Falando francamente sobre adornos

E quanto aos adornos?’

Imagine por um momento sete fotos de sete mulheres.

A primeira imagem mostra uma  mulher com um vestido preto e um broche de prata preso em seu lado direito.

A segunda imagem mostra uma mulher com um vestido preto e um colar de pérolas em volta de seu pescoço.

A terceira, uma mulher num vestido preto, com anéis em todos os dedos, um bracelete em cada braço, seis colares de pérolas em seu pescoço, cinco brincos em cada orelha e em seu cabelo, um penteado elaborado com ouro e prata entremeado nos fios.

A quarta imagem mostra uma mulher num vestido preto com um cachecol elegante ao redor de seu pescoço.

A quinta, uma mulher num vestido preto com um cachecol elegante e um broche de prata preso no lado direito.

A sexta imagem mostra uma mulher com um vestido preto, com um anel simples em cada mão e uma corrente fina de ouro ao redor do seu pescoço.

A sétima imagem mostra uma mulher num vestido, sem jóias, mas com um penteado elaborado que a custa R$70 reais por semana.

Quais delas você diria que é adventista? Provavelmente a 1, 4, 5 e 7. E todas elas estão usando adornos. Se o uso de adornos é errado, sem exceções, então nós precisamos ser consistentes a falar contra tudo que adorna e não limitar aos metais preciosos e jóias, enquanto permitimos prendedores de gravatas, abotoaduras, penteados elaborados, colares de renda, arquinhos de cabelo brilhantes, etc.  A pergunta é: o que a Bíblia realmente diz sobre adornos? Precisamos ter em mente que Deus, em lugar nenhum nas Escrituras, considera a prática de se adornar como instrinsecamente imoral ou má e a concede associações positivas em diversos momentos.

Adulterar é sempre errado. Roubar é sempre errado. Blasfemar Deus é sempre errado. Mas quando se trata de adornos, encontramos usos positivos e negativos. Primeiro examinaremos os textos tradicionais, usados comumente contra o uso de jóias.

Genesis 35:4

“En­tão entregaram a Jacó todos os deuses es­trangeiros que possuíam e os brincos que usa­vam nas orelhas, e Jacó os enterrou ao pé da gran­de árvore, próximo a Siquém.”

O que esse texto nos diz? Não é só porque a família de Jacó deixa de lado algumas coisas que elas necessariamente são más. Jeremias 7:29 diz ao povo de Deus que cortem o cabelo e o joguem fora. Nós ensinamos que todos deveriam ser carecas? Não, precisamos entender o contexto e o princípio por trás de cada mandamento.

Jacó está se preparando para ir a Betel e erguer um altar para Deus. Ele quer uma concessão especial da bencão de Deus. Ele sabe que há membros familiares com lealdades divididas, então os pede que coloque de lado os deuses estrangeiros, purifiquem-se e troquem suas roupas. O contexto é de purificação, dedicação e renovação da fé perante Deus. Que parte os brincos tem nisso? Eles tiraram os brincos porque Deus era contra os adornos ou há algo mais em jogo? O texto não nos diz, então precisamos interpretá-lo. Alguns acadêmicos acreditam que essas jóias em particular eram “empregadas no propósito de adoração idólatra, frequentemente cobertas com figuras alegóricas e escritas misteriosas – possuindo supostamente uma virtude talismânica”. (1) Essa conclusão é válido já que nenhum outro adorno é especificado e a associação do texto com deuses estranhos é clara. Também não há nenhuma proibição relacionada ao uso de jóias ou adornos registrada nesse evento. Sabemos que as mulheres também usavam braceletes e anéis nas narinas (Gn 24.22), embora eles não tenham sido retirados da família de Jacó, somente os brincos. O texto não faz nenhuma prescrição moral, portanto precisamos ter cuidado com as conclusões morais que tiramos dele. Se o princípio é não usar nada que revele aliança a um deus estranho, então precisamos deixar de lado qualquer coisa, qualquer prática, que comprometa nossa fé em Deus.

