Eu não estou no controle

Eu nunca odiei muitas coisas.

Mas acredito que a coisa que mais odiei em minha vida, desde adolescente, eram as incertezas.

“Será que vou passar numa faculdade pública?”

“Será que vou me casar?”

“Será que minha esposa vai ser caolha?”

“Será que vou ser gordo?”

“Será que vou arrumar um emprego?”

Essas e muitas outras incertezas sempre atormentaram meus sonhos, meus devaneios, minhas histórias, meus relacionamentos. Incertezas. Riscos, dúvidas, preocupações. Dê o nome que você quiser (eu vou chamá-las de seres rastejantes, porque ninguém gosta de seres rastejantes).

O fato é que eu precisei atravessar o vale mais escuro da minha vida para perceber uma verdade pueril, quase estúpida:

EU NÃO ESTOU NO CONTROLE.

As únicas grandes certezas terrenas que carrego são que o tempo vai passar, a morte vai chegar e no fim, só o amor vai contar.

Não consigo mais contar quantas vezes me iludi, agindo como se eu soubesse alguma coisa sobre o depois! Deixei de dizer o que sentia, porque achei que teria outra oportunidade; deixei de dizer que havia errado, porque achei que o outro estaria no mesmo lugar amanhã; deixei de me esforçar, porque achei que poderia fazer depois. Mas o que é a certeza sobre o depois se não a prepotência de alguém arrogante o suficiente para achar que está no controle das coisas? Na arrogância da minha juventude, eu não previ o sofrimento, eu não previ o fracasso, eu não previ o fim. Eu não vivi consciente do ressoar do pânico por trás de todas as coisas.

Eu não posso me forçar a ter sucesso profissional, nem fazer com que as pessoas me amem. Eu não posso prender alguém para ficar o resto da minha vida ao meu lado e nem mesmo garantir que eu terei saúde amanhã, a despeito dos meus hábitos saudáveis.

Eu não sou relativista e nem estou fazendo uma apologia ao hedonismo. Eu acredito em todas as certezas que estão enraizadas na natureza de Deus, como seu amor, seu sacrifício, sua redenção, o imperativo moral que brota do simples fato dEle existir e sua promessa de restauração dessa ordem quebrada das coisas.

Mas quando entendi que não controlo praticamente nada do que eu gostaria de controlar, também entendi que sou responsável por esse pequeno instante na existência onde eu tenho a oportunidade de ser real – o agora. Percebi que a única coisa que importa são as sementes que planto nesse pequeno vaso de terra úmida.

Eu posso plantar o amor, a amizade, a abnegação, a saúde, o esforço profissional, sem me preocupar com o que acontece depois, pois não cabe a mim cuidar disso. Não existem garantias de que eu colherei um casamento, amigos, favores, uma vida longa ou sucesso. Não existem garantias. Algumas das sementes de amor, renderão frutos de dor. Outras sementes de companheirismo, renderão espigas de abandono.

E se eu deixar que essas colheitas negras afetem a minha escolha das sementes que plantarei, então terei me tornado presa de meus seres rastejantes.

Em outras palavras, escrevi tudo isso para dizer que estou aprendendo que não vale a pena deixar minha preocupação com o amanhã, com a reação dos outros ou com os resultados afetarem minha decisão de viver, agora,  aquilo que é certo, que é bom, que é amável. Viver feliz é abraçar as incertezas e seus custos – e o que eu perder ou ganhar diz respeito a mim, somente.

O futuro sempre será uma estrada com uma neblina pesada. Não enxergar mais de um palmo do que vem a seguir é parte do que é ser humano, do que é ser real, frágil e dependente. E por isso eu quero aprender a depor meu volante de brinquedo aos pés de Jesus, a cada dia, e deixar minhas mãos livres pra receber os verdadeiros presentes que ele tem pra mim.

Deixar de segurar o fútil e efêmero para, com as mãos livres, cultivar o real e eterno.

Sabe aquela vontade, que comprime o peito, de dizer “eu te amo”, “eu sinto sua falta”?

Eu não vou mais prender essas palavras. Quero cultivar transparência, não importa o que aconteça.

Sabe aquele abraço, que deixa a gente triste quando acaba? Aquele beijo, que poderia durar um instante a mais?

Eu quero voltar e abraçar mais forte, beijar outra vez.

Eu quero dizer “sinto muito” quando estiver errado. Perdoar o outro quando eu estiver certo.

Quero ser sincero sobre o que eu sinto, reduzir minhas expectativas, aumentar meu assombro com a vida, aprender a contemplar as coisas simples, deixar de lado os sonhos tolos que me afastam daquilo que importa de verdade.

Quero trabalhar pra valer enquanto eu puder. Negar fazer horas extras para não perder tempo com quem eu amo.

Quero viver pra reduzir a distância entre eu, boneco, e Ele, homem.

Quero enfrentar meus seres rastejantes, abraçá-los e chamá-los pra jantar.

Porque o tempo vai passar e eu não o poderei parar.

A dor vai acontecer e sua alternativa é pior do que morrer.

E, eventualmente, a morte chegará e eu não poderei me esconder.

Mas quando ela estiver próxima, quero estender os braços sem medo, sabendo que o maior legado que deixei não foi meu sucesso profissional, meu refino intelectual ou meu tesouro material, mas sim ter aprendido a amar.

Amar como eu fui amado primeiro.

E então, finalmente enxergar o que estava por trás da neblina, que conheci só de ouvir falar.


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