Exposições de Levíticos: Oferta de Bem Estar (Lv. 3)

Esse capítulo delineia o procedimento para as ofertas de paz, que podem ser traduzidas como “ofertas de bem estar”. O termo em hebraico (selamim) vem da mesma raiz das palavras “paz”, (salom) e “completo” (salem). A tradução “bem-estar” vem da ideia de “completo”, refletindo o fato de que esse sacrifício era oferecido por circunstâncias felizes.

Agora, as ofertas de bem-estar são chamadas de zebah selamin, porque pertencem a categoria zebah de sacrifícios.

Essa categoria difere das ofertas queimadas pois

  1. Aqueles que oferecem sacrifícios zebah, comem da carne da oferta também, beneficiando-se materialmente daquilo que foi ofertado. Mas o ofertante teria que comê-la até o segundo dia (7.16), ou no mesmo dia se fosse uma oferta de gratidão (7.15). Além disso, como a carne era santa, o ofertante precisaria estar ritualmente puro para comê-la (7.18-21);
  2. Enquanto uma ave poderia ser uma oferta queimada (1.14-17), elas não são usadas para ofertas de bem-estar;
  3. Enquanto ofertas queimadas do gado ou do rebanho precisassem ser machos (1.3,10), as ofertas de bem-estar poderiam ser fêmeas (3.1);
  4. Somente a gordura interna do animal era removida e oferecida como fumaça (3.16);
  5. O peito e a coxa pertenciam ao sacerdote, como comissão deles (7.31-36).

No final do capítulo, Deus dá algumas regras gerais a respeito da gordura e do sangue que são especialmente relevantes para a oferta de bem-estar porque o ofertante comeria dela: “Não coma nem gordura nem sangue” (3.16-17)

Por que oferecer um sacrifício de bem estar?

O propósito básico da oferta de bem-estar é semelhante à oferta queimada e à porção simbólica da ofertado grãos: oferecer um presente de comida como aroma agradável ao Senhor (3.11).

Esse texto também não menciona expiação ou nenhuma outra motivação para o sacrifício, mas o capítulo 7 descreve três subcategorias das ofertas de bem-estar, de acordo com sua motivação:

  1. Gratidão (7.12-15) – uma oferta de bem estar poderia expressar gratidão por todos os tipos de bençãos, como boa colheita, aumento nos rebanhos, proteção ou libertação de um perigo (cf. Sl 107.17-22, “rendei graças”);
  2. Voto (7.16) – ma oferta de bem estar poderia ser o cumprimento de um voto, feito por um Israelita desejoso de receber uma benção em particular (Gn 28:20-22, Sm 1:10-11);
  3. Voluntária (7.16) – uma oferta de bem-estar poderia ser oferecida a qualquer momento, quando outros tipos não se aplicassem. Lv 17.1-9 permitia que os Israelitas comessem carne somente se apresentam o sacrifício de bem-estar. Portanto, o mero desejo de comer carne seria uma motivação válida para apresentar o sacrifício.

Nós tendemos a pensar nos sacrifícios somente para expiação de pecados, mas eles eram executados por um leque de razões alegres. O sistema sacrificar era solene, mas não mórbido. Era dinâmico e poderia ser alegre.

A oferta queimada tipificava a autoentrega, a consagração; a oferta de grãos tipificava a submissão leal, o reconhecimento da soberania de Deus; a oferta de bem-estar tipificava a alegria daqueles que, tendo-se rendido a Deus, tornaram-se seus filhos, e se alimentaram simbolicamente da mesma mesa que Ele.

Participando de Cristo

Jesus acordou seus discípulos quando afirmou que a menos que eles comessem da carne do Filho do Homem, e bebessem seu sangue, não haveria vida neles (Jo 6:53-56). Quando Jesus falou, de maneira semelhante em Mat 26:26-28, ele claramente se referiu a si mesmo como a vítima sacrifical:

“(…) Esse é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para o perdão de pecados.”

