Exposições de Levíticos: Oferta de Grãos (Lv. 2)

Em Levíticos 2, Deus apresenta as instruções para as ofertas de grãos, que são iguais às ofertas queimadas do capítulo 1, no sentido de que elas também são apresentadas a Deus na forma de fumaça.

Nós temos duas grandes categorias os grãos crus (2:1-3) e os cozidos (4-10). Os versos 11-13 apresentam algumas regras gerais que se aplicam a todos outros tipos de sacrifícios. E por fim, nos versos 14-16, temos um tipo especial de oferta que sãos as primícias (ou “primeiros frutos”) que expressa o reconhecimento de que a colheita que provê para as necessidades humanas é um presente de Deus. Então a estrutura geral do capítulo é:

Ofertas cruas (v.1-3)

Preparo (v.1)

Ritual (v.2-3)

Ofertas cozidas (v.4-10)

Preparo (v.4-7)

Cozida no forno (v.4)

Preparada numa grelha (v.5-6)

Feita na panela (v.7)

Ritual (v.8-10)

Regras gerais (v.11-13)

Oferta dos primeiros frutos (v.14-16)

Preparo (v.15)

Ritual (v.16)

O preparo da oferta crua incluía a adição de óleo, para ajudar a o oferta a queimar no altar, e incenso, para aprimorar o “aroma agradável”. Ambos são símbolos associados com a alegria e a provável aceitação divina (Pv. 27:9)

Uma oferta de grãos obviamente não envolvia morte de animais, sangue, ou couro para servir como a comissão do sacerdote. Portanto, o sacerdote ficava com o restante da oferta, depois de retirar um punhado e queimar no altar como uma porção memorial ao Senhor. Esse era o procedimento para a oferta feita por um “leigo”, se o sacerdote fosse o ofertante, ela seria queimada inteira (6:23).

Os versos 11-13 apresentam duas regras gerais. A primeira é a proibição contra o fermento por causa da regra mais ampla de que nada de fermento ou mel (provavelmente mel feito de frutas) poderia ser apresentado ao Senhor como um presente-comida. Isso não se aplica às ofertas que não eram queimadas no altar, como a das primícias (que envolvia comidas “processadas”, v. 12).

A segunda regra é uma positiva: o “sal da aliança” deve se incluído em todas ofertas (cf. Ez. 43:24).

Sacrifício sem derramamento de sangue?

Paulo em Rm 12.1 apela a seus irmãos cristãos para que ofereçam seus corpos como sacrifícios vivos, santos e agradáveis a Deus como um ato espiritual de adoração. Um sacrifício vivo parece mais uma figura de linguagem; um sacrifício não exige a morte daquilo que é sacrificado? Não necessariamente, e é isso que Levíticos 2 nos mostra. Apesar de não haver menção à expiação aqui, a oferta de grãos é referida com a mesma palavra usada para a oferta queimada do capítulo 1 (qorban). A palavra qorban está associada com o sentido de “aproximar-se para oferecer”, e denota o ato de “transferir algo para Deus e para sua utilização. Qorban torna algo santo pelo oferecimento ao domínio santo de Deus – esse é o sentido da palavra sacrifício, que não necessariamente exige o componente da morte. Inclusive nós veremos, em Lv 5.11-13, que uma oferta de grãos também serve como uma oferta de purificação, conhecida como “oferta pelo pecado” que provê também expiação. Essa é a exceção reconhecida em Hebreus 9.22, quando o autor diz “a lei requer que quase todas as coisas sejam purificadas pelo derramamento de sangue, e sem o derramamento de sangue não há perdão”.

O texto usa a palavra do hebraico minchah para se referir a esse sacrifício. Essa palavra significa literalmente presente. Em textos que não falam sobre rituais, essa palavra é usada quando um presente é oferecido a pessoas reconhecidas como superiores, como quando Jacó oferece presentes a Esaú (Gn 32.13).

A oferta de grãos em Lv 2, serve como uma homenagem, um tributo ao Senhor, expressando um relacionamento positivo com ele e o honrando como aquele que provê o pão diário (cf. Mt 6.11). Enquanto a oferta queimada representava a autoconsagração e a entrega do ofertante, a oferta de grãos é um presente que “reconhece a soberania de Deus sobre todas as coisas e sobre ele mesmo, ao ofertar uma porção daquilo que o Senhor graciosamente concedeu em abundância” (cf. I Cr 29.14). A união desses dois sacrifícios era tão estreita, que a oferta queimada nunca era oferecida sem a companhia da oferta de grãos (Num. 15:4). A implicação é clara. A autoentrega, consagração vem acompanhada de reconhecimento da soberania de Deus e gratidão ao que Ele nos concede e da disposição de tornar isso público.

Sem fermento nem mel

Precisamos lembrar que os ingredientes dos sacrifícios carregam significados por associação. Levítico 2:11 proíbe queimar fermento e mel no altar de Deus.

