhor como viver observando a vida de seus governantes, que idealmente constituíam uma “lei viva”.[12] e [13] Na razão ética de Paulo, a representação da pessoa de Jesus se torna a norma para o comportamento cristão (e.g., Rom 15:8–9; 2 Cor 8:9; Phil 2:5–11; presumivelmente Col 1:15–20 desempenharia a mesma função).[14]

Embora não consigamos traçar com certeza o perfil dos oponentes da igreja de Colosso[vii], podemos dizer com alguma confiança que o problema se relacionava ao sincretismo apresentado no panorama cultural, acima: a mistura de crenças judaicas e pagãs. Nessa mistura estariam elementos como: adoração de anjos (própria do gnosticismo, cf 2:18), ascetismo (2:23), envolvimento cúltico com a religião de mistérios (possivelmente relacionada à stoicheia, palavra que discutiremos abaixo, cf 2:8,18) e submissão aos rituais judaicos, como a circuncisão e os sacrifícios (2:20).[15] Todas as advertências que se seguem estão focadas na necessidade de depender de Cristo e não dos enganos vazios, relacionados à essa confusão de filosofias.

Referências:

[1] Hist. 7.30.1

[2] Leg. 245

[3] Ant. 12.147–153

[4]O’Brien, p. xxvii

[5] KREITZER, L. ‘Crude Language’ and ‘Shameful Things Done in Secret’ (Ephesians 5:4, 12): Allusions to the Cult of Demeter/Cybele in Hierapolis.” Journal for the Study of the New Testament 71: 51–77.[5]

[6] Shabbath 147b

[7] Ver http://www.theologywebsite.com/history/gnosischarac.shtml para mais informações.

[8]  González, Justo L. A History of Christian Thought (em inglês). [S.l.]: Abingdon, 1970. 132-3 p. vol. I.

[9]  Classical Texts: Acta Archelai (em inglês) 76 pp. Harvard.edu. Visitado em 27/08/2010 e Alan G. Hefner. Dualism (em inglês) TheMystica.org. Visitado em 27/08/2010. ” O Maniqueísmo, sendo uma seita gnóstica, ensinava uma doutrina similar de colocar Deus contra a matéria. Este ensinamento dualístico incorporava um mito cosmológico bastante elaborado, que incluía a derrota do homem primal pelos poderes das trevas que devoraram e aprisionaram as fagulhas de luz. Portanto, para Mani, o deus maligno que criou o mundo era o Jehovah judaico”

[10] Talbert, C. H. (2007). Ephesians and Colossians (p. 198). Grand Rapids, MI: Baker Academic.

[11]Off. 1.18.64

[12] Goodenough, E. R. 1928. “The Political Philosophy of Hellenistic Kingship.” Yale Classical Studies 1: 55–102.

[13] Chesnut, Glenn F. 1978. “The Ruler and the Logos in Neopythagorean, Middle Platonic, and Late Stoic Political Philosophy.” Aufstieg und Niedergang der Römischen Welt 16.2:1310–32. Part 2, Principat, 16.2. Edited by H. Temporini and W. Haase. New York: W. de Gruyter.

[14] Talbert, C. H. (2007). Ephesians and Colossians (p. 210). Grand Rapids, MI: Baker Academic.

[15] Idem (pp. 208–209).

[i]  Sistema filosófico ou religioso que combina princípios de diversas doutrinas.

[ii] Doutrina que admite a coexistência de dois princípios necessários, mas opostos. Existem diferentes tipo de dualistmo, como o dualismo ético (bem e mal), o dualismo escatológico (essa era e a era vindoura) e dualismo psicológico (corpo e alma do platonismo). O Gnosticismo é uma amálgama  de todos, em alguma escala. Correspondentes a essa visão é a distinção do Deus escondido e do Deus criador, ou então a perspectiva a respeito do mal, que simplesmente o “chutava para fora”, alocando-o como um problema  no divino em vez de humano, associado com a própria existência da matéria. Isso justificaria a frouxidão moral que originou comentários no Talmud (Shabbath 147b) sobre os cristãos da Frígia.

[iii] No gnosticismo, o Demiurgo não é Deus, mas o chefe da ordem dos espíritos inferiores, responsável pela criação da terra. De acordo com os gnósticos, o Demiurgo era capaz de dotar o homem apenas com psiquê (alma sensível) – o pneuma (alma racional) seria adicionada por Deus. Os gnósticos identificaram o Demiurgo com Jeová dos hebreus.

 [v] Por exemplo, vemos afirmações semelhantes em Epictetus (Diatr. 1.9.16–17; 3.22.69), Seneca (Ep. 41.4), pseudo-Socrates (Ep. 1), e Dio Chrysostom (Or. 32.12).

[vi] Dio Chrysostom, por exemplo, diz que o verdadeiro filósofo é aquele que está disposto a entrar na competição da vida, falar com firmeza necessária para beneficiar sua audiência, e suportar o abuso que sua livre expressão de ideias e sentimentos pode causar  (Or. 32). Compreender essas semelhanças textuais e culturais nos ajudam a compreender como Paulo se coloca como “professor” de sua audiência.

[vii]Charles Talbert, em seu comentário sobre Colossenses, enumera 4 visões sobre a natureza das heresias da igreja em Colosso. E, embora ele conclua que não há consenso a seu respeito, o elemento do sincretismo judaico-helenístico é comum às perspectivas mais populares sobre a natureza dessa heresia, dando-nos alguma confiança para acreditar (inclusive pelo vocábulo utilizado) nas influências tanto das tradições judaicas quanto das filosofias gregas sobre o cristianismo dos crentes da Frígia.


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