Estágios da Fé (3/3) – Conclusão e Implicações Individuais e Institucionais

Eu quero concluir com algumas reflexões sobre o quadro maior desses estágios e suas implicações para nossa jornada nesse mundo desafiador.

Primeiro, eu não quero deixar a impressão de que as pessoas marcham através dos estágios com uma precisão perfeita. As coisas são mais complicadas do que isso – é possível viver em mais do que um estágio por vez. Todos tem um estágio “lar” em um determinado momento, mas nos movemos pra frente e para trás entre os estágios; as coisas são mais parecidas com o mercado de ações do que uma jornada de linha reta. A única progressão clara é que cada estágio se constrói sobre aquele que vem antes dele.

Alguém não pode pular do estágio dois para o estágio cinco, já que as fases entre eles são um desenvolvimento natural, como na vida de uma planta. Mas é possível voltar um ou dois estágios, de forma natural, como um escorregão inconsciente caso um novo estágio esteja muito desafiador, ou até de forma deliberada por razões egoístas ou altruístas (para se encaixar melhor em um grupo de amigos, por exemplo). Certa quantidade de ambigüidade é natural e normal.  Isso reforça o fato de que o crescimento espiritual, como o desenvolvimento de uma planta, precisa ser natural, no tempo de Deus, em vez de um programa forçado em outro ou em si mesmo. Deixe Deus efetuar o crescimento no passo dEle.

Segundo, cada um desses estágios é natural, normal, bom e apropriado. Estágios mais posteriores não são “melhores” do que os anteriores. Cada um deles é o melhor lugar para uma pessoa que esteja em uma progressão natural de desenvolvimento. Estar em um estágio em particular só é negativo se alguém ficar preso naquela fase e carregado de elementos negativos que podem trazer preocupação em cada estágio.

O estágio dois, por exemplo (fase do discipulado), pode soar negativo e inferior pela sua tendência à rigidez e às attitudes julgamentais, mas ele é, na verdade, um estágio belo de aprendizado, crescimento e integração em uma comunidade espiritual. Ele só se torna negativo se as pessoas perdem a coragem de continuar crescendo. Os “estágios superiores” são maravilhosos no sentido de serem caracterizados por uma maior conexão com Deus, menos egocentrismo e a integração de cabeça e coração. Essas são, de fato, coisas a serem buscadas, mas não são atingidas sem a progressão normal conduzida por Deus. Aqueles que atingem os estágios mais maduros  são os últimos a se considerarem superiores. Então, embora os estágios posteriores devam ser perseguidos, eles nunca devem ser uma base para arrogância ou superioridade.

Terceiro, é extremamente útil para líderes e mentores aprender as características de cada estágio de forma que eles consigam realmente identificar onde as pessoas estão nessa jornada. Nós somos atraídos por pessoas que estão um estágio a frente de nós. Ficamos perplexo com pessoas que estão dois estágios a frente de nós. E pessoas que às vezes estão três estágios a frente acabam assassinadas (Jesus). Então, um mentorado efetivo ocorre quando o mentor livremente volta um ou dois estágios a fim de encontrar as pessoas onde elas estão (nos estágios um, dois ou três). Isso não é hipocrisia, é o reconhecimento de que as pessoas aprendem melhor quando a informação está em uma forma que eles estão preparados para lidar (Jo 16:12),  que normalmente está no máximo em um estágio a frente de onde eles estão no momento.

“Andar para trás” por amor aos outros é um ato de graça, não de egoísmo. É um ato de missão. Por outro lado, andar para trás por medo, egoismo, ou necessidade de controle, pode levar à “fossilização spiritual” em determinado estágio, uma posição perigosa para se estar.

Conforme você amadurece espiritualmente, os mentores ficam escassos; encontrar alguém que possa ajudar se torna mais difícil. Mas conforme você amadurece espiritualmente, as oportunidade de ser um mentor aumentam.  Nós mentoramos aqueles que estão em estágios anteriores porque nós estivemos lá e fizemos o mesmo. Aprendemos daqueles que haviam explorado estágios os quais nós não estivéramos ainda.

