Exposições de Levíticos: O Fracasso Sacerdotal (Lv 10)

“O melhor dos tempos; o pior dos tempos”. E assim começa o clássico de Charles Dickens, O Conto das Duas Cidades. O mesmo poderia ser dito sobre Levíticos 9-10, passando da aceitação espetacular de Deus para a rejeição dos dois filhos de Arão – ambos pelo fogo.

Para consternação dos intérpretes, que imaginaram uma variedade de cenários, o texto bíblico não provê detalhes a respeito das circunstâncias ou motivações dos dois sacerdotes. Só é dito o suficiente para deixar claro que a ofensa fora queimar incenso ao Senhor com fogo não autorizado (“estranho”). Esse fogo deve ter consistido de brasas vivas de uma outra fonte que não o altar exterior que o próprio Senhor havia acendido (cf. Lv 16.12, Nm 16.46).

Em resposta à morte de seus sobrinhos, Moisés comunicou a interpretação divina do evento à Arão. A declaração solene e ambígua de Deus foi proferida com um paralelismo poético:

“Através daqueles que estão perto de mim, Eu me mostrarei santo, e perante todos os povos, serei glorificado.” (10.3)

Aqueles que estão perto de Deus, são aqueles que se aproximam para oferecer sacrifícios: os sacerdotes. Nesse tipo de contexto, o adjetivo perto (h. qarob) se refere a um oficial que pode ter acesso à um soberano diretamente, sem precisar de um intermediação (Ez 23.12, Et 1:14). A conclusão é: o Senhor se mostrará Santo através dos sacerdotes: seja pela cooperação com Ele, ou como no caso em questão, pela execução de Seus julgamentos (cf. Nm 20.13, Ez 28.22; 38.16). Nada que borrasse a verdadeira pintura de quem Deus é poderia ser permitido.

Os restos de Nadab e Abihu não poderiam ser deixados onde eles haviam caído. Então Moisés chama dois levitas não sacerdotes para carregá-los da área em frente ao santuário para um lugar fora do acampamento.

Para prevenir a má representação de Deus e sua associação com a morte, o Senhor ordena Arão e seus filhos que se abstenham do ritual de luto, que envolvia desgrenhar os cabelos e rasgar as roupas. Por conta de sua consagração, os sacerdotes e suas vestes pertenciam à esfera sagrada que não deveria ser associada com a morte de forma alguma.

A despeito da tragédia, Moisés buscou garantir que os sacerdotes sobreviventes completariam os sacrifêcios inaugurais em favor do povo, comendo suas porções, que funcionavam como comissões do agente oficiante (10.12-18). A vida precisa continuar. Mesmo o luto e a dor pessoal precisam ser segurados para que a comunidade possa ser servida. Mas Moisés descobre que em vez de comer apropriadamente o restante da oferta de purificação em favor do povo (cf 9.15), os sacerdotes haviam incinerado tudo, como as ofertas em favor de si mesmos (10.11). Sem dúvidas ele deve ter suspeitado que Eleazar e Ithamar foram descuidados como seus irmãos. Será que não conseguem fazer nada certo?

Mas então foi a vez de Arão falar (10.19-20) e Moisés não teve nada mais a dizer. A abstinência de comer da carne não foi um erro descuidado, mas uma escolha baseada em reflexão sacerdotal a respeito das implicações do pecado de Nadab e Abihu. Os sacerdotes não poderiam carregar a culpa de outros no mesmo dia em que haviam caído sob a condenação divina. E a aprovação de Moisés implica que o sacrifício permaneceu válido, mesmo afastando-se da norma.

Um péssimo consolador?

S. Karff comenta sobre a inadequação de Moisés como consolador de Arão em Levíticos 10. Entretanto, a história dessa situação altamente excepcional e perigosa não é um exemplo para se falar sobre atenção às necessidades emocionais das pessoas em tempo de angústia. Imagine por um momento o atentado contra as Torres Gêmeas naquele fatídico 11 de setembro. Imagine agora um chefe de polícia seguindo um plano rigoroso para salvar o máximo possível de pessoas. Mas alguns de seus subordinados fogem do plano e acabam morrendo debaixo de escombros. Será que nós criticaríamos esse chefe de polícia por gritar ordens para continuar o plano de resgate em vez de oferecer palavras de conforto para sua equipe? A intensa reação de Moisés em Levíticos 10 reflete a severidade da situação. O sistema do santuário, que era essencial para o bem estar de toda nação, estava ameaçado antes mesmo de ter sido completamente inaugurado.