Êxodo 33:4-6

Quando o povo ouviu essas palavras terríveis, começou a chorar, e ninguém usou enfeite algum. Isso porque o Senhor ordenara que Moisés dissesse aos israelitas: “Vocês são um povo obstinado. Se eu fosse com vocês, ainda que por um só momento, eu os destruiria. Agora tirem os seus enfeites, e eu decidirei o que fazer com vocês”. Por isso, do monte Ho­rebe em diante, os israelitas não usaram mais nenhum enfeite.

Essa passagem é usada como um dos textos chaves indicado a desaprovação de Deus em relação a ornamentos e jóias. O que a passagem está realmente dizendo em seu contexto?

  1. Os filhos de Israel haviam dado suas jóias a Arão, para fazer o bezerro de ouro (Ex. 32:2-4)
  2. Eles adoraram esse bezerro em vez do Deus verdadeiro (verso 6).
  3. Deus diz ao povo que não poderia mais acompanhá-los, pois eles eram um povo de “cerviz dura” e que Ele poderia destruí-los (33:3).
  4. O povo começou a prantear e tirar seus ornamentos, porque Deus pediu que eles fizessem isso até que Ele decidisse o que fazer com eles.

Nos dias de Jeremias, o povo de Deus também se rebelou contra Ele. Novamente Deus usou a mesma linguagem “Eles eram de dura cerviz, e cometeram mais mal do que seus antepassados” (Jer 7:27).  Mas dessa vez, em vez de ordenar que tirassem seus enfeites, Ele ordena que “cortem seus cabelos e joguem fora” (verso 29), e continua “lamentem-se sobre os montes estéreis, pois o Senhor rejeitou e abandonou esta geração que provocou a sua ira.”

O argumento normalmente é que o “mandamento dos ornamentos” ainda se aplica hoje, porque nós ainda usamos ornamentos e portanto precisamos removê-los assim como o povo de Israel foi ordenado. Se essa linha de raciocínio é válida, então precisamos ser consistentes e aplicar o mesmo princípio a Jeremias 7:29 e dizer às pessoas que elas devem também cortar seus cabelos, já que ainda “usamos cabelos”. Naturalmente um ser pensante irá recuar perante essa segunda sugestão e dizer “Espere um minuto! Cortar o cabelo não é um sinal de arrependimento?”

E já que isso não é mais um sinal de arrependimento hoje, essa aplicação particular não é mais válida. Por que Deus pediu aos Israelitas que tirassem seus ornamentos? Eles haviam acabado de usar seus ornamentos para criar um deus falso, e assim como Deus derramou pragas nos símbolos dos falsos deuses do Egito (rio, sapos, moscas, etc), Ele novamente fez dos símbolos dos falsos deuses (a saber, os ornamentos) os objetos de sua ira. Eles tiraram os ornamentos como um sinal de luto, angústia e arrependimento. Não há indicação alguma de que essa injunção tenha sido permanente. De fato, pouco tempo depois Moisés pediu doações desses mesmos ornamentos para construir o tabernáculo.

Recentemente o Dr. Richard Davidson sugeriu outro significado para essa passagem. Ele deixa claro que não há nada intrinsecamente errado com o uso de jóias:

“A Bíblia é clara: jóias são belas. Deus as fez, e as ama. Antes do pecado se erguer no universos, Lúcifer era coberto de jóias; ‘cada pedra preciosa era … sua cobertura;’ era lindo, esplêndido, e preparado por Deus (Eze. 28:13). No Antigo Testamento Deus compara Sua salvação aos ornamentos de uma noiva (Isa. 49:18;61:10). No fim do milênio, a cidade santa descerá, ‘preparada como uma noiva adornada para seu marido’ (Ap. 21:2). Um princípio primário então é que as jóias são lindas e aprovadas por Deus.” (2)

Já que Davidson ocupa a chefia do Departamento do Antigo Testamento no Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia, sua visão sobre a propriedade das jóias carrega algum peso. Mas Davidson tenta também enunciar outro princípio:

