O Agnosticismo Filosófico de Kant

Eu não quero cometer a falácia do espantalho e ser simplista nas soluções. Essa discussão é profunda e vai mais além do que imagino. O que apresento abaixo é uma simplificação dos argumentos e suas conclusões.

Filosoficamente, o mundo pós-kantiano não pode conhecer Deus ou sequer a realidade. A filosofia de Kant particularmente contradiz Paulo, quando afirma que o poder de Deus e sua natureza divina são claramente vistas através da natureza (Rm 1:20). Nem mesmo a Bíblia é capaz de dizer como Deus realmente é, mas somente a forma que ele e para nós. É como se a Bíblia dissesse como Ele quer que nós pensemos nEle, sem poder informar quem Ele é verdadeiramente.

Kierkegaard, aceitando esse abismo entre o que é e o que parece ser proclamou Deus como sendo “completamente outro” e insistiu que a razão humana não tinha nenhuma participação na defesa do Evangelho.

“Se Deus não existir, seria, com certeza, impossível prová-lo; e se Ele existir, seria tolice tentá-lo.” (Fragmentos Filosóficos, 31-35)

Três das visões de Kant, se verdadeiras, destruiriam a fé cristã:

  1. Kant era um agnóstico filosófico;
  2. Ele defendia que nenhum argumento para a existência de Deus é válido;
  3. Ele negava o direito de se acreditar em milagres.

Nesse texto, quero comentar sobre a primeira, o agnosticismo filosófico.

Sua síntese defendia basicamente que o conteúdo de todo conhecimento vem através dos sentidos, mas a forma, ou estrutura, desse conhecimento é provida pelas formas a priori da sensação e as categorias da mente (Critique of Pure Reason, 173–75, 257–75).

Em resumo, não há nenhuma forma de sair de si mesmo e saber o que algo realmente é – eu só posso conhecer o que algo é para mim. Somente a aparência, e não a essência.

Para Kant, a realidade e as coisas em si, incluindo Deus, estão além do nosso conhecimento. E por isso devemos nos manter agnósticos sobre a realidade.

Outro argumento para seu agnosticismo são as antinomias da razão. Para Kant, a aplicação da razão à realidade resultava em contradições, e por isso devemos nos contentar em aplicá-la somente ao mundo para mim, e não ao mundo em si.

Dois exemplos:

1.

Tese: O universo precisa ter tido um começo, caso contrário um número infinito de momentos teria passado até agora. Mas isso é impossível, porque o infinito não pode ser atravessado.

Antítese: Mas o universo não poderia começar no tempo, de outra forma teria havido tempo antes do tempo, o que é impossível.

2.

Tese: Nem toda causa tem uma causa, caso contrário a série nunca teria tido um princípio. Portanto, deve haver uma Primeira Causa.

Antítese: Mas a série não pode ter um começo, já que tudo tem uma causa. Portanto, não pode haver uma primeira causa.

Entretanto, seus argumentos para o agnosticismo são inválidos.

A afirmação de que nós não podemos conhecer aquilo que é (o mundo real, ou Deus, digamos) é uma ideia que se autocontradiz. A própria afirmação “Nós não podemos conhecer aquilo que é” é uma declaração que pressupõe conhecimento sobre “aquilo que é”; a saber, que nada pode ser conhecido.

Diversos filósofos notaram duas coisas sobre isso. Primeiro, Kant era inconsistente, já que ele, às vezes, vagueava para o mundo real (aquilo que é) para fazer declarações sobre ele. E ao fazê-lo, ele mesmo deixava implícito que o mundo real é cognoscível. Segundo, alguém não pode consistentemente separar o mundo que se mostra e o mundo que é sem ter algum conhecimento dos dois. Uma linha não pode ser desenhada, a menos que alguém possa ver além dela.

Suas antinomias também falham porque uma das premissas é falsa.

Não há necessidade da existência do tempo antes do tempo para o princípio do universo; poderia haver a eternidade. O Teísmo não defenda a criação no tempo, mas sim a criação do tempo com o universo. E nem tudo precisa de uma causa, somente seres contigentes (finitos e temporais). Portanto, um ser necessário, eterno e primeiro, não precisa de uma causa. É a limitação do princípio da causalidade.

O agnosticismo é o dogmatismo negativo, e todo negativo pressupõe um positivo. Assim, o agnosticismo total não é somente autocontrdizente; ele é autodeidificante. Somente uma mente onisciente poderia ser completamente agnóstica, e homens finitos confessadamente não possuem oniscieência. Portanto, a porta permanece aberta para algum conhecimento da realidade, daquilo que é, e não só do que parece ser.

A realidade não é incognoscível.

Referência

Geisler, N. L. (1999). In Baker encyclopedia of Christian apologetics (p. 403–405). Grand Rapids, MI: Baker Books.


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