Exposições de Levíticos: Oferta de Purificação (Lv. 4)

As ofertas queimadas e de bem-estar já eram conhecidas e oferecidas antes do tabernáculo ser construído (cf. Gn 8:20, Ex 20:24, por exemplo). Entretanto, com o começo da santuário, iniciaram-se também ofertas de purificação e reparação para remediar alguns tipos de pecado e impurezas rituais – incompatíveis com a santidade divina que habitava entre os Israelitas.

Oferta pelo pecado?

Lv 4 introduz o sacrifício hatta’t, que é frequentemente traduzido como “oferta pelo pecado”, porque hatta’t também significado pecado. Entretanto, esse tipo de oferta também é usada para purificação de objetos como o altar exterior (Lv 8:15) e até mesmo uma casa (Lv 14:49,52). Assim, esse sacrifício deve ser entendido como “oferta de purificação”, uma tradução que cobre tanto a purificação dos pecados quanto das impurezas rituais físicas.

Se entendermos essa oferta como lidando apenas com pecados, isso nos trará alguns problemas que na verdade não existem, como: uma mulher comete pecado ao dar a luz, para precisar sacrificar uma “oferta pelo pecado” (Lv 12:6-8)

A oferta de purificação é a categoria que inclui a maior variedade de subgrupos. Mas por enquanto vamos nos focar somente nas ofertas prescritas em Lv. 4, que se referem a violações inadvertentes de qualquer um dos mandamentos de Deus (Lv. 4:2). É lógico que isso se aplica assim que o indivíduo perceba o que fez.

É importante ressaltar o aspecto da “inadvertência”: o erro referido aqui envolve um aspecto de ignorância; a pessoa comete um pecado sem se dar conta disso no momento.

Ele é acidental.

Levítico nos fala sobre a natureza do pecado e o que Deus pensa disso. Enquanto um pecado acidental não seja tão sério quanto aquele motivado por uma atitude de rebelião (Nm 15:22-30), ele ainda é um pecado que precisa ser levado a sério e remediado.

A oferta de purificação pelo pecado acidental é mandatório e dividida em 4 subgrupos:

São basicamente três características que diferenciam os subgrupos: animal oferecido, aplicação do sangue e uso da carne do sacrifício.

Quando o sacrifício é oferecido em prol do sacerdote ou da comunidade, o animal oferecido é um touro. O procedimento, oficiado pelo sumo sacerdote, em ambos os casos é o mesmo:

  • Colocar a mão na cabeça do animal;
  • Executar o animal;
  • Levar um pouco de sangue até a parte interna do santuário;
  • Molhar os dedos e salpicar o sangue sete vezes em frente do véu;
  • Colocar um pouco de sangue nos chifres do altar de incenso;
  • Derramar o sangue restante na base do altar de sacrifício;
  • Remover a gordura;
  • Queimar a gordura;
  • Levar o resto do animal para um lugar limpo fora do acampamento;
  • Queimar todo o resto do animal.

Já quando o sacrifício é oferecido em prol de um líder ou um Israelita comum, o animal oferecido pode ser um bode (no caso do líder) ou uma cabra/ ovelha (no caso do homem comum). O procedimento pode ser oficiado por um sacerdote comum e só há aplicação de sangue no altar externo:

  • Colocar a mão na cabeça do animal;
  • Executar o animal;
  • Colocar um pouco de sangue nos chifres do altar externo;
  • Derramar o sangue restante na base do altar externo;
  • Remover a gordura;
  • Queimar a gordura;
  • Sacerdote come a carne (Lv 6:26).

Pavimentando o caminho para o perdão divino

Pode haver diferenças nas ofertas, dependendo de quem você é, mas o objetivo é o mesmo: remoção do pecado (4:20, 26, 31, 35).

