Cristãos do século XXI deveriam deixar de comer carnes “impuras”? Parte 2/2

Alimentos impuros e o Novo Testamento

É verdade que o Novo Testamento anula o sistema cerimonial/sacrificial do Antigo Testamento porque ele era tipológico/simbólico por natureza. Na cruz, Jesus trouxe ao fim todo o sistema do santuário que apontava para Ele como seu cumprimento final ( Dn 9.27; Ef 2.15; Col 2.14; Hb 8.1-6; Mt 27.50-51). Entretanto, não há nada de tipológico ou simbólico na natureza das leis dietéticas mosaicas que distinguiam os animais entre puros e impuros, nada que apontasse para o cumprimento em Cristo, na Igreja ou nos eventos finais.

Para interpretar corretamente muitas passagens do Novo Testamento que lidam com esse assunto, é necessário levar em consideração as diferenças entre duas palavras gregas que representam dois diferentes conceitos: akathartos (“impuro”) que reflete o ensino do Antigo Testamento e koinos(“comum, ordinário, contaminado”), que por outro lado aponta para o conceito rabínico adotado em algum ponto do período intertestamentário (mais provavelmente no segundo século BC). Esse conceito é conhecido como “contaminação por associação”. Era crido que se algo puro tocasse algo impuro, aquilo que era puro se tornaria koinos (“contaminado, poluído, comum”).

Alguns textos usados para defender a descontinuidade desse regulamento

Marcos 7.18-19: Tradutores modernos falham em refletir o fato de que Jesus está se referindo a alimentos que são koinos (contaminados por associação), e não aos alimentos akathartos(impuros), porque a palavra akathartos não aparece nesse contexto.

Perceba bem o fluxo do contexto: no v. 4 os fariseus perguntam porque os discípulos não lavam as mãos para comer (o lavar as mãos não era uma determinação divina, mas um acréscimo da tradição judaica). Logo em seguida Jesus diz que a adoração deles era em vão porque ensinavam coisas de homens e não de Deus. Eles eram rígidos com sua tradição, mas não passavam de hipócritas cheios de maldade. Então Jesus diz que nada poderia tornar um homem koinos (esse ensinamento retorna em At 10).

É interessante notar que o trecho no final do verso 19, “Assim ele declarou todo alimento puro” (παντα τα βροματα κατηαριζον), se traduz literalmente como “todo alimento declarado puro” e está relacionado com a última frase, que fala sobre a digestão. Assim, a frase é uma construção irônica que se refere ao processo de digestão como purificador de todo alimento koinos que é processado pelo estômago.

Dessa forma, o foco do ensinamento de Jesus está no contraste entre as tradições dos homens (que eram acréscimos à lei) e a lei bíblica, demonstrando que a associação com as maldades do coração é a verdadeira contaminação que deve ser a principal preocupação. O mesmo pode ser dito sobre Mt 15.11, 17-20.

Atos 10: Que tipos de animais estavam no lençol da visão de Pedro? Se você pensou somente em vários animais impuros, a resposta está errada. O texto bíblico mostra que naquele lençol havia haviam animais impuros e puros também. Isso leva a uma pergunta crucial: Qual era o problema para Pedro? Ele poderia ter escolhido um animal puro, “matado e comido”, mas ele se negou.

“Mas Pedro disse: de maneira nenhuma, Senhor! Eu nunca comi nada profano (koinos) ou impuro (akathartos)!” (At 10.14)

F. F. Bruce está certo quando nota que ele “estava escandalizado com a mistura de animais puros com impuros; isso é de suma importância prática quando lembramos da forma na qual ele deveria imediatamente aplicar a lição da visão”

O real problema para Pedro era a associação de animais puros com impuros, caso contrário ele poderia pegar uma ovelha e prepará-la para comer. Pedro sentia que não poderia comer nada, pois mesmo os animais puros haviam se contaminado por associação com os impuros, um conceito que não tem apoio nas Escrituras (um animal impuro vivo nunca é fonte de impureza!) – essa era somente uma tradição rabínica. Deus pede a Pedro que pare de chamar de koinos (contaminados por associação) os animais que Deus fez puros. Em aplicação, isso significava que ele (judeu) devia parar de se considerar contaminado por associação com os gentios (At 10.28). Esse conceito também se desenvolveu no período intertestamentário – a interpretação simbólica dos animais, com os animais puros representando os judeus e o gentios sendo representados pelos animais impuros. Isso tinham implicações tremendas para a vida social deles, uma vez que precisavam ficar constantemente em alerta para não se contaminar pela associação com pagãos. Através da visão, Pedro foi ensinado que as barreiras sociais entre Judeus e Gentios haviam se partido, e não que a distinção bíblica entre animais puros e impuros havia sido anulada.

