“O Amor Não Vale Nada”

Naquela sexta eu cheguei mais cedo em casa. Cozinhei e ajeitei as coisas para o sábado, para quando ela chegasse. Nós comemos, fizemos o culto de pôr do sol e ficamos juntos no sofá, lendo um livro. Não me parecia haver nada errado.

Mas seu coração já tinha partido.

Fomos à igreja no sábado pela manhã. Tivemos algumas reuniões à tarde, nada demais. Ela deitou em meu colo, mexeu em meu rosto, me fez carinho. Não sei dizer se tudo aquilo era só uma encenação…

Nós fomos ao pequeno grupo e depois andamos de patins no Ibirapuera. Foi só no fim da noite que percebi que havia algo errado, mas eu não sabia dizer o quê, e de qualquer forma, já era tarde.

Seu coração já tinha partido.

No domingo pela manhã ela disse estar com dor de cabeça. Fui à igreja sozinho.

Pela tarde, quando voltei pra casa, recebi, sem muitos detalhes, o comunicado funesto, atirado como palavras gélidas da sua boca:

“Estou indo embora. Eu não amo mais você. Já levei minhas coisas para o lugar onde vou ficar. Vou viver minha vida.”

A explicação? “As coisas esfriaram, caímos na rotina, os problemas surgiram. Me arrependi de casar cedo. Não sei quem eu sou. Não aguento ver você se dedicando e medingando carinho. Quero viver minha vida.” O que isso queria dizer afinal? Eu não faço a mínima ideia. Sempre acreditei que para nós não haveriam problemas intransponíveis, estações gélidas eternas, furacões insuportáveis e ela sabia disso. Onde há o compromisso do amor, tudo deveria ser possível (?).

Mas não havia mais o que discutir. A decisão estava tomada e ela, obstinada.

E aí veio o choro desesperado, o terapeuta, as noites sem dormir, a angústia, os remédios, a descrença, os amigos, o luto. Era como se meu intestino tivesse se transformado em uma cobra e meus outros órgãos, pequenos ratos. Eu estava tomado pela raiva de ter que rasgar as memórias dos últimos anos e viver como se houvesse um vazio na minha história. Eu estava revoltado porque me sentia traído, por não ter havido transparência – eu estava vivendo um teatro sem fazer ideia. Era como um maldito Show de Truman.

“Por quê, meu Deus!?”, era só o que eu gritava dentro de mim. Era a primeira frase que surgia em minha mente à cada noite, quando acordava no meio do escuro, vendo ela sair pela porta, ou deitada do meu lado. Era como uma maldição, um câncer tenebroso que me apunhalava a cada minuto de consciência e se alastrava como um monstro doentio quando meus olhos se fechavam. Meus dias eram vividos na alternância entre a vontade de levantar e a vontade de me entregar. Eu sentia o ressoar do pânico por trás de todas as coisas. O assédio de abandonar tudo o que eu acreditara, tudo pelo que eu vivera, era insanamente insuportável. Não era difícil de entender como o sofrimento da rejeição e da traição estava no âmago tanto da confiança em Deus quanto da mais terrível revolta. Eu mesmo balançava entre esses dois lados – era muito fácil se tornar o monstro que eu mais odiava, enquanto tentava exterminá-lo.

Eu só pedia a Deus que não me esperasse abrir a porta para jantar comigo. Que Ele agisse como um pai que se vê do lado de fora da casa, enquanto seu filho chora aos gritos, pedindo por ajuda em meios às labaredas do seu lar incendiado, ruindo aos escombros.

Eu havia ouvido a vida inteira que ele não arrombava portas. Mas foi a maior mentira de todas. Ele sabia fazer isso, e era muito bom quando precisava.

Eu demorei pra aceitar que não era minha culpa. Afinal, não havia sido minha escolha destruir nossa aliança “eterna” (a inscrição em minha aliança trazia escrito, ironicamente, nossos nomes e um ad eternum ao lado).