“Mas a isso precisa ser adicionado outro princípio. Do registro do Antigo Testamento, parece que em tempo de julgamento corporativo investigativo e/ou executivo, Deus regularmente peede que Seu povo remova seus ornamentos como um símbolo externo do contexto especial do julgamento. O exemplo mais claro disso está registrado em Êxodo 33:5-6.” (3)

Já que intérpretes Judeus aplicam essa passagem ao Dia da Expiação e judeus ortodoxos não usam ornamentos de ouro no Yom Kippur hoje, Davidson sugere que isso poderia se aplicar aos Adventistas, desde o começo do julgamento em 1844. Davidson reforça seu argumento apelando para Isa. 3:13-14, 16-23 e Ezequiel 16. E então diz: “Colocando esses princípios juntos, é possível que desde 1844 os Adventistas tenham o privilégio de se abster do uso de jóias como um sinal exterior especial da verdade presente única de que eles são Laodiceia, ‘o povo do juízo;’ de que vivem no tempo do juízo investigativo? É possível que os Adventistas adotem essa postura também porque, embora a igreja esteja espiritualmente esposada a Cristo (Ef. 5; 2 Cor. 11:2), o casamento ainda não está consumado? (Ap. 17:4-5) Para aqueles que entendem as questões mais profundas, colocar os adornos matrimoniais antes do casamento é a postura da Babilônia, a prostituta (Ap 17:4-5), e não da Igreja Verdadeira (Ap. 12:1).  Não é que usar jóias seja errado – mas nós temos o privilégio de esperar até a festa de casamento, quando o próprio Jesus adornará sua noiva com jóias. Essa discussão exige investigação mais profunda, mas ilustra como a postura de “afligir a alma” no Dia da Expiação pode informar as questões práticas do estilo de vida em nossa igreja.” (4)

Davidson deve ser reconhecido por tentar colocar a prática de não usar jóias em uma base bíblica mais firme. Entretanto, há diversos problemas com essa abordagem:

1. Não há consenso sobre o que constitui jóias. Adotamos a versão adventistas ou a versão geral? Proibimos todos os broches, prendedores de gravatas, abotoaduras, presilhas ornamentais? Começamos a fazer uma lista? Com base no quê selecionamos certos itens para estarem na lista? Lembre-se que a igreja já proibiu borracha, corais e até mesmo plumas.

2. Ele faz o mesmo uso genérico de Isa. 3:16-23 que outros comentaristas adventistas fazem e, ao fazê-lo, extraem coisas demais desse verso como veremos quando discutirmos esse texto.

3. Ele falha em mencionar que foi o próprio Deus que vestiu sua noiva com jóias (Ezequiel 16) e depois as retirou quando ela o desertou.

4. Mesmo se concedermos alguma validade à sua interpretação, devemos tornar isso uma exigência de discipulado ou somente um ensino da igreja?

5. O serviço do santuário ainda não havia sido instituido, então não podia ter sido o Dia da Expiação quando os Israelitas dançaram ao redor do bezerro de ouro. Portanto não há como remeter ao simbolismo do dia da expiação. Deus também disse ao seu povo “que chorassem e se lamentassem, que cortassem seus cabelos e colocassem roupas de sacos” (Isa. 22:12) como um sinal de arrependimento. Deveríamos sugerir que as pessoas fizessem isso hoje, ainda? Em outras palavras, sobre quais princípios nós enfatizamos certas formas demonstração externa de lamento e arrependimento e as tornamos normativas para hoje, enquanto não fazemos isso com outros exemplos dados na Bíblia?

O que podemos aprender nesse passagem é o princípio de que o que quer que nos separe de Deus deve ser abandonado; isso pode incluir nossos adornos se eles se tornam um ídolo ou uma fonte de orgulho. Nesse contexto, os adornos foram usados como substitutos para um deus falso. Novamente, Deus não os pediu que tirassem seus adornos porque ele era contra a ornamentação pessoal, mas porque eles haviam sido usados para o propósito errado. Se usarmos adornos para o propósito errado, devemos deixá-los também.