O verso 20 diz: “O sacerdote fará expiação por ele, e então ele será perdoado”. O texto não diz “O sacerdote fará expiação por ele e o perdoará”. Daqui nós tiramos duas lições importantes:

  1. Nunca foi prerrogativa de um ser humano conceder o perdão de Deus.Deus espera que nós nos perdoemos um aos outros (Mt 6:12), mas em um sentido absoluto, quem pode perdoar pecados, senão Deus? (Mc 2:7) Os mestres da lei que fizeram essa pergunta consideravam Jesus um blasfemo quando ele perdoou um paralítico (Mc 2:5-7). Eles estariam certo, se Jesus não fosse divino. Deus nunca delegou a autoridade de conceder perdão da forma como Jesus fez.
  2. O perdão não resulta imediatamente do sacrifício. Perdão e remoção do pecado não são a mesma coisa. É Deus quem perdoa, e Ele é livre para rejeitar um sacrifício hipócrita que não é acompanhado de sincera contrição (cf. 1 Sam 15:22). Da mesma forma, não há evidência de que o arrependimento sozinho possa resultar em perdão – o sacrifício é necessário.
    Um altar partido, Teu servo ergue
    Feito de coração e cimentado com lágrimas …
    Dessa forma, descobrimos que a remoção do pecado através de um sacrifício expiatório precisava ser feito antes de Deus conceder o perdão. Portanto, o objetivo da oferta de purificação pode ser resumido assim: remover o pecado, como pré-requisito para o perdão de Deus.

O que uma oferta de purificação purifica?

O texto hebraico nos diz que, à parte da purificação inicial do altar externo quando ele foi consagrado (Lv 8:15) e os sacrifícios únicos que purificam o santuário no Dia da Expiação (Lv 16), as ofertas de purificação ao longo do ano removem o mal do ofertante. Diariamente Deus libertava os ofertantes do “débito”, absorvendo nEle, o custo. E isso era feito através do sangue que carregava o mal moral ou ritual do ofertante para o domínio de Deus, o santuário.

Quando o mal estivesse acumulado no santuário, ele seria removido por outro sacrifício de purificação, no Dia da Expiação, conforme veremos em Lv 16.

O fato de que as ofertas de purificação deveriam remover o mal dos ofertantes nos diz que esses sacrifícios tinham um papel especial na restauração da relação humano-divina. Para um cristão isso significa que o sacrifício de Cristo, “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29) é essencial para remover de um pecador o mal que o separa de Deus. O arrependimento humano não é um substituto para o sacrifício divino e só é possível porque Cristo morreu e se ergueu novamente “para que Ele pudesse dar arrependimento e perdão de pecados para Israel” (At 5:31). A paz com Deus ocorre através de nosso Senhor, Jesus Cristo, através de quem nós ganhamos acesso, pela fé, à sua graça na qual nós agora permanecemos (Rm 5:1-2; cf. 8:1-3). Q

Sangue, débito e resgate

Em qualquer outro tipo de sacrifício, o sacerdote Israelita lançava o sangue nos lados do altar externo (cf. Lv 1:5). Somente na oferta de purificação o oficiante colocava sangue nos chifres do altar, que eram projeções dos cantos superiores e formavam as partes superiores, ressaltando a importância do sangue. Quanto mais proeminente o sangue, mais poderosa é a expiação. Assim, o remédio para o pecado da comunidade envolvia não só o sangue nas pontas mais altas do altar de incenso, mas também o sangue dentro da Tenda sagrada. Dessa forma o sangue, que carregava a impureza moral ou ritual, se estendia na direção da presença de Deus, entronada sobre a arca da aliança.

Essa expiação era requerida quando o pecado de uma pessoa ou uma impureza ritual séria trazia essa obrigação sobre uma pessoa. Então, em vez de um presente simbólico, a oferta de purificação constituía o pagamento simbólico de uma obrigação, um débito, a fim de remover a barreira erguida no relacionamento divino-humano. É óbvio que isso não comprava a expiação, preço o qual está fora da capacidade de pagamento dos seres humanos (Salmos 49:7).