Atos 15: As restrições impostas no concílio de Jerusalém para os gentios conversos à fé cristã incluem se abster de animais estrangulados e sangue, mas nada é dito sobre carnes impuras. Admitidamente esse é um argumento baseado no silêncio. Respeito aos pais, cobiça e roubo também não são mencionados, por exemplo. Talvez essas distinções simplesmente não fossem uma questão que precisasse ser abordada no concílio. Mas alguns pontos precisam ser notados. As proibições determinadas para os novos crentes não-judeus no concílio de Jerusalém, refletem diretamente as leis universais de Lv 17-18, que eram determinadas sobre o estrangeiro (na mesma ordem: 1 – comidas oferecidas a ídolos em Lv 17.3-9, sangue em Lv 17.10-14, carne de animais estrangulados em Lv 17.15-16 e imoralidade sexual em Lv 18.1-30). À luz de Lv 17-18 como pano de fundo das determinações apostólicas, as distinções de carnes puras e impuras estão implicitamente incluídas.”Quando qualquer um dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros que habitam entre eles, numa caça, pegar um animal ou um pássaro que pode ser comido, ele derramará o sangue e o cobrirá com terra.” (Lv 17.13)

Os gentios conversos não deveriam comer sangue. Mas de quais animais? Daqueles que podem ser comidos. É quase redundante perguntar isso.

Romanos 14: Nesse capítulo Paulo está provavelmente endereçando problemas relacionados aos ascetas entre os Essênios ou confrontando o mesmo problema de Coríntios: carne oferecida a ídolos. Em Romanos 14.14-23, Paulo explica que a lei mais importante é a lei do amor. Ele declara que nada é koinos (“contaminado, ordinário”) em si mesmo. Ele não diz que nada é akathartos (“impuros”). O conceito por trás dessa declaração é a contaminação por associação. Nada se torna contaminado por associação com ídolos.

1 Coríntios 8.1-13 e 10.23-33: Paulo explica o foco do problema na igreja apostólica: “É permitido comer carnes oferecidas a ídolos ou não?” Essa questão de consciência lida com um tópico que não tem uma resposta direta das Escrituras. Paulo mantém a posição de que, já que os ídolos não são nada além de criações humanas, somos livres para comer a carne que foi oferecida a ídolos, contato que isso não seja feito num contexto de culto pagão. Sua preocupação é pastoral. Ele quer reforçar que o amor deve prevenir o mal uso desse conhecimento, em prol do irmão fraco.

1 Timóteo 4.1-5: Paulo estressa que a comida que foi criada para consumo humano e santificada por oração é apropriada para comida. O autor da epístola não está advogando comer nada! Ele está numa polêmica com ascetas agnósticos que desprezam a criação de Deus e têm atitudes negativas a respeito da matéria física sob a influência do pensamento e cultura grega.

Conclusão

Não há nada no Novo Testamento que, considerado em seu contexto apropriado, sugira que a distinção de alimentos puros e impuros foi abolida. Kilgallen apropriadamente declara:

“A mais simples suposição de que Jesus confrontou a declaração de Levítico e direta e explicitamente a cancelou, não é verificável.”

O conceito de santidade está presente como clímax tanto em Levítico 11 quanto no relato da criação: seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26,27) e devem imitar a Ele, sendo santos como Ele é santo (Lv 11.44-45). Como Milgrom nota, “santidade significa Imitatio Dei – uma vida de devoção”. Dessa forma, Deus cria, o homem nomeia; Deus separa os animais, o homem respeita a separação; Deus descansa no sábado, o homem o imita; Deus ama, o homem também – e assim por diante. O conceito de Imitatio Dei está no centro da existência humana.

Imitar a Deus é uma exigência recorrente. E a mesma voz de Levítico contém uma advertência forte para os Cristão do NT. É significante que a razão para Pedro nos chamar a ser santo (1 Pe 1:15-16) seja fundamentada pelo texto derivado da passagem que se refere às leis dietéticas Mosaicas (Lv 11.44-45).

Pedro chama todos Cristãos para terem uma vida santa citando Lv 11.44: “Mas assim como aquele que os chamou é santo, sejam também santos em tudo que vocês fazem” (1 pe 1:15-16). Assim, o objetivo da santidade para o povo de Deus continua como sempre foi. É claro que, aspectos de pureza e impureza ritual relevantes para interação com a santidade de um santuário terrestre não se aplicam mais, pois não temos mais um santuário na terra.

Eu faço distinção entre isso, porque entendo que isso faz parte de uma vida de santidade ao lado de Jesus, conforme o que a Bíblia ensina. Fora disso, a parte de um relacionamento pessoal com Jesus, nada dessas distinções têm valor. Nós não ganhamos o favor de Deus, a salvação ou qualquer outra coisa por comer certos alimentos e outros não. Isso é só uma expressão de fidelidade a Deus. Dessa forma nós vivemos para a glória dEle de uma forma mais consistente. O ordinário se torna extraordinário. Nossas mesas, tornam-se testemunhas silenciosas do nosso respeito pelo Criador e pelo sacrifício feito pela nossa salvação.

“Quer comais, quer bebais, ou qualquer coisa que fizeres, faça para a glória de Deus” (1 Cor 10.31)

“O sacrifício de Cristo como expiação pelo pecado é a grande verdade ao redor da qual todas outras verdades orbitam. A fim de serem corretamente compreendidas e apreciadas, cada verdade na Palavra de Deus, do Gênesis ao Apocalipse, precisam ser estudada à luz da cruz que jorra da Cruz do Calvário. Eu apresento perante vocês o grande e majestoso monumento da misericórdia e regeneração, salvação e redenção – o Filho de Deus pendurado na cruz. Essa deve ser a fundação de cada discurso proferido … “ – Gospel Workers, 1948, p. 315


O que você pensa sobre isso? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s