Isaías 3:16-23

“O Senhor diz: “Por causa da arrogância das mulheres de Sião, que caminham de cabeça erguida, flertando com os olhos, desfilando com passos curtos, com enfeites tinindo em seus calcanhares, o Senhor rapará a cabeça das mulheres de Sião; o Senhor porá a descoberto as suas vergonhas”. Naquele dia, o Senhor arrancará os enfeites delas: as pulseiras, as testeiras e os colares; os pendentes, os braceletes e os véus, os enfeites de cabeça, as correntinhas de tornozelo, os cintos, os talismãs e os amuletos; os anéis e os enfeites para o nariz; as roupas caras, as capas, as mantilhas e as bolsas; os espelhos, as roupas de linho, as tiaras e os xales.”

Essa passagem prova muita coisa. Frequentemente você verá que em nosso material publicado os autores terminam o texto com o verso 21, falando dos anéis e enfeites para o nariz, omitindo completamente as roupas caras, capas, mantilhas e bolsas; espelhos, roupas de linho, tiaras e os xales. Se Deus é contra os adornos e joias listados nessa passagem, então Ele também é contra as roupas e outros acessórios listados. Dividir o texto em dois e dizer que uma parte se aplica aos dias de hoje a outra não é manipulação textual do pior tipo. Isso só pode ser feito se houver algum texto que traga a premissa a priori de que as joias são más em si para que essa crença seja imposta sobre esse texto. Caso contrário, isso é utilizar o método do texto-prova em sua pior forma. Eu não citarei exemplos específicos desse uso para não causar vexame aos autores. Entretanto, é muito cinismo dos pensadores que descobrem isso e continuam céticos de outras interpretações. O que Deus está dizendo nessa passagem? O contexto descreve o julgamente que Deus trará sobre Jerusalém e Judá e particularmente às “mulheres altivas de Sião”. Homens também estão inclusos nesse julgamento; o capítulo termina dizendo que as mulheres trocarão suas roupas finas por “roupas de saco” e os homens “cairão pela espada” (versos 24 e 25). Se tomarmos essa passagem literalmente, então precisamos tomá-la literalmente por inteira e banir espelhos, tiaras, capas, bolsas, xales e assim por diante. Não há nenhuma indicação na passagem de que possamos selecionar o que quisermos. Se Deus se opõe às joias listadas nesse texto, Ele também se opõe a um monte de outras coisas. Mas Deus está falando sobre o excesso aqui. Está dizendo ao Seu povo que a aparência externa não é um substituto para o ser interno e suas motivações. O contexto é a respeito de “pessoas altivas”. Deus não tem nada a dizer sobre mulheres que são humildes, que não são altivas. Sua aparência só se torna uma questão a ser notada quando é enfatizada em excesso e motivo de orgulho.

 

1 Timóteo 2:9, 10

“Da mesma forma, quero que as mulheres se vistam modestamente, com decência e discrição, não se adornando com tranças e com ouro, nem com pérolas ou com roupas caras, mas com boas obras, como convém a mulheres que declaram adorar a Deus.”

Primeiro, vamos olhar para o texto em si mesmo, como um texto-prova. O que ele está dizendo? Diz que as mulheres devem se vestir com modestia, decência e discrição. Nenhum cristão irá contra esses princípios. Então Paulo dá alguns exemplos de como aplicá-los: “não se adornando com tranças e com ouro, nem com pérolas ou com roupas caras” Mas ele não conclui aqui. Eu raramente ouço ou leio que as mulheres devem praticar atos de bondade. Essa parte normalmente é deixada de lado, em qualquer discussão sobre joias. Note aquilo que nós não proibimos. Não proibimos “cabelos trançados”, nem “ouro”, que é usado comumento na forma de broches, relógios, clipes de cabelo, prendedores de gravata. E também não damos nenhuma definição do que “roupas caras” podem realmente significar. Concluimos desse texto que brincos, colares, anéis e braceletes são proibidos. Que tipo de exegese é essa?