Aqui há um relacionamento metafórico entre o sacrifício do seu corpo e o ritual do comer do pão, que representa a participação no seu corpo, assim como os Israelitas comiam a oferta de bem-estar.

Por que tantos sacrifícios?

Nenhum tipo único de sacrifício poderia expressar mesmo os aspectos básicos da reconciliação com Deus. Por exemplo, como uma vítima que é consumida (oferta queimada) poderia permitir que o ofertante participasse dela (oferta de bem-estar)? Essas diferenças enfatizam aspectos que foram depois combinadas no sacrifício de Jesus.

  1. As ofertas queimadas apontavam para a necessidade de um sacrifício absoluto;
  2. As ofertas de grãos reconheciam a soberania e o cuidado de Deus em prover para as necessidades humanas – incluindo as necessidades absolutas (Cristo, o pão da vida);
  3. As ofertas de bem-estar expressavam o benefício de tomar a vítima sacrifical para dentro da própria vida;
  4. A oferta de purificação apontavam para a necessidade que os pecadores tem de ter suas vidas resgatadas
  5. E a oferta de reparação reconhecia que o pecado cria um débito que precisa ser pago com sacrifício ainda que as coisas sejam consertadas.

Ao olhar o que Cristo fez à luz dos rituais primitivos, nós vemos a riqueza multifacetada do Seu sacrifício.

A alegria do sacrifício

A oferta de bem-estar nos lembra que a interação saudável com Deus não se foca só nos problemas, incluindo a necessidade de se livrar dos pecados nos separa dele. Você mesmo não deve gostar de gente que só fala de problemas. Logo temos a sensação de que aquela pessoa é egocêntrica, não se preocupa conosco e não acredita em nossa habilidade para ajudar. Como disse L. Crabby, “Sempre que nós colocamos uma prioridade maior em resolver nossos problemas do que buscar a Deus, nós somos imorais”.

Como os Israelitas antigos que traziam as ofertas de bem-estar ao santuário, nós podemos alegremente expressar gratidão a Deus de todas as formas, incluindo oração, música, presentes tangíveis a Ele ou serviço pelos outros.

O interessante é perceber que a gratidão que brotava do relacionamento com Deus também se manifestava em direção ao outros, como uma grande mesa de festa. O melhor era dedicado a Deus e aos sacerdotes (gordura, órgãos internos, coxa e peito) e o restante precisava ser comido em no máximo dois dias – qualquer um que oferecesse uma oferta de bem estar teria que envolver a família, talvez amigos e quem sabe até desconhecidos, para que a oferta fosse consumida no tempo adequado (imagine comer um boi em 2 dias?). A gratidão que brota do relacionamento com Deus sempre se manifesta em consideração pelos outros.

Não importa quão rica ou pobre sejam nossas circunstâncias externas, sempre há uma razão para se alegrar. No mínimo, nós temos a esperança de uma vida eterna através do sacrifício de Cristo. Se isso não evoca gratidão, louvor e explosões espontâneas de devoção, o que mais poderia?

Se você ganhasse milhões de reais você restringiria sua alegria, só porque não pode desfrutar daquele dinheiro agora? Claro que não! Provavelmente haveria pulos de alegria, abraços e lágrimas felizes, acompanhados de exclamações repetidas: “Você acredita que isso realmente acontece conosco?”

Por que nos contemos? Será que não cremos de fato? “O oposto da alegria não é a angústia, é a descrença”. A alegria não é meramente uma emoção, mas um imperativo mora: “Saibam que a alegria é mais rara, mais difícil e mais bela do que a tristeza. Uma vez que descubramos isso, devemos abraçar a alegria como uma obrigação moral.”

Diferente da autogratificação, a alegria olha para cima, até Deus, e para frente, para o que Ele oferece ao seu povo necessitado.

Referências

Gane, R. (2004). The NIV Application Commentary. NY: Zondervan.

Spence-Jones, H. D. M. (Org.). (1910). Leviticus (p. 40). London; New York: Funk & Wagnalls Company.


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