Exposições de Levíticos: A Inauguração do Sacerdócio (Lv 8)

Nos capítulos 1-7, Deus deu as instruções mais essenciais sobre a forma como seu povo se relacionará com ELe. Terminadas essas instruções, o santuário é inaugurado e o sacerdócio araônico é estabelecido. Portanto nessa seção (Lv 8-10), vem a cerimônia de ordenação, o primeiro ofício dos sacerdotes e um desastroso evento logo em seguida.

O capítulo 8 descreve as cerimônias pelas quais o santuário e o seu sacerdócio foram consagrados e os sacerdotes, ordenados. Moisés oficiou e os candidatos sacerdotais tivera o papel de ofertantes. Em Levítico 9, Arão e seus filhos desempenham os primeiros sacrifícios na capacidade oficial de sacerdotes. Para mostrar sua aprovação, o próprio Deus completou os sacrifícios enviando fogo para consumi-los no altar. Levítico 10 quebra essa glória rudemente. O fogo milagroso havia acabado de acender o altar quando dois filhos de Arão cometem uma transgressão ritual fatal.

Estrutura do capítulo 8

A descrição da consagração no capítulo 8 cumpre a prescrição detalhada dada em Êxodo 28. Nós podemos delinear o capítulo da seguinte maneira:

Preliminares:

  • Moisés ajunta o povo, o óleo da unção, a cesta de pães, o touro, dois carneiros, as roupas sacerdotais, Arão e seus filhos na frente do tabernáculo (v.1-5);

Unção:

  • Moisés lava Arão e seus filhos (v.6);
  • Moisés veste Arão (v.7-9);
  • Moisés unge o tabernáculo e tudo lá dentro (v.10-11).
  • Moisés unge a cabeça de Arão (v.12; cf. Salmos 133.2);
  • Moisés veste os filhos de Arão (v.13);

Sacrifícios:

  • Moisés oferece o touro como oferta de purificação pelo altar (v.14-17);
  • Moisés oferece o primeiro carneiro como oferta queimada (v.18-21);
  • Moisés oferece o segundo carneiro como oferta da ordenação (v.22-29);

Unção:

  • Moisés asperge óleo e sangue nas veste de Arão e seus filhos, consagrando-os (v.30);

Conclusão:

  • Moisés dá instrução sobre a semana da ordenação (v.31-36).

Alguns pontos a serem destacados:

Unção

Os sacerdotes também recebiam o óleo da unção (v.30), mas a unção sobre a cabeça de Arão era especial (v.12; cf. Ex 29.7), de forma que cada sumo sacerdote que sucedesse ele poderia ser chamado de “sacerdote ungido” (cf. Lv 4.3).

Sacrifícios

O primeiro sacrifício foi uma oferta de purificação, oferecida em favor dos sacerdotes (demonstrado pelo fato de que Arão e seus filhos impõe a mão sobre a cabeça do animal). Entretanto, esse sacrifício era excepcional porque o principal objetivo era purificar o altar da oferta queimada (v.15). O restante da oferta foi queimado fora do acampamento em vez de ser comida por Moisés (v.17), dado que ele não era um sacerdote qualificado para comer de sacrifícios.

O terceiro sacrifício foi único no evento da ordenação. Ele simbolizava a separação para o serviço e a autorização divina para preencher uma função oficial. A expressão traduzida como ordenação (h. millu’im) se refere literalmente a “ter a mão preenchida com as ferramentas ou emblemas de uma profissão”.

O sacrifício da ordenação tem fortes afinidades com a oferta de paz. Parte do fato de ele também ser um aroma suave, um “presente de comida” (h. ish’esh), Moisés manteve suas porção por oficiar (v.29), os ofertantes comeram a carne remanescente (v.31-32) e o sacrifício envolvia grãos especiais como a oferta de gratidão (v.26, cf. 7.12).

Dois aspectos da oferta de ordenação a tornavam única:

  1. Antes de aspergir o sangue nos lados do altar, Moisés colocou um pouco de sangue no lóbulo da orelha de Arão, no seu polegar direito da mão e do pé. E fez o mesmo com seus filhos. O sangue tocava somente as extremidades, mas afetava o todo.

Por que nesses lugares? O texto não diz, mas faz sentido que o servos de Deus estariam agora ligados em um pacto de sangue com Deus, numa questão de vida ou morte, para ouvir e obedecer o que ele mandasse (orelha – em Ex 21.5-6, por exemplo, um servo teria sua orelha furada para simbolizar que obedeceria ao seu Senhor pelo resto de sua vida), fazer a vontade dEle com suas mãos (polegar da mão direita) e ir aonde Ele mandasse (polegar do pé direito).

  1. Antes de tornar a oferta em fumaça, Moisés coloca a parte de grãos com azeite sobre o altar, retira parte do sangue misturado com o óleo e asperge sobre os sacerdotes, demonstrando que o sacrifício pelo pecado precisa estar unido da unção do Espírito Santo.

7 dias

Para completar esse ritual de passagem, os sacerdotes precisariam ficar separados durante 7 dias. Esse elemento de tempo, visto também no processo da criação e em outras transições rituais, como na purificação de impurezas severas (v. Lv 12, 14-15), era essencial para a elevação de status.

Além do mais, o serviço de Deus não pode ser realizado sem separação – não é possível servir em amor sem que esse amor seja extraído direito da fonte. E isso requer tempo com Deus.