Em segundo lugar, nós divorciamos esses textos do seu contexto, completamente. O verso anterior diz: “Eu quero que os homens de todos os lugares ergam suas mãos sagradas em oração, sem ira ou dissensão.” Nós na verdade desencorajamos nosso povo de seguir esse texto. Alguns dizem que se refere a concessão da benedição. Mas onde isso é dito no texto? O texto seguinte diz que as mulheres devem aprender em silêncio, quietude e completa submissão. Diz que as mulheres não devem ensinar ou ter autoridade, mas se manter em silêncio (verso 11 e 12). Nós não praticamos essa recomendação de Paulo. “Ei, espere um minuto”, alguém dirá, “nós não deveríamos interpretar essas textos? Se os entendermos de forma literal, vamos acabar praticando todo tipo de coisas estranhas”. É claro que devemos interpretá-lo, mas, novamente, precisamos aplicar os mesmos princípios de interpretação à todas as partes da passagem e não somente à uma sentença ou parágrafo. Leia o capítulo inteiro. O contexto se refere à instruções sobre formas apropriadas de adoração, que são dadas no contexto judaico e gentio, daquele tempo. O evangelho trouxe uma filosofia de liberdade aos povos e às culturas. Paulo disse aos Gálatas que não há nem judeu, nem grego, escravo ou homem livre, homem ou mulher, pois todos são um em Cristo (Gl 3:28). As mulheres haviam sido sujeitadas a todo tipo de indignidades. Elas nem podiam adorar junto de homens. Precisavam sentar por trás de uma cortina, na sinagoga. Agora elas estavam se acelerando. Paulo diz, “Cuidado. Não vão tão depressa. Entendo suas necessidades, mas vocês terão mais influência se vestirem-se de forma apropriada para adoração e não lutarem contra sua cultura no culto de adoração, exigindo participação igual a dos homens.”

A carta de Paulo a Timóteo discute vários problemas na igreja: pessoas ensinando falsas doutrinas e criando dissensões (1:3,4); percepções erradas sobre casamento e dieta (4:3,4); o tratamento descuidado de pais idosos e avós (5:1-16); o tratamento correto de líderes eclesiásticos (5:17-20); e os problemas na adoração (2:1-15), dos quais os excessos na aparência haviam se tornado mais importantes do que o espírito de adoração. Já que as instruções de como as mulheres deveriam se vestir aparece num contexto adoração, o caso deveria ser montado sobre o fato de que Paulo está falando sobre como as mulheres devem se vestir quando pariticipam do culto público. Somente se você tomar o texto fora de seu contexto será possível considerar uma proibição contra adornos em todos os lugares e momentos. Outras questões poderiam ser muito bem consideradas: já que Paulo não menciona prata, ela poderia ser usada? Se ele fosse estender a lista, será que incluiria cachecóis, lenços, óculos caros e outros acessórios? E por que só as mulheres são consideradas? Os homens também usavam joias nos tempos bíblicos. Curiosamente não existem textos condenando homens pelo uso de adornos.

Madelyn Jones-Haldeman (professora de Novo Testamento na Universidade La Sierra) acrescenta uma luz ao contexto dessa passagem: “Ter autoridade sobre um homem (verso 12), não é o verbo comum usado para descrever o poder ou responsabilidade de alguém. Em vez disso, no grego, a palavra trás a ideia tanto de sedução quanto assassinato. Professoras tanto nos tempos gregos e romanos tinham a reputação de seduzir sexualmente seus alunos. A palavra também sugere assassinato — ter poder completo sobre alguém a ponto de destruir aquela pessoa. Assim a vestimenta dessas mulheres sugeria poderes sedutores e o dinheiro que possuiam sugeria poder de outro tipo. A passagem na realidade lida com o poder e autoridade intencional, sendo usado de formas inescrupulosas.” (5)

Os princípios são claros: modestia, decência e discrição. Além disso, precisamos deixar para que cada pessoa decida como aplicará esses principios em suas vidas.