Cuidado mútuo também acontece entre pessoas no mesmo estágio. E pessoas no estágio seis são mentorados por Deus, somente!

Quarto, a Bíblia endereça todos os seis estágios de desenvolvimento spiritual e as noites escuras da alma que frequentemente os acompanham. É por esse motivo que algumas partes da Bíblia estão “fechadas” para nós. Elas podem falar a estágios que nós não experimentamos ainda e, portanto, não podem se completamente compreendidas. Mas conforme nós crescemos espiritualmente, mais e mais partes da Bíblia são abertas ao nosso entendimento. Eu suspeito que partes, pelo menos, do sermão do monte (Mt 5-7) estão escritas para aqueles que estão no estágio seis, o estágio do amor incondicional. Quantas pessoas vocês conhece que poderiam ser espancadas na face e ainda assim não sentir nenhum cisco de ressentimento por dentro? Quantas pessoas você conhece que não desprezam nem se ressentem de absolutamente ninguém em seus corações? Quantas pessoas acham natural abençoar aqueles que as amaldiçoam? Para a maioria de nós, o sermão do monte é aspiracional, mas nem sempre experimental. As boas novas são que a Bíblia sempre tem algo para todos que estão na jornada da fé. É por isso que não importa quantas vezes nós lemos a Bíblia, sempre precisaremos lê-la todos os dias, buscando insights que podemos ter perdido antes. Conforme crescemos espiritualmente, a Bíblia cresce conosco, por assim dizer.

Implicações dos Estágios da Fé para Instituições

 

Finalmente, as instituições religiosas espelham esses estágio no seu crescimento e desenvolvimento? As melhores pesquisas sugerem que sim. Instituições religiosas refletem o estágio espiritual que é um denominador comum da membresia. Já que a vasta maioria dos aderentes de qualquer religião estaria nos estágios mais “novos” da fé, a maioria das instituições estaria no estágio um, dois ou três. A questão interessante é se alguma instituição religiosa já se moveu além do estágio três para as fases posteriores, mais maduras da fé. Ou será que as instituições inevitavelmente ficam presas em um dos três primeiros estágios?

O que é uma religião, ou uma instituição religiosa? Instituições religiosas são uma resposta humana à percepção do trabalho de Deus no mundo. A instituição é criada a partir consciência (estágio um?)  e tem a intenção de promover o trabalho de Deus na terra e ajudar as pessoas a aprenderem e crescerem no conhecimento e na experiência de Deus (estágio dois?). Novas religiões são focadas em Deus e em Sua honra. Mas  ao longo do tempo ela se torna cada vez mais ocupada com a autopreservação. O egoísmo “natural” dos indivíduos tem sua contraparte no egoísmo corporativo. As instituições se tornam cada vez menos centradas em Deus e Sua glória e mais centradas na preservação da existência da instituição. Essa raramente é a intenção de alguém; parece ser um processo natural que ocorre com o tempo. Embora os líderes religiosos possam ser perversos, isso usualmente parece acontecer a despeito das melhores intenções por parte dos líderes.

Em um sentido real, a questão é se qualquer instituição religiosa é capaz de crescer após o estágio três, a fase do sucesso. No estágio do sucesso, a instituição cresce financeiramente e em quantidade de membros. Ela expande suas operações e se torna um “império”. Quanto maior a instituição se torna, mais ela pode fazer por Deus, portanto o crescimento e a preservação se tornam cada vez mais o foco. Mas a fim de se mover além desse foco corporativo uma religião precisaria atravessar uma noite escura da alma, o que possivelmente resultaria na destruição da instituição, pelo menos na forma com a qual as pessoas se acostumaram.

Alguma instituição religiosa já encontrou vida morrendo? Alguma instituição religiosa já “tomou a sua cruz” na implicação completa desse termo (Mc 8:34-38)? Eu não tenho certeza se alguma instituição religiosa madura já fez isso (a igreja do novo testamento deu alguns passos largos no despontar do romance inicial com Jesus, mas no segundo século isso tudo sumiu rapidamente).