A ordenação nos tempos atuais

Quando Moisés transferiu parte de sua autoridade para Josué, ele não o vestiu de maneira especial ou o ungiu com óleo; em vez disso, ele impôs suas mãos sobre ele e o comissionou (literalmente “enviou/responsabilizou”) perante o sumo-sacerdote e toda a congregação. Deuteronômio 34:9 declara o resultado: “E então Josué, filho de Nun, se encheu do Espírito de sabedoria porque Moisés impôs suas mãos sobre ele”. O comissionamento de Josué intensificou o dom espiritual de um homem já espiritual.

No Novo Testamento, nós tendemos a pensar na “ordenação” de líderes da igreja de forma semelhante ao comissionamento de Josué, que não era um sacerdote. Em At 6, os seguidores de Cristo escolhem 7 homens que eram cheios do espírito e de sabedoria, para servirem como diáconos (At 6.3). Os apóstolos então oraram e colocaram suas mãos sobre eles (At 6.6). O mesmo é feito com Paulo e Barnabé, ao serem enviados para a missão (At 13.2-3).

Dessa forma, vemos que a imposição de mãos:

  1. Reconhece que as pessoas são espirituais;
  2. Responsabiliza (comissiona) essas pessoas para um trabalho especial como representantes de Deus;
  3. Invoca o Espírito de Deus para prover sabedoria e poder para seu ofício.

O sacerdócio e a terceirização do ministério

Nos tempos do Antigo Testamento, reis e sacerdotes eram ungidos com óleo, como um sinal de que eram escolhidos e autorizados pelo Senhor a preencher papéis especiais de liderança. O termo hebraica masiah (traduzido como Messias ou Cristo, que significa ungido), pode se aplicar a sumo sacerdote ou a um rei (Lv 4.3; 1Sm 2.10).

No Novo Testamento, uma unção especial para o ministério é reservada para o Sacerdote-Rei divino (Hb. 4.14-16; cap. 7-10) . Próximo do início de seu ministério, Jesus citou Isaías 61 com referência a si mesmo “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para pregar as boas novas…” (Lc 4.18). Dado que ele disse que o Espírito já o havia ungido, ele provavelmente se referia ao que havia acontecido em seu batismo, quando o Espírito Santo desceu sobre Ele. Perceba o paralelo entre o batismo de Jesus e a unção do Espírito e Lv 8, onde Arão é purificado por água e depois recebe uma unção especial.

Há um sentido no qual os cristãos são ungidos como sacerdotes (1Pe 2.9). João escreve que nós recebemos a unção do Espírito (1Jo 2:20), assim como Paulo (2Cor 1:21-22).

Além disso, o procedimento de ordenação dos sacerdotes também é uma ilustração perfeita para a forma como um cristão é aceito no corpo de Cristo, para fazer parte do sacerdócio real: lavagem com água, vestir-se com as vestes brancas e por fim a unção. Da mesma forma, todo cristão precisa ser purificado pelo batismo, receber as vestes da justiça de Cristo e a constante santificação do Espírito.

Dessa forma, nós sabemos quem é o Sumo-Sacerdote e quem são os “sacerdotes” em nossos tempos: Jesus e todos nós, sem distinção alguma de raça, idade, sexo ou tempo de casa.

Os sacerdotes do Antigo Testamento tinham suas atribuições muito claras:

  • Ele liderava a adoração (Lv 1-7, 9);
  • Mediava a interação entre Deus e o povo ( Nm 16.46-47);
  • Ensinava e julgava de acordo com a instrução divina ( Lv 10.10-11);
  • Administrava as coisas religiosas (Lv 27) e;
  • Servia como exemplo de santidade para a comunidade (e.g. Lv 21).

Os cristãos após o advento de Jesus não são sacerdotes no mesmo sentido exato que os filhos de Arão, mas a responsabilidade de representar Deus e cumprir com as responsabilidades do sacerdócio real expandido a todos os crentes (análogas às responsabilidades do sacerdócio araônico, delineadas acima), continua sendo solene e necessária.

Embora alguns cristãos sejam escolhidos para posições especiais de liderança, no sentido mais básico e essencial, cada membro da comunidade de Deus é um ministro aos outros:

“De acordo com Pedro, todos cristãos pertencem ao sacerdócio. No Novo Testamento, a igreja não possui um sacerdócio, – ela é um sacerdócio.

(…) o ministério não é somente o direito e privilégio de cada crente do Novo Testamento – é um resultado natural de ser um cristão. A igreja do Novo Testamento não poderia nem imaginar um cristão que não era envolvido no ministério. Isso era inerente na teologia dos primeiros cristãos. Esse era o direito e privilégio de todos eles por causa da morte de Jesus por eles.” (R. Burril, Revolution in the Church)

É importante respeitar nossos ministros como agentes especiais de Deus. Mas ao mesmo tempo, precisamos afirmar também o sentido mais amplo no qual todo crente é um ministro.

O problema é que em nossa cultura nós absorvemos uma postura de consumo no nosso relacionamento com Deus e com o corpo cristão. Através de nossos dízimos e ofertas nós “patrocinamos” o “serviço” de adoração, para sermos bem servidos com a música e a pregação. Nós terceirizados aos ministros e pastores nossa responsabilidade de estudar, aprender a Bíblia e expandir o reino de Deus.

Ao assumirmos que somente o pastor foi delegado ao ministério, reduzimos a força de trabalho do evangelho para um. E então amarramos essa única força a nós, para servir nossas necessidades, de forma que ela fosse reduzida a zero! Com essa atitude egoísta, paralisante, a causa do evangelho poderia ser melhor servida se a igreja não tivesse um pastor! Então pelo menos aprenderiam a ter uma maior interação com os outros, aprendendo a servir.


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