1 Pedro 3:3, 4

“A beleza de vocês não deve estar nos enfeites exteriores, como cabelos trançados e joias de ouro ou roupas finas. Ao contrário, esteja no ser interior, que não perece, beleza demonstrada num espírito dócil e tranquilo, o que é de grande valor para Deus.”

Qual é o contexto dessa passagem? Ela na verdade começa com o verso 13 do capítulo 2 e se estende até o verso 12 do capítulo 3. Pedro está discutindo relacionamentos: primeiro, entre governos e cidadãos; segundo, entre mestres e servos; terceiro, entre maridos e esposas; e por último, entre cristãos. A passagem inteira é sobre relacionamentos e não sobre adornos. Por que esse tema é mencionado, então? Pedro está falando sobre como esposas cristãs podem ser melhores esposas para maridos não cristãos. Ele diz que, para isso, elas não devem depender da beleza exterior ou no quão bem se vestem, mas sim em um espírito gentil. Ele diz que os maridos saberão que elas são cristãs não pela aparência exterior, mas pelo caráter que se revela pelas ações. Estranhamente, nós acabamos virando o texto de ponta cabeça. Dizemos que você pode dizer quem é Adventista pelo que ele não está usando em vez de ser pelas suas atitudes e relacionamentos. Pedro diz que a forma pela qual você identifica um cristão é pelas suas atitudes e relacionamentos e não pela sua aparência. Novamente, nós filtramos o texto. Negligenciamos as tranças, interpretamos ouro como alguns tipos de adornos, somente, e evitamos dizer qualquer coisa sobre roupas caras.

Um ponto interessante diz a respeito da frase “roupas caras” ou “roupas finas”. Não existe nenhum adjetivo modificando a palavra “roupas” no grego. Pedro está literalmente dizendo “não use roupas”. É claro que não acreditamos que Pedro está dizendo que não devemos usar roupas e é por isso que o qualificador foi adicionado. Mas ele não existe no grego. Se podemos adicionar um qualificador aqui, seria também lógico adicionar um qualificador antes de “joias de ouro”, indicando o seu uso inapropriado, excessivo? Novamente precisamos entender os tempos nos quais os autores bíblicos deram essas recomendações. A professora Madelyn nos lembra:

“As vestimentas austeras sugeridas em 1 Pedro contrastavam fortemente com os vestidos exóticos e elaborados usados pelas participantes femininas nas festas de Ártemis. Escritores daqueles tempos descrevem em detalhe a beleza das mulheres que participavam das paradas ao longo das ruas, vestidas em chitons de púrpura, com penteados elaboradamente trançados com ouro e joias. As mulheres que se vestiam dessa forma, apresentavam-se com uma atraência erotica; os observadores masculinos se convenciam de que elas eram imorais […] As mulheres ricas deviam ser cuidados nas suas vestimentas para que a sociedade não as considerassem imorais como aquelas que atendiam às festas cúlticas. Os maridos poderiam ser mais facilmente atraídos à religião cristã se as mulheres se conformasse às normas de vestimenta delineadas pela sociedade, pois assim eles não se preocupariam sobre a moralidade de suas esposas ou sobre a pureza de seu casamento.” (6)

Se o contexto e situação histórica são ignorados, podemos fazer a mesma coisa com as ordens de condenar filhos desobedientes à morte (Ex 21:17); proibir eunucos de se tornarem Adventistas (Deut 23:1), impedir homens de cortar seus cabelos e barbas (Lv  19:27); abolir o uso de gravatas pelos pastores, já que não devem usar nada que os façam suar (Ez 44:15, 17 e 18); e cumprimentar todos com ósculos (Rm 16:16). De fato, se desconsiderarmos o contexto em nossos estudos, podemos até mesmo exigir que as pessoas usem joias, já que em Ex. 3:22 Deus ordena que o povo de Israel use as joias de prata e ouro tiradas dos Egípcios, como sinal de sua libertação. Como Deus poderia fazer isso se o uso de joias fosse pecado? O pecado é sempre pecado. Sem elaborar muito essa questão, precisamos explicar melhor porque utilizamos alguns textos de forma literal e ignoramos outros.