Alguns fatores adicionais reforçam a ideia da oferta de purificação como o pagamento simbólico de um débito:

  1. Embora a gordura da oferta seja queimada no fogo, ela não é referida como um “presente” (h.’isseh). Contraste com a gordura de uma oferta de bem-estar voluntária, que constituia a porção ’isseh para Deus.
  2. O ofertante não podia comer nenhuma parte da carne. Somente o sacerdote poderia comer, a menos que oferecesse o sacrifício por si mesmo. O fato de que um ofertante não poderia se beneficiar da sua oferta de purificação é explicada pelo princípio de que um devedor não pode receber de volta parte do pagamento de um débito.
  3. Quando uma oferta de purificação era oferecida junto de uma oferta queimada (cf. Lv 9:8-14), a oferta de purificação era oferecida primeiro, aparentemente porque um débito precisa ser pagado antes de um presente ser oferecido. Se você deve R$100 para alguém e então dá R$100 àquela pessoa, o valor é recebido como o pagamento de um débito e não um presente. Se você dá mais em seguida, então será um presente.

O resgate da vida através do sacrifício é uma realidade séria. Não é simplesmente uma bela figura de linguagem para nos inspirar enquanto o ministério de louvor canta. Cristo pagou e assim removeu/ expiou nosso débito, que era tão grande que exigia nossa morte, porque “o salário do pecado é a morte” (Rm 6:23).

O Custo do Perdão

O perdão não deve ser considerado garantido, como algo fácil, a ser dispensado da forma como oferecemos elogios. Perdoar significa “abrir mão” de algo. O verdadeiro perdão é difícil. Não é automático e tem um custo, mesmo para Deus – especialmente para Deus, que absorve o custo no sacrifício de Seu filho.

O verdadeiro perdão não é automático. É uma escolhe deliberada e consciente. É uma transação entre duas partes: aquele que cometeu a ofensa e aquele que foi ofendido. A parte ofendida pode oferecer o perdão, mas a transação só estará completa quando o ofensor se arrepender e aceitar o benefício do perdão. Levítico entendia isso: embora Deus continuamente tornasse o perdão disponível, um pecador só estaria “perdoado” quando aceitasse a provisão de Deus, oferecendo um sacrifício (4:35).

E isso pode ser agonizante.

Quando os irmãos de José apareceram no Egito, ele não colocou uma faixa dizendo “EU PERDOO VOCÊS, IRMÃOS”. Não. Não foi fácil, mas um processo dolorido de absorção do custo. Philip Yancey comenta:

“Quando a graça finalmente irrompeu através de José, o som da sua angústia e de seu amor ecoou através do palácio. O que é esse choro? O ministro do rei está doente? Não, a saúde de José estava perfeita. Aquele era o som de um homem perdoando.

Por trás de cada ato de perdão está uma ferida de traição, e a dor de ser traído não se vai facilmente.”

Milhares de anos não tornaram as coisas mais fáceis. Corrie Ten Boom descreve sua luta intensa em Munique, 1947, quando um homem se aproximou dela – o homem que havia sido um dos guardas nazistas mais cruéis no campo de concentração em Ravensbruck, onde ela sofreu e sua irmã morreu. Ele havia se tornado um cristão. Ele sabia que Deus o havia perdoado, mas ele queria ouvir de Corrie que ela também o perdoara. Ele ficou ali, de pé, com sua mão estendida, mas Corrie teve dificuldade em responder. Ela descreve o que pensou:

“A mensagem de que Deus perdoa tem uma condição: que nós perdoemos aqueles que nos ofenderam. ‘Se você não perdoar aos homens suas ofensas’, Jesus diz, ‘nem o Pai do céu perdoará as sua transgressões.’

Eu sabia que isso não era só um mandamento de Deus, mas uma experiência diária. Desde o fim da guerra eu tive um casa na Holanda para as vítimas da brutalidade Nazista. Aqueles que conseguiam perdoar seus antigos inimigos, também conseguiam retornar para o mundo exterior e reconstruir suas vidas, a despeito das cicatrizes físicas. Aqueles que acalentavam a amargura permaneciam inválidos. Era simples e horrível assim.

E ali estava eu com a frieza apertando meu coração. Mas o perdão não é uma emoção – eu sabia disso também. O perdão é um ato da vontade, e a vontade pode funcionar a despeito da temperatura do coração. ‘Jesus, me ajude!’ Eu orei silenciosamente. ‘Eu posso estender minha mão, eu consigo fazer isso. O Senhor completa o sentimento.

