Cristãos do século XXI deveriam deixar de comer carnes “impuras”? Parte 1/2

Antes de abordar diretamente essa questão, precisamos tirar duas pedras do caminho:

1. O Reino de Deus não consiste de comida e bebida (Rm 14.17). As proibições de consumo de alguns animais não foram dadas com o propósito de se “comprar” a salvação. Comer determinadas coisas ou se abster de determinadas coisas não transporta ninguém ao céu. Mas uma verdadeira religião de amor leva à escolhas certas nas questões do comer e do beber, porque essas coisas também refletem a glória de Deus na vida de um cristão (I Co 10.31; ver também I Co 6.19-20). O povo de Deus no Antigo Testamento recebeu as determinações dietéticas porque eram santos. Em Deuteronômio isso é claramente demonstrado: “Vocês são filhos do SENHOR, seu DEUS … vocês são um povo santo ao SENHOR, seu DEUS …” (14.1-2) e então “… esses são os animais que vocês podem comer …” (14.3). Essa é a sequencia correta e unicamente apropriada: primeiro vem a graça de Deus e então Ele provê Suas instruções sobre como viver em santidade.

2. As Leis Mosaicas formam um mosaico. Seria muito danoso se nós jogássemos fora todas as leis mosaicas foram simplesmente porque elas estão presentes no Pentateuco/ Antigo Testamento. Embora Deus tenha estabelecido uma nova aliança com Seu povo, existem muitos elementos de continuidade da antiga aliança. Existem diversos exemplos de leis que os Cristão aceitam, ainda que elas tenham sido proclamadas na legislação mosaica, como as leis contra idolatria, prostituição, homossexualidade, bestialidade e incesto (Lv 18-19). Os dois maiores mandamentos também foram retirados do Pentateuco: “Ame o Senhor, teu Deus, com todo seu coração” (Dt 6.5) e “amem seu próximo como a ti mesmo” (Lv 19.18). Então o cheque de 1 milhão de dólares vai para aqueles que conseguem distinguir as questões cerimoniais que deixaram de vigorar com a morte de Cristo e outras determinações que ainda são um aspecto de santidade na vida de Cristãos regenerados.

Tendo essas duas considerações em mente, podemos prosseguir.

Duas grandes objeções são dadas contra a observância das Leis Dietéticas Mosaicas a respeito dos animais impuros: (1) seletividade arbitrária – somente uma impureza do Pentateuco é escolhida (a de animais) enquanto as outras são negligenciadas e (2) descontinuidade– o Novo Testamento explicitamente anula as leis dietéticas que distinguem animais puros de impuros. Dessa forma, os cristãos de hoje não têm obrigação de observar essas distinções obsoletas. Ambos argumentos são importantíssimos, e a menos que tenhamos certeza que não estamos sendo seletivos e que o NT não anula essas distinções, não poderemos manter uma posição realmente bíblica.

Portanto, a primeira parte tratará sobre os motivos pelos quais cremos que observar essas distinções não é seletividade e a segunda parte tratará sobre os motivos pelos quais cremos que o NT não descontinua essas distinções.

Seletividade ou consideração criteriosa?

(1) A taxonomia de Levítico 11 é construída sobre a visão geral da criação. Ela é compreensiva, no sentido de que descreve todo o reino animal nos mesmos quatro grupos de animais citados na descrição da criação (peixes, pássaros, animais terrestres e rastejantes), preenchendo as três esferas também citadas na criação (terra, água e ar). Além disso, nós vemos uma semelhança intensa na terminologia utilizada em Lv 11 e Gn 1: as formas dos substantivos (terra, água, mares, animais, pássaros, espécie), pronomes demonstrativos (esses, todos) e verbos (comer, separar, ser santo). Os termos em hebraico para “todos” por exemplo, aparecem 36 vezes em Lv 11 e 29 vezes em Gn 1.

Carmichael, professor de Literatura Comparativa da Universidade de Cornell, reconhece que “As criaturas marítimas e os pássaros das leis dietéticas e sacrificiais em Levítico 11:9-19 e Deuteronômio 14:9-20 têm uma relação fundamental ao quinto dia da criação.”

Isso nos aponta para o fato de que as distinções entre os animais impuros e puros são fundamentadas em aspectos essenciais da criação e não em questões cerimoniais.

(2) A origem das distinções apresentadas em Levítico são muitos mais antigas do que os outros tipos de impureza; elas são pré-Mosaicas. De acordo com Gênesis, essa distinção era conhecida antes mesmo do Dilúvio (Gn 7.2,8).

Interessantemente, nenhum detalhe é dado a respeito das características de animais puros ou impuros, deixando implícito que Noé conhecia essas distinções. Além do mais, a quantidade de animais puros possibilitaria o consumo humano, ao contrário da quantidade de animais impuros. E essa distinção também foi relevante para o sacrifício feito por Noé depois do dilúvio: ele ofereceu a Deus somente animais puros (Gn 8.20).