A persistência divina

Deus havia acabado de acender o fogo do altar, simbolizando sua presença entre o povo (9.23-24) e o exato verso seguinte já retrata a violação de Nadab e Abihu. A gravidade da ofensa deles foi amplificada pela grandeza do privilégio que possuíam. Como filhos mais velhos de Arão (cf. Num 3.2), suas posições de liderança religiosa estavam abaixo somente de Moisés e Arão.

Mas o impressionante é como o fracasso deles se encaixa perfeitamente no padrão que corre através das Escrituras: Adão e Eva caíram não muito depois de Deus ter inaugurado o mundo perfeito; Noé se embebeda logo depois de Deus ter estabelecido uma aliança com ele; o povo de Israel se vira para a idolatria logo depois de ter sido libertado da escravidão por Deus (e enquanto Moisés recebia a lei de Deus).

Mas o padrão continua. No Novo Testamento, vemos os discípulos abandonando Jesus e Pedro negando-o logo depois de celebrarem a ceia da nova aliança. Não estamos falando de pequenos eventos aqui, mas sim do fracasso de pessoas que participaram do estabelecimento de importantes fases da aliança de Deus com seu povo. A mensagem da Bíblia é que Deus persiste nos Seus planos de salvar os seres humanos a despeito de suas falhas, deixando de lado seu direito de simplesmente anular a Aliança. Não há como atribuir essa graça a nada além do seu caráter misericordioso, que Ele mesmo proclamou a Moisés no Monte Sinai, logo depois do episódio do bezerro de ouro.

Entretanto, indivíduos podem sempre escolher removerem-se da zona de benefício da Aliança. Assim, embora Deus não tenha retirado sua presença do santuário ou invalidado os sacrifícios pela comunidade, quando Nadab e Abihu violaram seu ofício sagrado, eles foram removidos sumariamente da sua posição.

Servindo com distinção

Nos textos antigos, nós encontramos bebidas alcoólicas inclusas nas refeições oferecidas aos deuses. Em Enuma Elish, o épico babilônico da criação, os grandes deuses se ajuntam para um banquete no qual eles fazem uma decisão bem “lubrificada” de exaltar Marduk sobre os outros deuses:

“Com doce licor eles fizeram suas gargantas correr,

Sentiram-se bem bebendo cerveja.

Despreocupados seus espíritos se ergueram,

E a Marduk seu campeão eles ordenaram o destino.”

Não há contraparte desse cenário quando se trata do Deus de Israel. De fato, em 10.9 ele proíbe estritamente o consumo de bebidas alcoólicas pelos sacerdotes quando entram em seu santuário. Não há evidências de que Nadab e Abihu estivessem bêbados ou mesmo dentro do tabernáculo. Mas a preocupação de Deus é clara: eles falharam em fazer distinção entre o sagrado e o comum e esse regulamento ajudará a garantir que isso não aconteça. Eles precisam manter a mente sóbria, para que consigam andar sobre linha reta que separa o sagrado e o comum, o puro e o impuro, além de ensinar as instruções de Deus para o povo.

Um sacerdote bêbado no santuário iria simplesmente morrer. Os motivos do seu coração são simplesmente irrelevantes. Histórias como essas parecer chocantes para cristãos que cresceram com o “Jesus gentil, manso e suave”. Mas esse mesmo Jesus explodiu em ira justa e usou um chicote para expulsar do templo aqueles que estavam profanando o Quartel General da Graça.

Carregando o fardo dos outros

O significado das palavras de Moisés para Arão em Levíticos 10.17 é intrigante. Mas nós podemos tirar duas conclusões, considerando todas as evidências: (1) comer parte da oferta de purificação era uma compensação pelo serviço prestado (a “comissão do agente”) e (2) essa participação de alguma forma contribuía para a expiação.

De que formas a atividade sacerdotal de comer a carne da oferta de purificação servia ao objetivo da expiação? O verso nos informa que o sacerdote participava intimamente no processo através do qual Deus estendia misericórdia aos pecadores, carregando representativamente a iniquidade dos ofertantes, que será removida no dia da expiação.