E então, mecanicamente, eu levei minha mão àquela que estava estendida para mim. E conforme fiz isso, uma coisa incrível aconteceu. Uma corrente começou em meu ombro, desceu pelo meu braço e explodiu nas nossas mãos unidas. E então o calor da cura pareceu inundar em meu ser, trazendo lágrimas aos meus olhos.

‘Eu te perdôo, meu irmão!’ Eu chorei, “Com todo meu coração.”

Por um longo momento nós seguramos as mãos, o antigo guarda e a antiga prisioneira. Eu nunca havia experimentado o amor de Deus tão intensamente como naquele momento. Mas mesmo assim, eu percebi que não era meu amor. Eu havia tentado, e não tive a força. Era o poder do Espírito conforme registrado em Romanos 5:5.”

Como José, Corrie absorveu o custo. Em termos humanos, ela tinha o direito de carregar um ressentimento monumental. Ela desafiou suas emoções a fim de consciente e dolorosamente abrir mão do que ela tinha contra ele. Isso não era nenhum doutrina do tipo “sinta-se bem com o perdão automático”. O sentimento veio somente depois que ela deliberadamente escolheu e agiu, assim como o rio Jordão só se abriu depois que os sacerdotes molharam seus pés na água (Js 3:15-16).

Pode ser excruciante perdoar depois que aqueles que nos ofenderam demonstram arrependimento; imagine o quanto mais difícil não é para Deus oferecer perdão antes de nós querermos nos arrepender, enquanto ainda causamos as feridas de traição.

Assim como a carcassa da oferta de purificação expiar pela comunidade era incinerada fora do acampamento (Lv 4:21), também Cristo sofreu rejeição, reprovação e agonia fora de Jerusalém, a fim de prover perdão para os outros. Qualquer abuso que nos seja causado como um resultado de termos nos identificado com ele para aceitar a restauração que Ele oferece não é nada em comparação ao que Ele pagou por nós (cf. Hb 13:11-13).

Abrindo mão do fardo

Quando o Senhor aceitava uma oferta de purificação e concedia o perdão, o pecador não mais carregava o fardo do mal. Testemunhando o sangue e a fumaça, o ofertante sincero poderia ter certeza de que seu relacionamento com Deus estava restaurado.

“Quanto mais, então, irá o sangue de Cristo, que através do Espírito eterno se ofereceu imaculado a Deus, purificar nossas consciências dos atos que levam a morte para que sirvamos ao Deus vivo!” (Hb 9:14)

Como retrata John Bunyan:

“Ele correu até chegar em um certo lugar, uma subida. E lá em cima estava uma cruz, e um pouco embaixo, na base, um sepulcro. Então eu vi em meu sonho que assim que Cristão se deparou com a cruz, seu fardo se fogueou e se soltou de seus ombros e caíram de suas costas. Ele começou a rolar e continuou até chegar à boca do sepulcro, onde caiu, e eu nunca mais o vi.”

Quando confessamos nossos pecados Deus os lança no mais profundo oceano, sumido, para sempre. E então é como se Deus colocasse uma placa dizendo, “É proibido pescar”.

Cristãos melancólicos e se alegria fariam bem se perguntar se falharam em deixar seu fardo rolar monte abaixo. Se a resposta for sim, é tempo de subir o monte novamente, dar uma nova olhada na cruz e deixar seu fardo rolar até o sepulcro de uma vez por todas.

Culpa corporativa

Levítico 4 nos ensina sobre a complexidade da culpa corporativa: o fato de que todos são culpados não absolve um grupo grande da responsabilidade de retificar suas falhas morais.

Isso deveria parecer óbvio, mas não é, em uma sociedade em que nós justificamos nossos erros com a ideia de que todos estão fazendo. O problema é que a história bíblica e secular nos mostra que o preço da culpa corporativo é pago de uma forma ou de outra – se não construtivamente, então descritivamente.

A menos que nós às vezes reconheçamos que temos falhado como comunidade, nós certamente seguiremos o caminho dos Filisteus, dos Assírios e dos Babilônios.

Referências

Gane, R. (2004). The NIV Application Commentary. NY: Zondervan.


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