Retomando a arte perdida de fazer sentido: apelo às consequências

Você já cometeu essa falácia, mas provavelmente nem percebeu. Eu mesmo faço isso o tempo todo, quando evito pensar em algo quando sei, lá no fundo, que pensar sobre aquilo mudará minha opinião e terá algumas implicações não muito agradáveis. Se os efeitos de uma ideia serão ruins pra mim, então provavelmente essa ideia é falsa.

Será mesmo?

Apelar às consequências é defender a validade de uma afirmação com base nas consequências que haveriam se ela fosse verdadeira. Apela-se para a esperança dessa consequência, caso ela seja positiva, ou para o medodessa consequência, caso seja negativa.

Por exemplo, imagine que você tenha visto uma propaganda na TV, mostrando como a água disponível no mundo está acabando. E por isso é necessário reduzir o tempo de banho.

O raciocínio absurdo do apelo às consequências acontece mais ou menos assim:

“Bem, se eu reduzir meu banho, não vou ter meu momento de relax depois de um dia pesado de trabalho e isso será bem ruim pra mim. Portanto a água do mundo não está acabando.”

Bem, o fato de a falta de água levar a uma consequência desagradável não diz nada sobre a validade da afirmação “A água está acabando”. A qualidade de um efeito não é transferível, necessariamente, para a causa. Gostar ou não das consequências da falta de água no meu banho não vai fazer a água simplesmente brotar nos rios.

Embora eu espere que você não tenha um raciocínio explicitamente estúpido como esse, acredito que instintivamente pensamos nessa linha, algumas vezes.

No âmbito espiritual, nós também cometemos essa falácia, às vezes, ao defendermos a existência de Deus. Considere essa frase de Dostoiévski, por exemplo:

“Se Deus não existe, então tudo é permitido”.

Isso pode ser verdade, MAS a consequência de um mundo puramente materialístico não diz nada sobre a existência de Deus. Usar uma afirmação como essa com esse propósito pode caracterizar um tipo de manipulação sentimental, e acredito que esse não é seu objetivo.

(Obviamente o exemplo é simplista, visto que normalmente o argumento é mais elaborado e uma afirmação como essa faz parte de uma cadeia de raciocínio)

Cometemos essa falácia, também, ao argumentar que, porque algo nos faz mal, é errado para todos. Agora, pode ser que isso seja verdade, pode ser que não – mas não é a consequência que eu enxergo que dará o fundamento para se descobrir isso – eu preciso cavar mais fundo, preciso explorar mais variáveis e solidificar minha cadeia de pensamentos. Por exemplo, jogar futebol pode ser um problema para mim, devido a um temperamento fortemente explosivo. Mas o fato de as consequencias do “jogar futebol” serem ruins para mim, não faz com que isso o torne automatica e necessariamente errado para todas as pessoas. É uma questão de maturidade, mais do que qualquer outra coisa.

Mas é importante lembrar que tais argumentos só são falaciosos quando são usados para apoiar se uma determinada proposição é verdadeira ou falsa e não para se tomar decisões ou criar políticas públicas. Considerando o exemplo acima, somado à uma atitude cristã, eu posso muito bem cancelar um jogo de futebol para poupar alguém de se ferir espiritualmente ou emocionalmente por participar do jogo, levando em conta somente as consequencias, e isso não será errado.


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