Exposições de Levíticos: Oferta de Reparação (Lv. 5:14-6:7)

Sob algumas circunstâncias, um Israelita deveria oferecer um tipo de sacrifício chamado de “oferta de reparação”.

Essas ofertas eram diferentes das ofertas de purificação pois eram exigidas no caso de ofensas que criavam débitos literais e quantificáveis, que exigiam uma restituição, se possível.

Nesse trecho de Levítico, nós temos três situações quando uma oferta de reparação se faz necessária.

As duas primeiras têm a ver com o uso inapropriado de propriedade sagrada.

No primeiro caso (5.14-16), o Israelita viola o limite da santidade se apropriando de algo que pertence ao Senhor, inadvertidamente. Isso aconteceria se ele comesse o que há havia sido dedicado como dízimo da terra, por exemplo. Antes de a oferta de reparação ser executada, o pecador precisava restituir o valor apropriado indevidamente acrescido de 20% para o Senhor, através do sacerdote. Por causa da seriedade do sacrilégio, a vítima da oferta de reparação sempre é um carneiro, o animal mais valioso exigido de um homem do povo.

O segundo caso (5.17-19) é impressionante. O pecado referido também é uma violação inconsciente de algum mandamento proibitivo do Senhor, que permanece inconsciente. A oferta de reparação é exigida ainda que o pecado permanece coberto para o pecador. A forma do verbo traduzido como “incorreu em culpa” no v. 17, indica que o indivíduo ignorante tem algum tipo de experiência negativa (sofrimento, dor, etc) envolvendo peso na consciência associado com as consequências do pecado – o que sugere que algo não está bem no relacionamento divino-humano. Além desse vago impulso, o pecador não tem ideia do que houve. Então como ele sabe que o pecado é um sacrilégio e requer uma oferta de reparação? Ele não sabe. E também não sabe que não é um sacrilégio. Então, para cobrir qualquer situação, ele oferece o sacrifício que cobriria a pior possibilidade: a oferta de reparação. Entretanto, sendo impossível fazer uma restituição anterior ao sacrifício, esse requisito é posto à parte.

O terceiro caso (6.1-7) fala sobre o uso inapropriado da propriedade de outro ser humano (e a Bíblia não se refere a esse pecado como sendo inadvertido, inconsciente), envolvendo engano, mentira e descumprimento de votos ou responsabilidades.

A chave para entender essa passagem é o fato de que o trecho “e ele jurar falsamente” não se refere a um erro separado. Em vez disso se aplica a todos os casos precedentes: o ofensor não só lesou seu próximo, mas negou sob juramento. É assumido que no Antigo Oriente Próximo o queixoso poderia sempre exigir que o criminoso suspeito fosse colocado sob juramento. O sacrilégio contra o Senhor é, portanto, completamente clarificado: o Senhor foi tornado cúmplice na defraudação do homem através do juramento mentiroso.

Um pecador que lesou tanto um homem quanto Deus de tal forma, precisa restituir a ofensa fazendo reparação para a parte humana (incluindo a adição de 20%) e oferecendo um carneiro como uma oferta de reparação ao Senhor. O sacrifício pode expiar o pecado, mas não substitui o cumprimento de um dever.

Alguns princípios que perduram

  1. Os melhores esforços humanos para resolver os problemas causados pelos erros morais são inadequados. O pecado cria um tipo de débito relacional cujo preço não pode ser pago por nenhuma restituição terrestre que nós venhamos a oferecer. É por isso que um Israelita precisava oferecer um sacrifício mesmo após restituir o dano causado. Nossa única esperança é olhar para o sacrifício de Deus para consertar aquilo que nós quebramos.
  2. Deus se preocupa com Seu nome. O fato de que alguém que defraudasse seu próximo através de um falso juramento devesse apresentar um sacrifício mostra que Deus tem certa preocupação em proteger sua reputação (cf. Ex 20:7). Em um sentido mais amplo, tudo que nós fazemos afeta a reputação dele, porque pertencemos a Ele somos chamados pelo Seu nome. Não é difícil entender a razão dessa preocupação – a reputação dEle é essencial para a missão de salvar. Somente quando as pessoas veem que o caráter de Deus é amor, conforme ele proclama (Ex 34:6-7; 1Jo 4:8), é que elas irão querer interagir com Ele e permitir que esse amor governe suas vidas.
  3. Nós somos responsáveis perante Deus pelas coisas que dedicamos a Ele.Se usamos inapropriadamente algo sagrado, como dízimos ou ofertas, devemos restaurar o que pegamos. A Bíblia mostra que só devolver não é o suficiente, mas que era necessário dar um quinto a mais e oferecer um carneiro. Qualquer um inclinado a dizer que hoje em dia não precisamos demonstrar tamanho cuidado com as coisas sagradas deveria ler novamente a história de Ananias e Safira (At 5:1-11).
  4. Não devemos esperar a aceitação e o perdão de Deus por lesar alguém até que tenhamos feito tudo em nosso poder para consertar as coisas. Jesus afirmou isso de forma maravilhosa (Mt 5:23-24). O perdão através dEle não é uma forma barata de se livrar das nossas obrigações em relação aos outros. Pelo contrário. O perdão de Deus empodera nosso senso de dever e nosso desejo de restaurar relacionamentos. Zaqueu entendeu isso (Lc 19.8).
  5. Nós podemos abrir mão de nosso sentimento de culpa e entregá-lo a Deus.Muita gente sofre de ansiedade em nosso tempo. Essa talvez seja a doença mental mais comum nesse século. E frequentemente a causa é desconhecida, deixando aqueles sentimentos de culpa, angústia e a preocupação ainda mais amargos. Mas Lv 5:17-19 provê o povo de Deus com uma solução: eles podem se libertar do fardo da suspeita de culpa entregando-o a Deus.
    Uma pessoa que se angustia por não saber o que confessar não é obrigada a descobrir tudo. Não há necessidade de regressão para se lembrar de todos os pecados do passado. O Espírito de Deus revelará o que for necessário. Qualquer coisa que permaneça inconsciente, embora tenha ocorrido, pode ser entregue a Deus, porque, ainda que não saibamos confessar, “o Espírito de Deus nos ajuda em nossa fraqueza. Não sabemos pelo que orar, mas o Espírito intercede por nós com gemidos que palavras não podem expressar” (Rm 8:26)

Referências

Gane, R. (2004). The NIV Application Commentary. NY: Zondervan.


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