O Bode Para Azazel é um símbolo de Jesus? (Lv 16)

“Ele lançará sorte para os dois bodes – um para o Senhor e outro para Azazel.” – Levítico 16.8

Esse era o dia mais incrível do ano. Seu nome bíblico é yom hakkppurim, “o Dia da Purificação”, conhecido hoje como Yom Kippur ou Dia da Expiação. Através dos rituais, Deus transferia todos os pecados para o esquecimento absoluto – era a certeza de que o relacionamento divino-humano havia sido restaurado completamente.

Mas para isso, um dos animais, o “bode para Azazel”, “carregava” os pecados para o deserto. Seria ele um símbolo de Jesus, assim como todos os outros animais que morriam pelos pecados do povo?

No ritual do bode vivo (para Azazel), o sumo sacerdote, representando a nação, colocaria suas duas mão na cabeça do animal (Lv 16.21). Enquanto nessa posição, ele confessaria sobre o animal todas as “iniquidades dos Israelitas e todas suas transgressões, assim como todos seus pecados”, transferindo-os para o bode.

O ritual do bode vivo era único de duas maneiras:

  1. Era a única vez quando a imposição de mãos sobre um animal era desempenhada com as duas mãos. Em todos outros rituais animais, os Israelitas, incluindo o Sumo Sacerdote, usava somente uma mão para o gesto (e.g. Lv 1:4; 4:4,15,24,29).
  2. Somente no ritual do bode vivo a confissão era requerida simultaneamente com a imposição de mãos. Ao longo do ano, a confusão era exigida antes que algumas ofertas de purificação e reparação fossem trazidas ao santuário (Lv 5:5, Nm 5:7). De qualquer forma, a imposição das duas mãos não pode ter o mesmo significado que a imposição de uma única mão na cabeça do animal sacrificial para identificar o ofertante, pois o Sumo Sacerdote já havia identificado o novo dono como sendo “Azazel” ao lançar sortes (16.8) e esse não é um sacrifício. Uma vez na terra deserta, o bode não é morto, talvez para prevenir que os Israelitas o identificassem como um sacrifício para alguém que não fosse o Senhor (ver Lv 17). O procedimento com o bode vivo é um ritual de eliminação que transfere o mal para longe do povo e o despeja pelo abandono.

Então sabemos que esse bode serve como uma espécie de “caminhão de lixo ritual” e que esse ritual não é um sacrifício, porque o animal não é oferecido ao Senhor para sua utilização. Ao contrário, ele vai para longe do Senhor. O verso 16:5 fala de ambos os bodes como animais hatta’t (o termo usado em outros lugares para denotar a oferta de purificação – o termo em si tem um significado próximo de “pecado”); esse uso reflete o fato de que ambos os bodes têm papéis na purificação do mal, um através do sacrifício e outro através de um processo não-sacrificial de eliminação.

O dono do bode vivo é “Azazel”. Em Lv 16.8-10, a sintaxe lyhwh(“para/ ao Senhor”) e la’ aza’zel (“para /a Azazel”) é: preposição l + nome próprio, como em selos Israelitas que identificam objetos como pertencendo a indivíduos. em lyhwh, a preposição claramente carrega um significado possessivo: o bode sacrificial oferecido a Deus “pertence ao Senhor”. Assim, o paralelo la’ aza’zel significa “pertence a Azazel”

Já que Azazel é capaz de “ter posse”, ele precisa ser um ser sobrenatural que não o Senhor. E já que o Senhor só permite sacrifícios para si (e.g. Lv 17.7), Ele não permitiria que os Israelitas enviassem um bode para Azazel como sacrifício.

Assim nós já podemos cortar a gordura das teorias erradas – uma vez que sabem que la’ aza’zel é o nome próprio Azazel, referindo-se a um ser pessoal que não o Senhor, automaticamente superamos a noção de que Azazel seja um lugar. E também a noção tradicional que traduz erroneamente o termo como “bode expiatório (scapegoat)”

Na tradição Cristã (Barnabé, Tertuliano), o bode vivo simbolizava Cristo.Semelhantemente, Calvino o via como um sacrifício sem sangue que era “pareado” com o bode morto para representar outro meio de expiação, “quando Cristo, ‘feito maldição por nós’, transferiu para Si os pecados que alienavam o homem de Deus.” Entretanto, sabemos que o ritual não era um sacrifício, então não poderia ter tipificado o sacrifício de Cristo. Além do mais, como sacrifício, Jesus foi a Vítima “de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Então, se o bode vivo apontava para Cristo, mesmo em uma função não-sacrificial, por que ele pertenceria a alguém que não Deus? Se Azazel é Cristo, por que sua identidade sempre estaria separada de Deus, ao ponto de estar sempre no deserto em vez de no santuário (16.8-10)? Por que Ele seria o recipiente final dos pecados acumulados de Israel?