(3) Realizando um estudo comparativo de todos os diferentes tipos de impurezas mosaicas, considerando sua origem (conforme declarada na Bíblia), duração, isolação, ritos de purificação e sacrifícios nós vemos o seguinte:

Tipo de impureza Texto  Duração  Isolação Ritos de Purificação Sacrifícios
Tocar cadáveres de animais Lv 5.2,6; 11.24-40 1 dia Não Sim Sim
Impureza prolongada Lv 5.1-13 x dias originais + 1 dia Não Não Sim
Impureza após o parto Lv 12.1-8 40 ou 80 dias Não Sim Sim
Comer o cadáver de um animal puro Lv 11.40; 17.15 1 dia Não Sim Não
Impureza relacionada à doenças de pele Lv 13.1-46 14 dias até a cura ou morte Não Sim Sim
Impureza pelo mofo na roupa ou casa Lv 13.47-59;14.33-57 7 dias + fogo ou 14 dias + fogo ou monturo Não Sim Sim
Impureza sexual Lv 15.1-33;18.19; 22.4 1 dia ou 7 dias até a cura + 7 dias Sim Sim Sim
Impureza por carregar o bode expiatório ou oferta pelo pecado Lv 16.26-28; Nm 19.7-10 1 dia Não Sim Não
Impureza da terra Lv 18.24-30; 20.22 Até a purificação ou vomitar da terra (expulsão) Não Sim Sim
Impureza por tocar cadáveres humanos Num 5:2-3;19.11-22 7 dias Sim Sim Não
Impureza dos animais Gn 7.2,3; Lv 11.1-47;20.25,26; Dt 14.3-21 Permanente Não Não Não

Esse estudo comparativo indica que os 11 tipos de impureza podem ser classificados em basicamente duas categorias: temporário ou permanente, que caracteriza unicamente as leis dietéticas. O tipo de impureza dos animais impróprios para alimento é permanente, e assim, natural, hereditária, não-cerimonial e universal, enquanto os outros tipos são adquiridos, temporários, rituais/cerimoniais. Um animal impuro nasce impuro e morre impuro e isso significa que ele não é apropriado para alimento. Isso fica explícito no paralelismo de Levítico 11.47: “Vocês devem distinguir entre o impuro e o puro, entre as criaturas vivas que podem ser comidas e aquelas que não podem.

(4) Existem seis fontes de impureza: cadáveres de animais, cadáveres de humanos, doenças de pele, mofo e descargas sexuais (sangue ou serem). Mas nenhum animal impuro vivo pertence ao grupo de “fontes de impureza” – eles, enquanto vivos, não contaminam, poluem ou transmitem nenhum tipo de impureza. Alguém poderia brincar com um porco ou montar num jumento e não ser excluído das atividades sociais e religiosas. Esse fato mostra que a impureza deles é de um tipo diferente.

(5) Não há provisão nenhuma para purificar os animais. Não existe remédio ou remoção para esse tipo de impureza. É impossível purificá-la ou removê-la, pois nenhum rito de purificação é provido para tal. Nem cozinhá-lo, sacrificá-lo ou esperar a ação do tempo irá purificá-lo.

(6) As leis dietéticas não têm relação com os serviços religiosos do santuário terrestre do Antigo Testamento ou a presença visível de Deus. Inclusive a repetição do código em Deuteronômio 14 está livre de conexões com regulamentos rituais. Não há cerimônia ou ritual prescrito quando a transgressão dessa distinção ocorre. Pelo contrário, o consumo desses animais pertence à categoria de pecados pelos quais não havia expiação, colocado ao pé de igualdade como ofensas morais de assassinato, infidelidade marital e idolatria .

(7) As distinções dietéticas são aplicáveis ao estrangeiro. De todo o corpo de impurezas de Lv 11-15, somente essas leis se aplicam ao estrangeiro através da “lei da caça” (Lv 17.13), reforçando o caráter universal desse código dietético.

(8) Embora Deus tenha permitido comer carne de animais, o homem ainda deveria ter reverência pela vida que ele tiraria. Essa é a razão para o mandamento “derrame o sangue” e a proibição contra ingerí-lo (cf Gn 9.4; Lv 17.11,14; At 15). A remoção do sangue é uma lição significante para a humanidade. O sangue é um símbolo de vida, que pertence ao Criador. A reverência pela vida é assim codificada. No princípio, uma dieta vegetariana é dada para animais e humanos, e no reino futuro de Deus as coisas serão assim novamente (Is 11.7). Assim, podemos concluir que o comer sangue também não é natural para animais e é uma transgressão da ordem dada por Deus na criação. Esse é o porquê todos animais carnívoros são excluídos da lista de animais comestíveis. Firmasse observa corretamente: “Diferente do restante do código das impurezas, as leis dietéticas valorizam o comportamento e portanto pertencem à categoria de imperativos morais”.

(9) A Bíblia Hebraica se preocupa com a saúde. Deus prometeu que se Sua voz fosse ouvida, as doenças trazidas sobre os egípcios não caíram sobre nós (Ex. 15.26). O homem foi criado como uma unidade. A antropologia Bíblica declara que um ser humano é uma alma vivente. De acordo com a criação, nós não temos uma alma, mas somos uma (Gn 2.7). Essa visão holística da humanidade tem a ver com santidade, já que santidade também tem a ver com inteireza em Cristo. Se vivemos para glória de Deus, devemos fazê-lo em todas esferas da vida – física, emocional, espiritual e social (1 Ts 5.23). Um dos resultados de respeitar as leis dietéticas Mosaicas aparece no domínio da higiene, da saúde. Alguns importantes estudos científicos demonstram que comer a carne de animais puros é mais saudável para o consumo humano do que se alimentar da carne de animais impuros

Essa comparação das evidências internas dos diferentes tipos de impurezas no Pentateuco demonstra claramente que escolher a impureza de animais e rejeitar as outras não é uma escolha arbitrária, mas uma interpretação criteriosa.Isso não significa, entretanto, que diversos princípios que fundamentam outras restrições de impureza não sejam mais relevantes para os Cristãos hoje em dia. Por exemplo, Cristãos não deveriam incluir quaisquer práticas sexuais na sua adoração.


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