A fermentação é um processo de degradação que se relaciona com o conceito da morte. Em conexão com as leis de impureza, nós veremos que no sistema cerimonial Israelita, as pessoas precisavam ficar longe de tudo aquilo que se relaciona à morte para se relacionar com Deus – pois Ele é vida, o extremo oposto.

O fermento é uma metáfora conhecida para o mal. O Talmud Babilônico dizia “Fermento na massa” (Ber. 17a) como uma expressão para as propensões malévolas do homem. Jesus se referiu ao “fermento” dos fariseus, que é a hipocrisia (Lc 12.1), Paulo falou sobre o fermento da malícia (I Co 5.8). Essa visão era até mesmo compartilhada com os antigos – Plutarco, por exemplo, diz que “o fermento em si mesmo vem da corrupção, e corrompe a massa com a qual está misturada” (Quaest. Rom. 109).

Já o mel, provavelmente era oriundo de frutas e não das abelhas (cf. 2 Cr 31.5, onde o mel é incluído nos produtos agrícolas do campo). Sua exclusão do altar se deve a sua suscetibilidade à fermentação (cf. Num 6:3-4, onde um Nazireu é proibido de beber mesmo do suco de uva não fermentado porque as uvas facilmente fermentam e são usadas para fazer vinho fermentado).

Salgado

Levítico 2:13 requer que todas ofertas sejam salgadas. A adição de sal representam a ideia da aliança. Aliança e sal aparecem juntos em Num 18:19 e 2 Cr 13:5, por exemplo, onde o sal é usado metaforicamente pra enfatizar permanência, perpetuidade.

É fácil entender esse símbolo, já que o sal é usado literalmente como conservante. Logo, uma aliança de sal é uma aliança permanente. O fato de que todos sacrifícios serem temperados com sal, mostra que todos eles funcionavam no contexto de uma aliança perpétua entre Deus e seu povo.

O sal também carregava significados adicionais. Nos tempos antigos, as pessoas que compartilhavam sal estavam ligadas por certas obrigações. Por exemplo:

  • A lealdade ao rei Persa, por exemplo, era referida pelo “provar do sal do palácio” (Esdras 4:14).
  • A expressão “Há sal entre nós” era utilizada pelos beduínos árabes como um tratado de defesa e ajuda mútua;

O que isso importa pra mim hoje

Nós somos o sal

Jesus chama você e eu de sal da terra. Embora a questão do sabor seja sugerida, a preservação também é importante. Assim como o sal precisa se espalhar e se misturar para fazer diferença, também nós, precisamos nos misturar e nos espalhar com os outros para melhorar o “sabor moral” da nossa sociedade e preservá-la do “apodrecimento moral”

Em Marcos 9:50, Jesus adverte: “Tenham sal em si, e estejam em paz um com o outro”. Essa ideia se relaciona com o que Paulo diz em Colossenses 4:6 “Que sua conversa seja sempre cheia de graça, temperada com sal, para que vocês saibam como responder a todos”. Nesses versos, o sal é uma metáfora para se referir à graça social e ao tato, que habilita que nós nos demos bem com os outros.

Sacrifícios vivos

Paulo em Rom 12:1-2 pede que nós nos apresentemos a Deus como sacrifícios vivos. Agora que entendemos que um “sacrifício vivo” não é só uma figura de linguagem, mas algo possível, podemos entender que esse sacrifício, assim como a oferta de grãos, envolve algumas características, como:

Ser voluntário, cheio de alegria, nascido da gratidão e do reconhecimento da soberania de Deus, distante do pecado e que busca a paz entre as pessoas – esse é nosso culto espiritual, essa é nossa adoração. E como fazemos isso? Renovando nossa mentalidade, pois o padrão desse mundo (Rm 12.2) é a ambição, o egoísmo e a autogratificação, em nome da sobrevivência.

Conforme oferecemos nossa vida e nossos serviços a Deus, precisamos lembrar que nada é aceito se não estiver preenchido pelo Espírito Santo. Esse símbolo é expresso no óleo, que precisava ser misturado com o sacrifício. O trabalho feito para Deus precisa ser feito em cooperação com o Espírito Santo. Quando entendemos que nosso sacrifício só se torna aceitável pela mediação do Espírito e não pela nobreza ou qualidade do que fazemos, nosso trabalho se torna um culto espiritual.

“Cristo requer seguidores e definiu exatamente o que ele quis dizer com essa palavra: que eles deveriam ser sal, dispostos a se sacrificar, e isso é o que significa ser um Cristão. Mas ser sal e ser sacrificado não é algo ao que milhares de pessoas se dispõem, quanto mais milhões.” – Kierkegaard

Referências

Gane, R. (2004). The NIV Application Commentary. NY: Zondervan.

Spence-Jones, H. D. M. (Org.). (1910). Leviticus (p. 23). London; New York: Funk & Wagnalls Company.

Rooker, M. F. (2000). Leviticus (Vol. 3A, p. 99–100). Nashville: Broadman & Holman Publishers.


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