Eu demorei para aceitar que eu havia sido um marido dedicado, apesar de meus defeitos. Demorei para aceitar que ela simplesmente havia mudado, que havia se iludido com o mundo, com os desejos de um coração enganoso e seus falsos deuses. Eu demorei para aceitar que ela havia sido infectada pelo mesmo narcisismo que assedia a cada um, todos os dias, fazendo-a acreditar que sua ‘felicidade’ estava em uma vida cheia de sei-lá-o-quê, longe de Deus e de todos que a amavam. Aquela mulher que havia conversado comigo no domingo era uma impostora.

Não havia mais respostas. NADA além da dor e do anseio pela justiça. Uma dor talvez semelhante a que Deus sentiu com a primeira rejeição, inexplicável, misteriosa. Mas eu não ouso fazer tal comparação.

Mas em meio à dor, também havia o amor. Um amor que eu talvez não haveria conhecido sem passar por aquele vale infernal. O amor de tantos que se levantaram por todos os lados para não me deixar cair. Eu não estava abandonado, embora me sentisse assim. Eu era amado. E havia muito mais carinho disponível para mim do que aquele medingado naquele domingo cinza.

Eu seguia flanqueado, protegido, defendido pelas pessoas que tiraram seus próprios corações para usarem de escudo. Embora me sentisse frágil e arruinado, era como se nada mais pudesse me atingir – e Deus sabe que eu não poderia suportar mais nada.

O [T]empo curaria todas as feridas, transformaria a beleza em cinzas e delas surgiria um novo dia.

Eu havia carregado a sina de um lunático, encarando a morte enquanto esperava pela vida. Mas bastava. A noite precisava ser atravessada e não duraria eternamente. E agora o que me restava era uma existência reforjada, cheia de marcas, e talvez uma das coisas mais importante que já aprendi em minha vida:

O amor não vale nada.

Nós fizemos um ótimo trabalho emprestando novos significados ao amor.

De alguma forma misturamos tanto o amor com a beleza, o charme e a sensualidade que roubamos dele sua sublimidade. Nós dizemos “eu amo sushi”, “eu amo sexo”, “eu amo minha esposa”, sem praticamente nenhuma diferença no sentido dessas afirmações.

A realidade é que quando dizemos “Eu amo isso” ou “Eu amo você”, o que estamos dizendo na verdade é algo parecido com “Eu gosto disso porque me faz feliz”.

Nosso “amor” pelas coisas e pessoas é  avaliado pela capacidade delas de nos agradarem, darem prazer ou nos beneficiarem. O sacrifício pelo outro se tornou o crime hediondo contra a pseudoliberdade individual que destrói a imagem de Deus no homem.

O problema é que TODO relacionamento humano encara um momento onde o outro se torna inútil pra te trazer prazer, euforia e conforto.

O que acontece nessas horas? Bem, adivinhe: o amor acaba – é só ir embora.

Enquanto minha geração usar essa palavra com esse sentido, eu posso dizer com certeza:

O amor não vale nada.

Aquilo que deveria ser chamado de amor, é algo mais profundo, mais maduro. É algo como um compromisso abalável, mas indestrutível e regenerável, de se conhecer, gostar e cuidar. Parafraseando o cartunista americano Theodor Seuss, nós sabemos que amamos quando não queremos mais dormir, pois a realidade do outro é mais desejável do que os nossos sonhos.

O amor não é oposto ao julgamento, mas existe a despeito dele. Sermos queridos, mas não conhecidos é reconfortante, mas superficial. Sermos conhecidos, mas rejeitados é nosso maior medo. Mas sermos conhecidos e aceitos é, bem, muito parecido com o que significa sermos amados por Deus. É isso que precisamos mais do que tudo. Isso nos libera da pretensão, nos tira da nossa justiça própria e nos fortifica para qualquer dificuldade que a vida despejar em nós.

E é por isso que o maior objetivo de um relacionamento, para aqueles que amam a Jesus, não deveria ser simplesmente uma busca infindável por uma felicidade inalcançável – mas sim a alegria que brota do se tornar mais parecido com Ele, amando como Ele amou.

E é isso pelo que eu ainda anseio.


Um comentário sobre ““O Amor Não Vale Nada”

  1. Amar como Ele amou, exatamente isso, mesmo não sendo possível para seres imperfeitos, essa essência é mais profunda do que qualquer conceito atual sobre amor, se ao menos tentássemos amar dessa forma, o mundo seria bem diferente.

    Curtir

O que você pensa sobre isso? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s