O Lado Positivo das Joias

A Bíblia diz muito sobre o belo e os adornos. O santuário, o templo, as roupas do sumo sacerdote, todos adornados com ouro e joias (Exd. 35:22; 1 Chron 29:2; Exod. 28:8-24). A donzela de Cantares é elogiada por usar brincos e colares (Ct 1:10, 11). Deus ordena que os filhos de Israel usem as joias tomadas dos Egípcios (Exod. 3:22). Esse é um ponto marcante pois, como disse acima, Deus nunca advoga algo que seja imoral como moral sob “certas circunstâncias”.  Na alegoria de Ezequiel 16, Deus conta como Ele adornou sua esposa (Israel) com: “Joias, braceletes, colares, enfeites de nariz, brincos e uma coroa em sua cabeça” (Ez 16:11 e 12). Em nenhum lugar na Bíblia nós encontramos Deus usando algo que é mau sob uma luz positiva. O porco nunca é considerado de forma positiva. Nem os ídolos. Nem a prostituição. Nós temos exemplos de coisas que foram boas e se tornaram más por causa do mal uso pelo povo, como a serpente de bronze que Moises usou para curar os Israelitas e que mais tarde teve de ser destruída por Ezequias, pois o povo havia começado a adorá-la (2 Reis 18:4). Também temos exemplos de coisas que foram deixadas de lado por um tempo, como enquanto o povo jejuava, tirando suas roupas regulares e se vestindo de roupas de saco. Mas não temos exemplo de coisas más sendo endereçadas de forma positivamente, a menos que as joias sejam a única exceção.

Por vezes e vezes a Bíblia usa as joias em contextos que as apresentam de maneira positiva (Lam. 4:7; Mal 3:17; Prov. 3:15, 16; 8:11; 20:15; 25:12; 31). É importante considerar que no Antigo Oriente Próximo havia uma razão bem prática para o uso de joias: não havia bancos para se guardar as riquezas. O lugar mais seguro para se armazenar a riqueza de alguém era com a própria pessoa. Por isso eram tão importante que uma esposa conseguisse um bom dote. Ela usualmente o receberia na forma de joias, que seriam usadas e poderiam ser vendidas se ela passasse por algum momento de privação.

A consideração pelo contexto (temporal, local e cultural) bíblico deve ser sempre um ponto de atenção quando interpretamos os textos. Como já declaramos, podemos utilizar a Bíblia para provar qualquer coisa através de textos isolados. O que pode ser válido sob uma circunstância, pode ser o completo oposto em outra. João Batista vivia como um asceta. Ele praticava um estilo de vida muito simples. Entretanto, Jesus se compara a ele, mostrando que, enquanto Ele também praticasse um estilo de vida simples, Ele não praticava o ascetismo de João (Lc 7:33, 34). O que era apropriado para João, não era necessário para Jesus. Alguém poderia usar os textos sobre João não comer pão e não tomar vinho e se alimentar somente de gafanhotos e mel para defender que nós deveríamos seguir a mesma prática hoje – da mesma forma que proibimos o uso de certas formas de adorno. Precisamos distinguir entre o que é essencial e tangencial, secundário.

Texto originalmente escrito por J. David Newman, D.Min. Pastor da New Hope Seventh-day Adventist Church, Burtonsville, Maryland

Referências:

 

1. Pulpit Commentary, Vol. 1, p. 141.

2. Richard Davidson, “The Good News of Yom Kippur,” Journal of the Adventist Theological Society, Vol. ? p. 17.

3. Ibid.

4. *b8d., p. 18.

5. Madelyn Jones-Haldeman, “Adorning the Temple of God,” Spectrum, Vol. 20, No. 2, p. 52.

6. Ibid., p. 54.


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