Meio que como uma regra, as instituições religiosas inevitavelmente se fossilizam nos estágios dois ou três. Isso significa que as pessoas que experimentam a noite escura da alma e entram no estágio quatro ou além inevitavelmente se sentirão fora de sincronia com a religião à qual ele faz parte. Se você já experimentou isso, você não é anormal. Isso é provavelmente tão natural quanto respirar. As pessoas no estágio cinco e seis não têm um verdadeiro lar nessa terra – a casa delas é no céu. Eles frequentemente são uma fonte de perplexidade e até mesmo diversão entre aqueles lutando pelo sucesso espiritual. Quanto mais perplexidade ainda eles trazem para aqueles que estão presos no estágio dois ou três! Eles estão enamorados com o seu sucesso e a sua “pureza” teológica  e não conseguem entender os ventos de mudança do Espírito que cria únicos, imprevisíveis parceiros de Deus.

Então o que uma pessoa nos estágios quatro a seis farão sobre isso? Se determinada religião verdadeiramente abandonou Deus de alguma forma perversa, eles deveriam deixá-la. Mas isso não significa que eles se sentirão em casa em algum outro lugar. As instituições seguidoras de Deus ainda estão sujeitas à lei do denominador comum.  Seguidores de Deus em estágios mais maduros provavelmente não encontrarão uma instituição religiosa que afirme completamente sua caminhada com Deus.  Felizmente, sua nutrição espiritual não mais depende da instituição, mas vem daqueles raros mentores maduros e de Deus, Ele mesmo.

Como sobreviver ao sentimento de deslocamento que é tão comum entre os seguidores de Deus nos estágios quatro a seis? A chave está no princípio de missão de encontrar as pessoas onde quer que elas estejam. Esse é o princípio do mentorado. As pessoas são atraídas por aqueles que estão um estágio a frente deles – não se esqueça. Mentores maduros podem se colocar na posição em que os indivíduos/ audiência precisam que eles estejam. Aborde um contexto de estágio dois do estágio três, aborde o contexto de estágio três do estágio quatro. Isso é relativamente fácil para uma pessoa madura, já que ela passou por todos os estágios. [Como diz Mathew Henry, lembre-se dos dias das pequenas coisas.]

Isso não é hipocrisia. Hipocrisia é voltar estágios por razões egoístas, como para evitar a perda do controle. Hipocrisia é ficar fossilizado em um estágio por causa do desafio de mover-se pra frente ser muito ameaçador de alguma forma. Mentorado é sobre andar para trás por amor dos outros, não por nós mesmos. Nós podemos estar confortáveis na nossa pele espiritual, em casa com Deus nos estágios quatro, cinco ou seis. Mas nós voltamos por amor à missão, por amor aos outros. Essa é a forma pela qual pessoas maduras espiritualmente podem permanecer úteis e engajadas com as instituições que Deus permitiu e encorajou que fossem fundadas.

Instituições religiosas não são coisas ruins, em e por si mesmas. Elas começaram com o propósito de honrar a Deus e apontar as pessoas para Sua ponderosa atividade em seu meio. As instituições provêm organização e eficiência no serviço dessa missão. Mesmo quando se fossilizam, Deus ainda pode usá-las para alcançar indivíduos com uma mensagem que de outra maneira não haveria chegado até eles.  Mas as instituições não são um fim em si mesmas. Elas são úteis somente até o ponto em que elas apontam para fora de si, para o grande trabalho de Deus na terra. Tais instituições precisam de parceiros maduros de Deus para mantê-las nos trilhos. Elas precisam de um desafio profético para morrer para o eu e apontar todas as coisas para Deus.

Não abandone sua comunidade porque você não mais parece se ajustar.

Essa sensação de deslocamento é provavelmente um chamado de Deus para um ministério sacrifical fora da sua zona de conforto (nos estágios maduros do relacionamento espiritual com Deus).

Você pode ser verdadeiro consigo mesmo e ainda assim servir uma instituição imperfeita.

Jon Paulien


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