Aplicação: A Sensibilidade de Novos Relacionamentos

Relacionamentos novos podem ser facilmente danificados. E Deus sabia disso. Em Levíticos 8 e 10 nós vemos que Deus definiu algumas proteções em volta do seu novo relacionamento com os israelitas. Por exemplo, os sacerdotes não sairiam do santuário no tempo determinado, Nadab e Abihu foram rapidamente disciplinados antes que pudessem causar dano a toda comunidade e os sacerdotes sobreviventes deveriam representar Deu apropriadamente perante o povo, mesmo em meio a dor do luto.

Esse fardo estava primariamente sobre os líderes religiosos, cujas ações e atitudes moldariam a percepção do povo a respeito de Deus. Obviamente, nossas estratégias para proteger o relacionamento das pessoas com Deus precisam ser diferentes daquelas em Levíticos 8 e 10. Entretanto, como nos dias de Nadab e Abihu, o princípio permanece: aqueles que modelam as percepções que os outros têm de Deus precisam ter consciência da sua influência.

A história sagrada deixa evidente que os efeitos causados por um ofício sagrado mal utilizado e abusado são desastrosos. A verdade, a Bíblia, o ministério e as ordenanças de Deus desdenhadas. A irreverência nasce no coração.

Na igreja, a responsabilidade de cuidar dos novos relacionamentos com Deus não recai somente nos ombros daqueles que estão em posições oficiais de liderança. Todos tem seu papel. Como nós tratamos os Pedros, as Marias Madalenas, os Nicodemos, Judas e Tomés em nosso meio? De vez em quando farêamos bem em reler os Evangelhos com essas perguntas em mente, analisando como Jesus fez isso.

Paulo advertiu: “Tenham cuidado, entretanto, para que o exercício da sua liberdade não se torne uma pedra de tropeço para o fraco” (1 Co 8.9). Jesus concordou com esse pensamento, mas a forma forte e vívida que ele ensinou a responsabilidade pela sensibilidade daqueles que são mais vulneráveis é muito mais parecida com Levíticos 10 (cf. Mt 18.5-6).

A responsabilidade de preservar o julgamento claro

Em 1982 um jovem que estava bêbado e drogado não percebeu uma curva na rodovia 580 perto de São Francisco. Seu carro bateu de frente em um outro que vinha na direção oposta, que foi lançado com violência pelo ar, batendo no teto de um Datsun B-210 vindo atrás, em outra faixa. O Datsun sofreu um solavanco, parou e Roy Gane (o autor desse comentário) e sua esposa conseguiram sair do carro com uma concussão e uma costela rachada. Mas o outro carro que ia a sua frente não teve a mesma sorte. A motorista morreu instantaneamente e suas duas filhas sofreram danos graves, como rostos desfigurados e uma espinha rompida. Toda essa carnificina resultou da irresponsabilidade de uma pessoa que escolheu se intoxicar.

Há diversas maneiras de comprometer a habilidade cerebral de controlar o julgamento racional: químicos, falta de sono, dieta pobre, falta de exercícios, estresse e várias outras. Nós deveríamos buscar manter a nossa clareza mental como uma questão de bom senso, no mínimo. Mas para líderes espirituais, a vara é mais alta. Suas ações, decisões, atitudes, palavras e vidas espirituais pessoais, que requerem o uso dos seus cérebros e sistemas nervosos, podem afetar os destinos eternos das pessoas dentro das suas esferas de influência.

Carregando os fardos uns dos outros

Já que os sacerdotes devem carregar os fardos daqueles a quem eles servem e os Cristãos são chamados a serem um “sacerdócio real” (1 Pe 2.9), não é surpreendente que Paulo diga: “Carreguem os fardos uns dos outros, e dessa forma vocês cumprirão a lei de Cristo” (Gl 6.2). Nós não podemos carregar os fardos dos outros de uma maneira absoluta e substitutiva como Cristo fez para nos conceder o perdão. Mas, embora nós não carreguemos literalmente os nomes das tribos sobre nossos corações, como Arão quando ministrava perante o Senhor, nós podemos metaforicamente carregar em nossos corações os nomes de nossos membros familiares, amigos, colegas de trabalhos e assim por diante. Ao servir os outros e interceder por eles em oração, nós temos o privilégio de auxiliar a Cristo em seu ministério sacerdotal.


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