É verdade que o bode vivo vai para fora do acampamento, carregando rejeição, como Cristo faz em Hebreus 13:11-13. Entretanto, nessa passagem Cristo é identificado com a carcassa das ofertas de purificação, cujo sangue foi aplicado pelo sumo-sacerdote dentro do Tabernáculo, seja no lugar Santo ao longo do ano (Lv. 4:6-7,17-18) ou no Santíssimo no Dia da Purificação (Lv 16:14-16). Hebreus 13:11-13 não está falando do bode Azazel.

Então, quem é o misterioso Azazel, que não é mencionado por nome em nenhum outro lugar da Bíblia?

A dinâmica do ritual do bode vivo implicam que Azazel é um inimigo de Deus. O Senhor direcionou os Israelitas a transportar seus pecados em um bode para Azazel, que recebe essa carga corrompida. Isso seria como enviar a alguém um caminhão cheio de lixo radiativo e despejar no seu jardim da frente. Aqui, Azazel recebe uma carga disso.

Se Azazel for o inimigo de Deus e o bode pertencesse a ele, fica claro porque o sumo sacerdote usaria a sorte (isso é, o Senhor; cf. 1 Sm 10:19) para determinar o bode para esse papel ritual. De outra maneira, se o sumo sacerdote escolhesse os animais, pareceria que ele e o povo estariam oferecendo um animal para Azazel.

Mas se Azazel é o inimigo de Deus, qual o sentido de expiação/purificação (kipper) no bode, que era realizada ao enviá-lo para o deserto (16.10)? Aqui a purificação não-sacrificial era feita através do animal no sentido que ele funcionava como um veículo para remover os pecados morais do acampamento. Essa purificação não era substitutiva. Era kipper no seu sentido mais básico de restaurar o relacionamento entre Deus e o povo ao se livrar do mal que estava entulhado no meio das partes.

O bode do Senhor pertencia a Deus e era oferecido a Ele, mas também representava aquele que morreu pelo pecado humano: Cristo (Hb 13:11-13), que é o Senhor (Jo 8:58; 10:30) Se há essa conexão entre o Senhor e seu bode, podemos considerar a possibilidade de que o bode pertencente a Azazel e enviado para ele, também o representa. Se for assim, esse inimigo de Deus e Seu povo seria o portador final e recipiente das culpabilidade dos Israelitas, pecados de rebelião e pecados expiáveis (Lv 16:21-22). Ainda assim, ele não os carrega como um substituto pelos Israelitas.

O que Azazel fez para merecer esse tratamento? Levítico não diz. Mas a antiga interpretação judaica (1 Enoque 9:6; 10:4-5, 8 Apocalypse de Abraão, e outras literaturas rabínicas) identificam Azazel como uma fonte demoníaca do mal, a quem o Senhor faz com que seu povo devolva seus pecados. Isso faz sentido à luz do conhecimento fora de Levítico 16:

  1. Os seres humanos foram instigados por um tentados não humano (Gn 3), isso é, o diabo (cf. Mt 4; Lc 4).
  2. Tanto o bode do Senhor quanto o bode de Azazel era se’irim (bodes machos peludos). Áreas desertas, como aquela na qual o bode de Azazel era deixado, poderia ser habitada por se’irim selvagens (Isa. 13.21; 34.14). Em Levítico 17.7, o Senhor proíbe os Israelitas de oferecerem sacrifícios ilegítimos foram do santuário aos se’irim, que nesse contexto se refere a “demônios-bode”. Era apropriado banir o bode de Azazel para longe da presença de Deus; para o domínio de seus parentes, que representavam demônios (cf. Lc 11:24; Ap. 18:2).
  3. É um princípio bíblico que o resultado do mal retorna para aquele que o causou, como expressado em um provérbio : “Se um homem cava uma fossa, ele cairá nela; se um homem rola uma pedra, ela rolará de volta sobre ele” (Prov. 26:27). O Senhor garante que justiça será feita, derramando a culpabilidade de ações erradas sobre a cabeça de seus perpetradores (e.g. Ez. 9:10; 11:21; 16:43; 22:31). isso ajuda a explicar porque o Senhor direciona que as testemunhas de uma blasfêmia coloquem as duas mãos sobre a cabeça de uma blasfemador antes que ele seja executado, assim identificando-o como aquele que carrega sua própria culpa (Lv 24:14-15). Compare esse ritual com o gesto feito no ritual do bode para Azazel: o sacerdote coloca suas duas mãos sobre animal, carregando-o com com iniquidade através da confissão (16:21-22). A confissão do sumo sacerdote testificava contra Azazel. Ele, representando a comunidade de Israel, colocava a responsabilidade da instigação do onde ela pertencia e o bania do acampamento. Dessa forma, o sumo sacerdote rompia qualquer laço nominal, residual com o nefasto Azazel e assim cimentava a segurança do relacionamento de Israel com Deus.

Gane, Roy. “The NIV Commentary on Leviticus and Numbers”, Zondervan.


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